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Pitty que pariu

Quarta-feira, Julho 09, 2008




Corremos para os braços de Morpheu


Desde a lida mais remota da consciência do ser humano abundam preocupações e elaborações sobre o sono. Ela inspira histórias diversas, seja a Bela Adormecida, seja o soneca dos sete anões, seja na mitologia a história de Morpheu.

Pode ser idiota ter que admitir, mas o descanso, a reposição das energias, o reequilíbrio do corpo, se dá através do sono. E ele nos faz toda diferença. Se dormimos pouco ficamos com olheiras, défict de atenção, impaciência e moleza. Se dormimos muito ficamos do mesmo jeito! Certa vez uma amiga me garantiu que o sono é retroalimentado. O que ela queria me convencer era de que quanto mais dormimos, mais precisamos dormir.

O que fazemos com frequência é idealizar o sono. Aliás, romanceamos o sono. Uma noite longa, tranquila, regular, de preferência fechando os olhos vendo a imagem do ser amado, e abrindo os olhos calmamente pela manhã e já o enxergando. Parece bonito, mas não é. É a visão do inferno! Já se olhou no espelho ao acordar? Tem condição do amor surgir? Bonito ao acordar, só gato e criança. De resto é uma tristeza, digno de pena mesmo. O cabelo desgrenhado, um hálito que não se comenta, os olhos e narizes inchados como os de quem tomou uma porrada na cara, uma lástima. Se alguém acorda bonito, por favor, vem dormir comigo!

Pra muitas pessoas, creio até que eu me inclua entre essas, o sono tranquilo é como um sonho de consumo. Eu não quero um carro do ano, eu não quero uma mansão luxuosa, eu não quero um sem número de amantes. Tudo isso parece ótimo, mas no fundo só me acrescentam em aborrecimentos. Eu quero é dormir. Dormir muito, consolada, tranqüila, calma.

Mas o sono, como tudo em nossas vidas, está a reboque da modernidade. Ele é maltratado, desconsiderado, desprestigiado pela economia que regula o mundo em que vivemos por insistência, por pura pirraça. Há frases que impulsionaram o capitalismo do tipo: coma ou durma bem. Quem trabalha muito, supostamente, deveria comer bem. E quem dorme muito, supostamente, trabalharia pouco e pouco ganharia para comer. Eis que se o intuito era me fazer prezar o trabalho, só consegue me colocar em dúvida. Adoro tanto comer quanto dormir, mas quando estou muito cansada, acabada, se tiver que escolher entre comer ou dormir, eu desabo.
Logo, se o êxito do indivíduo no mundo capitalista é informado pela proporção inversa do seu sono, eu estou fadada ao fracasso. Alguém me joga uma esmola?

Enfim, é muita condenação moral para o sono. Não se pode dormir no trabalho. Não se pode dormir no shopping. E pior, não se pode dormir nem no trânsito. O simples ato de dormir é tão civilizado, tão regulado, que eu vejo o sono quase como uma cerimônia. Não faltam protocolos: tem que ter um lugar solene, a cama. Com um traje apropriado, camisola ou pijama. Há ainda um horário fixado, afinal, quem está a salvo de um despertador? E como se não bastasse, o local tem que ser escuro e silencioso, tal e qual algo feito às escondidas, quase um crime.

Como tenho uma veia insubordinada, insisto em não seguir todas as regras. Por exemplo, eu me acabo numa naninha a tarde, mas tenho noção que é um regalo de poucos. E adoro dormir com qualquer roupa, pois me sinto pronta pra festa a fantasia quando visto pijama ou algo do gênero. Pra finalizar, despertador só me serve para piadas. E você, segue todas as medidas protocolares do sono?

:: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:22 AM :: Escreve que eu leio!:


Quarta-feira, Julho 02, 2008




Se evolui, o quanto me influi?




Os jornais têm matérias diversas. Há algumas dedicadas ao futebol, outras à política e ainda há as que se dedicam a economia, cultura ou ciência. Não importa muito se você abre o segundo caderno, o caderno de esporte ou o de economia. O que está por trás das notícias é sempre uma idéia de evolução. É incrível, não se pode estagnar, tudo tem que evoluir. E evoluir é tanto apresentado como uma aspiração quanto como um temor.
Compreendo bem que a vida é dinâmica, mais pra a mobilidade do que para a estática. Mas os extremismos me apavoram. Não à toa um dos argumentos imagéticos que mais me apavora é a do evolucionismo de Charles Darwin.
Eu não duvido um segundo que os seres humanos se transformam, ou se adaptam, ao ambiente. Todavia não acato a idéia de que o homem descende do macaco. Ninguém me convence de que quando vou ao zoológico faço visita aos meus primos.
Por mais pêlos que brotem pelo meu corpo, por mais envergada que se torne minha coluna, não tem jeito. Eu acho um ser humano tão parecido com um macaco quanto com um porco ou felino. Aliás, o macaco é bem mais condizente com uma adaptação ao mundo moderno, do que os seres humanos.
Se formos nos valer dos critérios de adaptação, o macaco sem tempo pra perder sendo improdutivo não se depila. Tem os dedos compridos de tanto digitar teclados. E a coluna dos macacos é envergada por horas seguidas de frente para um computador. O macaco é o homem do futuro? Será simiesco o homem do futuro? Não é bem assim, minha gente! Devagar com a evolução.
Muitas evoluções tecnológicas, evoluções biológicas, evoluções em técnicas esportivas, evoluções no mercado financeiro, em contraponto com bem pouca evolução moral. O mundo avança para um lado e os seres humanos retrocedem para o outro. Quando éramos poucos prezávamos o coletivo, agora que somos muitos o individualismo se sobrepõe a coletividade, esmagadoramente. E a cada edição de jornal abundante em avanços condizentes com o capitalismo, mais piegas se torna falar em evolução espiritual. A cordialidade, alguém viu por aí?
Façam um teste: Sublinhem quantas vezes aparece a palavra generosidade no jornal, e em comparação quantas vezes aparece a palavra violência. Bem vindos à evolução!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:44 AM :: Escreve que eu leio!:


Quinta-feira, Junho 26, 2008




A saia justa é o uniforme da modernidade


O cenário da modernidade é o da instabilidade. Tudo é volúvel, guiado por uma dinâmica cujo fluxo não temos controle. Dito isto imaginemos duas situações. A primeira uma reunião de família e a outra uma de amigos.
Mesa posta, várias comidas, um burburinho vindo da cozinha, pratos e talheres já a postos, a televisão na sala sendo zapeada sem que ninguém fale nada, até que a comida é posta na mesa. Começa aquele vamos nos sentar, vamos comer, vem pra cá, vem fulano, chega pra lá e todos se servem e se acomodam. Entre o ruídos dos talheres, surge um minuto de silêncio. Logo olham para o ser que tem entre 20 e 35 anos e perguntam: e aí, o que você ta fazendo?
O sujeito para de comer na hora, pensa em como compor um discurso que não vá causar choro ou pânico na família. Dá uma pausa e fala que está com um contrato temporário de seis meses numa empresa.
Não entendendo bem o avô pergunta se tem carteira assinada. A pessoa inquirida quase morre, pois essa tal carteira de trabalho mencionada é o tipo de documento que ele usa pra calçar a televisão do quarto. É o máximo de utilidade que ele conseguiu arranjar pra carteira.
O sujeito fica muito constrangido, chama a mãe no canto e diz: ta vendo, era por isso que eu não queria vir. Fica todo mundo me pressionando, me perguntando, me cobrando isso e aquilo. A mãe pede deculpas, como se de fato alguma culpa tivesse, e volta pra mesa dizendo que o trabalho do filho, embora seja temporário paga muito bem e que ele tem até algo melhor já em vista.
A situação é a de um barzinho. Um bando de amigos se amontoam numa mesa, disputam aos gritos quem fala mais bobeira, bebem bastante e chegam naquele ponto em que o grupo vai dissipando e a mesa do botequim torna-se divã de analista. Um olha para o outro e dispara:
- e aí, como que ta sua relação com a Silvia?
Ao que o amigo responde:
- Na boa, mas terminamos já tem um mês.
- Ah, desculpa.
- Não, tudo bem. E você e a Alessandra?
- Casamos!
- Que maravilha. E têm filhos?
- Ela tem, eu não.
- Eu não sabia que ela já tinha filhos.
- Não, ela teve por esses dias. Me chamou pra ser padrinho, mas acho que não vai dar, pois to pretendendo voltar com ela. No caso o papel de padrasto já ta de bom tamanho.
- Mas e aí, você ta trabalhando?
- Não. Claro que não. Mas meus pais me sustentam e estão doidos pra ter um neto. Acho que vou dar essa alegria pra eles.
- Alegria ou despesa?
- As duas coisas!
Ambos saem dão o assunto por encerrado. Chega de bebedeira, pedem a saideira. Depois de quatro saideiras acompanhadas de um silêncio sepulcral, pedem a conta, pagam e vão embora, cada qual pra um canto. Ambos pensavam o quanto o outro era entrometido, que fica perguntando tudo, achando isso ou aquilo bom ou ruim, cheio de opiniões que não queriam ouvir, afinal, ninguém tem nada a ver com isso.
E é assim a modernidade! Ela nos deixa ressabiados o tempo inteiro. Nos dá tanta liberdade quanto aprisionamento. Sequer sabemos como agir mediante a tantos avanços de um lado e retrocessos de outro.
E então, qual a pergunta mais saia justa que você tenta fugir, seja feita pela família, seja feita pelos amigos. No meu caso são três: ta trabalhando? Quando vai casar? E aí, não vai ter filhos?


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:35 PM :: Escreve que eu leio!:


Sexta-feira, Junho 20, 2008




O erê




Não adianta negar, todo mundo já foi criança. E não foi um dia, foram vários. Ninguém nasce adulto, nem Sidarta, nem Jesus Cristo, nem Matusalém, nem Hittler, nem Napoleão, nem ninguém. Por mais desconfortável que seja acreditar, até o Cid Moreira, a Dercy Gonçalves e a Zilca Salaberri foram crianças.

A criança precisa cuidados, carinho, atenção e de amparo dos pais e do Estado. Há um estatuto apropriado em prol do seu pleno desenvolvimento social. A nossa sociedade introspectou de forma decisiva a concepção de que a criança é um ser que precisa se desenvolver até estar apto para ser socialmente atuante, reprodutivo e, mais que tudo isso, produtivo. Mas não foi sempre assim!

Ainda no início do séc. XX as crianças eram numerosas na mão-de-obra que tocava tecelagens e industrias diversas, além de exercerem outros pequenos trabalhos domésticos, no comércio e até na agricultura.

E hoje, a realidade é diferente? Os otimistas diriam que sim, os pessimistas diriam que não. O componente ideológico de compreender a criança como um ser em formação é a distinção principal. Claro que atualmente há crianças que trabalham, mas não há mais a idéia de que isso é legal.

O amparo da criança pelo Estado é algo que em forma inevitavelmente gera controvérsias, mas há concórdia em reconhecer a sua necessidade. Não tomo as crianças como débeis ou incapazes, ao contrário, eu acho que elas são humanas, com todos os instintos a flor da pele. O que fazem é um processo de socialização. É como ensinar para elas as regras de um jogo.

Aliás, as brincadeiras são por certo atividades que de alguma forma preparam o ser para a vida adulta. Os brinquedos são elementos da vida adulta adaptáveis às atuações infantis. As sociedades se reproduzem nos brinquedos.

Por exemplo, a divisão sexual de atividades pode ser perfeitamente apreendida através dos brinquedos que são ditos próprios aos meninos e próprias às meninas. A mulher, que há de se preparar para o lar, toma conta da boneca, arruma a decoração, faz comidinha, passeia com o bebê no carrinho, brinca com a caixa registradora, escritório, se pinta para ser atraente ao sexo oposto (isso é o inferno na terra, mas é a mais dolorosa verdade) e uma infinidade de porcarias que a fazem quase tão estática, manipulável e inútil como uma Barbie.

Já os meninos competem em piques, no futebol, em jogos de cartas, tabuleiros, dirigem carrinhos de controle remoto, caminhões, empilhadeiras, carros de bombeiros, carros de polícia, motocas, lidam com bonecos e monstros (seus futuros patrões), guitarras, baterias, e são muito estimulados em jogos de raciocínio lógico e de percepção espacial. Conseguem perceber a nossa sociedade através dos brinquedos?

E logo na infância os instintos da criança vão sendo domados, as habilidades vão sendo trabalhadas para que esses pequenos seres se adaptem a sociedade. Há os que aceitam totalmente a socialização, mas há os que aceitam apenas parcialmente, como é o caso dos meninos que adoram as maquiagens e bonecas, ou as meninas que insistem em jogar bola. Mas devemos admitir que a sociedade anda, ainda que em passos lentos, investindo numa certa equidade entre as funções sociais, dissolvendo a duras penas o critério de gênero.

Pessoalmente tenho com as crianças uma relação excelente, afinal fui uma muito feliz e bem resolvida. Não menosprezo a necessidade de proteger, amparar e demonstrar as regras do grande jogo social, contudo, não trato as crianças como tolas. Elas já são pessoas, já têm personalidade definida desde os primeiros anos de vida. Costumo dizer que eles não mudam a personalidade, apenas a complexificam ou potencializam. É mais ou menos a teoria de que o filha da puta nasce!

Pra manter a tradição, que sem perceber incorporei ao meu blogger, de fechar o post com uma questão, quais as brincadeiras da sua infância que são reproduzidas ou que influenciaram decisivamente sua vida adulta, ou carreira profissional?

:: Postado Por Priscilla Xavier :: 12:33 PM :: Escreve que eu leio!:


Terça-feira, Junho 17, 2008




Quebrando o gelo



Quando os termômetros registram menos de 18º eu já dou o dia como duro. Acordar não é acordar, é sofrer mais do que em condições normais. E o que dizer do banho? É pensar nele e não levantamos mesmo.

O jeito é tirar a coberta aos poucos, entoando as palavras de força: eu vou vencer. Sim, vencerei, mas só daqui uns minutinhos. Se aconchega novamente no travesseiro, pensa que piscou o olho, mas dormiu mais meia hora. É preciso tomar uma decisão urgentemente: fechar os olhos só mais um pouquinho.

Se encolhe daqui, se ajeita de lá, até que não tem jeito. Da cama para o banheiro! Que dificuldade se acostumar com a dura temperatura fora dos cobertores. Vai à pia escovar os dentes, lembra que a água é fria e acha melhor escovar os dentes durante o banho.

Enfim, banho tomado. E a roupa? Casaco tem dois tipos: os bonitos e os quentes. É porque os que aquecem são preenchidos, estragam as formas, e faz todo mundo parecer um tonel, um tambor, ou algo que o valha. Inverno é sempre assim. As mulheres são de longe as mais prejudicadas, pois casaco não combina com nada, desvaloriza um monte de adereços e de consolação só mesmo o poder usar bota. No meu caso no way!

Contrariada pela escolha do casaco, chega a hora de sair. Na rua faz um sol muito do fajuto, que não dá vazão para o frio. O vento impiedoso vai solapando as faces e rachando os lábios. Na mente um só pensamento é intermitente: eu quero minha cama, eu preciso voltar pra cama.

Assim o dia passa. Aliás, não passa, se arrasta. É olhar pra cara de qualquer pessoa na rua e você lê que ela queria mesmo era estar na cama, quentinha, aconchegada com um amorzinho do lado, vários dvds de porcarias pra ver (hoje pensei em ver História sem Fim, Minha Vida de Cachorro, Madame Bovary e Amazing Histories) . E no intervalos entre um dvd e outro, um sexo e uma refeição. Claro, algo balanceado, como crepe de nutela com morango, brigadeiro ainda morno, pão de queijo com requeijão e até uma pizza. Pensando bem, dependendo da companhia na cama, a comida é um elemento quase que dispensável. Por exemplo, com o George Clooney eu ficaria relax a pão e água. E Claro, há quem me fizesse dispensar até o pão!

Ai ai ai, um dia frio serve ao menos pra pensar possibilidades de morrer de prazer. Eu sou mesmo uma hedonista incurável. Me consumo em pensar, por exemplo, como se vive no Alasca. Suponho que eles não devem sair pra tomar uma gelada! E você, qual é a boa do dia frio? Que petiscos animariam seu dia? Que filmes? Que companhia te faria ficar a pão e água?

:: Postado Por Priscilla Xavier :: 10:20 PM :: Escreve que eu leio!:


Sábado, Junho 14, 2008




Podia acordar feliz (parodiando Cazuza)




Hoje acordei com o humor ruim, meio mastigada. Calma, podem prosseguir na leitura pois não irei descrever passo-a-passo o meu cotidiano. Já passei da idade! Mas enfim, o humor ta na sola do pé.
Tenho duas causas possíveis para o humor desagradável.O tombo que levei ontem a noite, ou os pesadelos que embalaram meu sono. Talvez até a combinação dos dois seja a causa mais provável.
Noite calma, todos em casa exceto minha mãe. Quando minha mãe mexe na maçaneta da porta eu avanço pela sala num salto para assustá-la. Meu pé agarra no pé do sofá, meu corpo girou numa semi pirueta, fui lançada contra a parede, não consegui apoio e fui direto ao chão. Imagina isso no apertamento em que eu moro. É um apertamento de primeira. De primeira porque se jogar a segunda vaza pela janela! Não é fácil arrumar 1,60m para poder lançar meu corpo ao chão. Eu arrumei! E se minha intenção era a de assustar minha mãe eu consegui. Aliás, não só ela. Assustei minhas irmãs, meu pai e até meu cunhado. O tombo foi o ohhh, mas ninguém conseguiu rir. Ainda mais porque tem uma semana que tirei uma bota imobilizadora do pé torcido. Acharam logo que era a revanche do pé.
Agora falando dos sonhos, nossa, como eles influenciam nosso humor. Quando sonho que to namorando, beijando, abraçando, pegando, ou os complementos dignos desses atos, acordo rindo à toa. E rindo mais ainda quando tudo se passa nos conformes, quando a situação foi boa, tudo bonito, o dia há de ser bom.
O mesmo não ocorre quando sonho que estou trabalhando, sendo cobrada, xingada, fracassada, contrariada. Quando no sonho brotam pessoas que em oração sempre pedimos pra não mais encontrarmos na vida (ocorre bastante com os ex e seus amigos), acordamos com o mesmo desgosto que tínhamos no pesadelo. Quando saímos do sono para o acordar, tudo tem ar de continuidade.
Enfim, o fato é que quando o dia está bom nem queremos dormir. E quando o sonho ta bom não dá vontade de acordar. Só que meu sonho era ruim, e acordei no efeito. Mesmo não lembrando exatamente o que sonhei, tenho certeza que era algo que me contrariava. Contrariada ou não, me inspirou escrever essas confusas linhas.
Então, qual seu melhor sonho e pior pesadelo que influenciam seu acordar?


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 1:54 AM :: Escreve que eu leio!:


Segunda-feira, Junho 09, 2008




Em homenagem ao dia dos namorados, falemos de modernidade!



Estive ouvindo, falando, vendo e lendo sobre o amor, relacionamentos e casamentos. Se notar bem, a temática já vem na seqüência. Vivemos um momento não exatamente de crise do amor, mas de inadequação. Penso em algo como um descompasso entre o ideal romântico, o ideal moral e o ideal moderno. Em comum aos três o fato de não se ajustarem perfeitamente à realidade.
O romantismo é moderno. sheakspeare é um divisor de águas da emergência do eu, do indivíduo, frente as tradições, o poder da comunidade, sua imperiosidade frente ao sujeito. Antes de Romeu e Julieta o casamento nada tinha a ver com um ideal romântico. Era um acordo familiar que pregava a união de dois indivíduos, sem contar muito com a escolha, com a decisão dos que se uniam.
Em Romeu e Julieta nasce o amor romântico. O ser não mais aceita as imposições de sua comunidade, do seu grupo, de sua família. Ele passa a decidir, ele escolhe, ele se apaixona, ele ama. E ama profundamente e padece desejoso dessa união que fere e desobedece as tradições. Esse é o amor, tão maior e sublime quanto mais impossível. Transcender a vida é um dos aportes do amor.
O romantismo então é construído nessa ruptura, do tradicional para o moderno, mas não sem regras, não sem limites. O amor tem que ser único. O ser amado é idealizado em perfeição. Esse ser será amado e desejado exclusivamente, só ele e mais ninguém. E a união com ele há de ser eterna. Ora essa, este é o amor: impossível.
Costumo dizer que este é o contrato. Nele as cláusulas são, pretensamente, iguais para ambos os envolvidos. Contudo, é sempre mais fácil cobrar que as regras sejam cumpridas do que seguí-las. Me atire uma flecha um só cupido que discorde. Esse é o complicador moral. Oras mais, oras menos, o social nos cobra uma postura moral tanto de inibir nossos possíveis deslizes, quanto o de fiscalizar os alheios. E o nosso descumprimento de uma regra moral é sempre menor e menos importante do que o descumprimento dos outros, que é uma afronta grave. Em outros termos, eu estar namorando e ocorrer de ficar com outro é um fato isolado, sem importância. Já a minha vizinha, aquela vagabunda...dá pra entender? Enfim, mesmo com sansões morais a fidelidade é mesmo uma espécie de sacrifício em nome do amor.
Digo sacrifício sem reservas, e me apoio tanto num discurso biológico, como num sociológico. Não é novidade pra ninguém que no reino animal a única espécie que permanece fiel são as baleias. Saindo correndo da biologia, que não é mesmo a minha área, vamos para o discurso sociológico.
Vivemos um período sem par de transformações. A nossa vida é ditada por um ritmo frenético. Temos que estar aptos a mudanças. No trabalho, sempre nos atualizando. Mudando de emprego, nos adaptando a novas regras e grupos. Mudando de espaço físico, agregando umas e esquecendo outras referências. Sempre buscando inovações. E no amor? Temos mesmo que nos estagnar? Temos que nos contentar com um, e pra sempre? Se formos analisar detidamente a questão é bem confusa. O ficar já é um indicativo que pode ser que as mudanças na esfera profissional e social influenciem decisivamente a afetiva.
Mas, enquanto essas mudanças não se efetivam, um brinde ao amor! Possível ou impossível, pra sempre ou apenas enquanto dure, um viva às uniões. A despeito dos argumentos tendenciosamente racionais, sou uma passional. Pois o amor, assim como os Deuses e os sonhos, quando não se acredita nele, ele deixa de existir. EU ACREDITO! Me valendo de João Gilberto: Fundamental é mesmo o amor/ é impossível ser feliz sozinho

Amor, um beijo!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 10:45 PM :: Escreve que eu leio!:


Sexta-feira, Junho 06, 2008




Um anjo safado/o chato do Querubim




Amy Winehouse é a mais nova habitante, ou o entretenimento mais atual, da imprensa mundial. Na internet, nos tablóides, nas revistas, nos jornais, no rádio e na televisão, só dá Amy.
Antes dos escândalos eu ouvia a música rehabit, adorava a melodia, ficava tocada com a letra e seduzida pela voz. Acreditava tratar-se de uma musa negra. Mas era ela, Amy Winehouse. Eu não ligava a voz à criatura. E que criatura!
Ligando uma coisa a outra, passei a ver fotos da cantora. Primeiro achei que ela tinha algum parentesco com primo Itt, dos Adams, ou Marge Simpson. Que cabelo! Era como um ninho, um mafuá, um aglomerado, um tufo em forma de cone, era uma voz e um cabelo.
Não tardou para eu perceber que o sorriso não era o da Mona Lisa, mas nele havia um mistério. Faltava um back lateral, um centro-avante, não sei bem. O que sei bem é que o time tinha um desfalque. Agora era uma voz, um cabelo e um sorriso.
E assim fui construindo Amy. Em pouco tempo o corpo dela começou a aparecer. Aliás, o físico dela se assemelha consideravelmente ao meu. Um tipo magro, fraco, tíssico, mas com uma protuberância abdominal. Imagina uma cobra quando engole um sapo, é mais ou menos isso.
Pensa que acabou? A voz, o cabelo, o sorriso e o físico são acompanhados de uma personalidade ímpar. Eu não entro no mérito se boa ou ruim, apenas na originalidade. Bêbada, drogada, fumante, acessível (é flagrada em qualquer bar, qualquer esquina), dona-de-casa e namorada de presidiário. Para a mídia ela é o anticristo, o exemplo acabado da depredação do ser humano. Pessoalmente eu a vejo como a forma quase que ordinária do indivíduo moderno, que apesar de tudo vive. Aliás, poucas vezes vi um artista tão humano, tão mortal, tão errante.
Amy é Amy, gostem ou não. Em algum momento da vida dela, aposto, ela quis ser igual as amigas porrérrimas da escola. Em algum momento ela deve ter sonhado com um casamento bonito, socialmente abençoado. Em algum momento quis namorar aquele nerd bonzinho com futuro promissor. Deve ter sonhado também com um lar, cheio de crianças branquinhas sorrindo de um canto a outro promovendo a devastação da decoração que custou os olhos da cara. Tudo isso é lindo, mas é caro demais para um espírito grandioso, para pessoas habitadas.
Alguém já ouviu falar num certinho que fez diferença no mundo? Eu só conheço o Bill Gates, mas é um exemplo lastimável demais. Napoleão não devia obedecer muito a mãe, Bethoven não tirava boas notas na escola e Einsten não tem cara de quem comia legumes ou de quem era muito rigoroso com a higiene. Porque a exigência de ser tão reto se o mundo é torto? Porque as pessoas insistem em ser quadradas se o mundo é redondo?
Não sou notoriedade, não sou bom exemplo pra quase nada, não sou porta-voz da verdade. Mas demorei um bocado pra me entender e me respeitar do jeito que eu sou, e não do jeito que gostariam que eu fosse. Desde pequena eu me atormentava por não obter grande êxito em ser igualzinha aos outros. Mas eu me destacava! Só em atividades pouco gloriosas, como em contar piadas recheadas de palavrões, fazer paródias de músicas (com palavrões), inventar apelidos, bolar formas de sacanear adultos, crianças e idosos, imitar tudo e todos, dançar (com coreografias no mínimo exóticas), escrever histórias (com palavrões e humor duvidoso) e desenhar charges e caricaturas.
Quando tinha reunião de pais e os professores comentavam as peripécias do alunado, minha mãe nunca duvidou de que a liderança da balbúrdia era eu. Quando havia uma festa e comentavam que roubaram os doces, furaram as bolas, abaixaram a cabeça do aniversariante no bolo ou dançaram sacaneando, meu pai em nenhum momento pensou que pudesse se tratar de outra criatura a não ser eu. Nunca se iludiram com a idéia de tentar me consertar, fosse com choque ou com surras.
E como a infância é um aprendizado para a vida adulta, sempre que me perguntavam o que eu queria ser, eu dizia que eu já era. E já era mesmo! E já era de um jeito que quando ouvia a música do Chico Buarque pensava que ele estava coberto de razão: Quando eu nasci veio um anjo safado/ o chato do Querubim/ e decretou que eu estava predestinado/ a ser a ser errado assim/ já de saída a minha estrada entortou/ MAS VOU ATÉ O FIM!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 7:45 PM :: Escreve que eu leio!:


Segunda-feira, Junho 02, 2008




Saltando fora



Eu não preciso me desgastar tentando explicar algo que vocês presenciam em suas vidas cotidianamente: a televisão influencia o comportamento das pessoas. Essa afirmativa, creio, tem mais de consenso do que de discórdia.
Não sou uma audiência muito vigorosa, mas por conta de uma torção no pé estive exposta àquela luz que ilumina nossas faces e obscurece nossas mentes. Vi um comercial da Tim Web. Várias pessoas jovens jogam o modem de um para o outro, fazendo acrobacias. Eu entendi bem, ou só jovens estilosos acessam a internet sem fio? E pior, pra acessar têm que fazer acrobacias?
Aquilo me deixou complicada! Mas não parou por aí. Lázaro Ramos numa festa da Ingrid Guimarães se enche de beliscos e começa a passar mal. Toma sal de frutas Eno, vai dançar e, pasmem, dá uma pirueta. Logo, concluí, pirueta faz bem pra digestão. É isso mesmo?
Agora, o que dizer de Dan Stulbach no comercial do Itaú. Ele dança break, ou street, não compreendo a dança, não compreendo o que ele fala, não acompanho as acrobacias, só lembro da música bi apaparapá/apaparapá e da logomarca do Itaú.
Em resumo, não adianta repetir incansavelmente, eu não irei dar mortal, pierueta, cambalhota ou qualquer acrobacia pra acessar internet sem fio, nem pra acabar com a má digestão, e muito menos pra abrir uma conta no banco. Pode esquecer isso, fora de cogitação! Imagina se irei fazer atuações simiescas pra isso ou aquilo.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 10:08 AM :: Escreve que eu leio!:


Domingo, Maio 25, 2008




A pobreza em vários atos



Estive uma temporada afastada, forçosamente, da internet. Nesses dias de abstinência pensei num milhão de coisas para escrever. Aliás, cheguei a fazer a composição das idéias para meu cunhado. Ele riu um bocado. Mas pra ser sincera, olhando pra minha cara raramente alguém não ri. Então as vezes chego a achar que pouco importa o que eu tenho pra dizer, pois importante mesmo é como eu digo. Agora, escrever é outra coisa! Mas mesmo perdendo um tanto o efeito em comparação com minha atuação oral, insisto em escrever.
O tema do meu discurso era o sabor e o dissabor de ser pobre. Certamente eu não conheço muitas pessoas ricas. Se é que as conheço. Enfim, a pobreza nos rodeia, nos entranha, nos consome.
O pobre é o elemento essencial da modernidade. O pobre é a engrenagem do capitalismo. Já pararam pra calcular quantos miseráveis são precisos para fazer um só rico? Muitos!
Observando as coisas ao nosso redor é que eu noto como pobre é predado pelas artimanhas do sistema. E o mais expressivo dessa relação é que não morre, só se prolifera. As estratégias de dizimar os pobres são inúmeras e diversas.
A primeira estratégia é na alimentação. Todos os produtos com prazo de validade vencendo são ofertados aos pobres. E os pobres compram. Biscoitos, barras de cereal, enlatados, laticínios, tudo tão apto ao lixo quanto ao consumo do pobre. Carne que está em acelerado processo de deterioração, já duvidosa, é temperada e vendida em temperatura ambiente a preço de custo. Pobre compra. E não só compra como promove churrasco. Ninguém tá aqui querendo morrer sozinho!
Aliás, uma modalidade interessante de extermínio coletivo são as quermesses. Aquela pujança, aquela fartura, é uma alegria que só Deus e pobre sabe como dói. Quem nunca ouviu falar na maionese que intoxica dezenas? Só que, quando muito, mata um ou dois. Fracos! Se morre por conta de uma maionese realmente não tinha vocação pra ser pobre.
E o que dizer das bebidas? A água mineral custa R$1,00 enquanto um Guaravita R$0,50. Preciso perguntar o que o pobre bebe? Um líquido que custa mais barato do que água não pode ser de Deus! Eu tenho medo de Guaravita. Não sei de que poço sai a água que ele é fabricado.
Se o problema fosse apenas a procedência da água eu ficaria até tranqüila. E a composição química? Aquilo tem estimulante, acidulante, é um repositor energético. Aí o sujeito que tem “pôbrema de pressão alta”, desavisadamente, toma o guaravita e se sente melhor. Muito bem disposto. Até porquê, mesmo pra morrer tem que ter disposição.
E o que dizer da infinidade de bebidas com o prefixo ou sufixo COLA!? Para cada mercado há um refrigerante de cola. E pobre valoriza como ninguém a indústria nacional. Aliás, a distrital, a circunvizinha, basta engarrafar!
Acima de tudo e qualquer coisa o pobre é um aventureiro, um guerreiro, um herói. Qualquer coisa simples do cotidiano para o pobre é uma missão que faz Bruce Willis, Schwarzenegger, Tom Cruiser ou Stallone parecerem fichinha. Um cidadão comum se locomove para o trabalho por carro, trem, metrô, ônibus ou barca. Sem emoção! Pobre ou vai de van, ou vai de mototaxi. Simples assim.
Se alguém conhece uma modalidade de extermínio de pobre mais eficiente do que van, favor, me informe. Van não tem erro, é bateu fudeu. Ou mata geral, ou fode geral. Claro, morrer é preferível na maioria dos casos. Pessoalmente eu penso que as vans não deveriam ter na frente o nome de um bairro, mas o slogan que esclarecesse ao que veio (ou mais exatamente pra onde que vai), do tipo: céu, inferno, paraíso. Algo mais objetivo e sincero.
Você pode tentar advertir dos perigos das vans, mas todo pobre irá defendê-la dizendo que é rapidinho. Concordo! É o meio mais rápido da vida pra morte, sem escala. Uma conhecida minha pegou uma pneumonia andando de van. Eu perguntei como. Ela disse que sai de casa as cinco da manhã, e a janela da van que ela pega é quebrada. Visualiza! Imagina essa brisa das cinco, excelente para os pulmões, porrando a cara da pessoa num percurso de no mínimo 40 minutos. É gostoso demais. Aliás, deveria até ser indicado como massagem facial.
Gente, viver não é fácil, não é uma brincadeira. Eu gostaria de ser feia e pobre só por um dia na minha vida, pois todos os dias já está me cansando.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 12:26 PM :: Escreve que eu leio!:


Sexta-feira, Maio 09, 2008




As verdades que o vento leva



Eu sempre digo, ninguém mente sozinho. Pra mentir é preciso no mínimo duas pessoas, uma pra mentir e outra pra acreditar. A cada dia estou mais convicta de que as pessoas não têm pudor de mentir.
Há quem acredite que mulher minta mais que homem. Mentira! Mulher faz atuações realmente mais sofisticadas, porém mentir por mentir não há como reduzir o feito dos homens. Ou seja, a mentira, em termos quantitativos, não pode ser avaliada por gênero.
Eu estava na barca, ouvindo a conversa alheia. Até aí, tudo sem novidade. Atrás de mim três mulheres me entretiam com sua conversa. E o assunto, tenho até vergonha de dizer (mentira!), era sexo.
Começou com uma dizendo que a primeira vez que fez sexo foi na lua-de-mel. Com essa declaração minhas orelhas ficaram mais em riste do que o membro do noivo. Se a conversa começava com uma mentira destas, daí por diante eu poderia morrer, mas minhas orelhas haveriam de continuar vivas para registrar tudo.
Então, a conversa estava apenas começando. Ainda tinha uns dez minutos de travessia para a mentira rolar solta. E assim foi! A cada declaração uma das amigas duvidava e dava um testemunho mais incrível. Assim, em resposta à primeira vez na lua-de-mel uma das amigas disse ter namorado seis anos e o namorado respeitando a decisão dela. Namorados, por favor, se manifestem. Se meu namorado me respeitasse tanto eu abandonava ele! Vai respeitar assim a puta que o pariu.
O que me deixava mais envergonhada era a desenvoltura das três em conversar tão abertamente sobre sexo, algo mais esperado de pessoas com posturas supostamente modernas, enaltecendo um “orgulho” tão retrógrado, um discurso tão tradicionalista. Tinha horas que eu não entendia nada, aquilo dava nó na minha cabeça. Ora essa, quem me mandou gostar tanto de ouvir a conversa alheia!
Deixando o exemplo das mentiras das moças, vejamos uma conversa de rapazes. Eu estava na sala de espera duma assistência técnica para celulares. O número da minha senha me convidava para a eternidade. Uma pressão me subia à cabeça, quase estourando de ódio, quando uns caras começaram a conversar. Coloquei logo fones nos ouvidos pra ouvir a conversa sem constrangimentos de parecer que estou mesmo prestando atenção neles.
Começaram falando de aparelhos celulares. Era só juntar três letras, quatro números, e a maioria deles já tiveram esse tal aparelho que duvido muito até que já tenha existido. Era fazer um scan, dos pés a cabeça, em cada qual e duvido que um só deles se vestisse com mais de R$25,00. Traje calça surrada, pochete no ombro, camisa fuleira e um ou outro de boné.
A conversa dos caras estava animada. Diferente das mulheres, um nunca duvidava do outro. Dizia que era verdade, e dava um exemplo que superasse o amigo. Um sacou da cintura um celular antigo, disse que já tinha caído muito, já tinha molhado na praia, o visor era rachado, mas funcionava perfeitamente. Todos acharam o máximo e concordaram que bom eram os celulares antigos. Não satisfeito, um sujeito que palitava os dentes (ninguém me disse, eu vi isso!) se coçou, tirou um celular do bolso, abriu o celular e o corpo com a bateria ficou numa mão, o flip na outra. Ele mostrou orgulhoso dizendo: esse aqui funciona perfeitamente, cabe qualquer chip, dá pra usar como rádio, e ainda recebe fax. Bastou pra ser o rei do pedaço.
Depois do celular Lego ninguém mais quis falar sobre o assunto. Era melhor partir pra outra conversa. Tinha um jornal jogado numa mesinha, e estampado na primeira página a foto do Romário. Um deles olhou e disse: o Romário vai virar presidente do Vasco. Todo mundo concordou!
Era preciso uma pauta mais polêmica pra reanimar o pessoal. Chegou um motoboy. Ele sentou do lado de um sujeito e pra quebrar o silêncio disse que tinha sido assaltado. O do palito na boca, que tinha uma voz bem rouca, perguntou o que ele perdeu. O boy disse que perdeu uma moto. Onde? Em Duque de Caxias. Meu irmão, naquela área é foda mesmo. Todo mundo concordou. Aí começou papo violência. Tudo o que se falava parecia cena de filme. Mas era realidade, porque num filme nunca vi tanta bala voando. Era tanto tiro que vez por outra eu me esquivava no reflexo, com medo de uma bala resvalar e me acertar.
O cara do palito na boca parecia impávido, sem achar aquele tiroteio, aquelas histórias bélicas, nada demais. Ele esperou o tiroteio dar uma pausa e disse que estava chegando em casa, quando o caveirão cismou de subir o morro, até que um cara, ele disse um cara e ainda descreveu o sujeito como magro e baixinho, plantou de frente com uma M2 fazendo o caveirão recuar. Todos impressionados, e um desavisado exaltou que era preciso força. Ao que o do palito na boca arregalou os olhos e quase desequilibrando o palito disse: força nada, tem que ter é disposição! Juntando os narizes dos caras dessa sala de espera acho que conseguiríamos um monumento maior que a muralha da China.
Acredito em tudo o que me dizem. Aliás, eu acredito até no que dizem para os outros. Por exemplo, eu acredito que o Ronaldinho achou que Andréia era mulher. Acredito que, como ele disse, nunca usou drogas e que é inteiramente heterossexual. Diga-se de passagem quando ele fala na categoria inteiramente heterossexual me faz ao menos intuir que compreende uma categoria parcialmente heterossexual, que por seu turno pode ser equivalente a parcialmente homossexual. E não acredito só no Ronaldinho. Acredito que Carolina Jatobá e Alexandre Nardone são tão inocentes quanto se defendem, e culpados quanto os acusam.
De minha parte fecho o post assumindo que nunca conto uma mentira. Até invento umas verdades. Algumas bem temporárias, outras mais duradouras. Mas mentira eu não conto. E você, já ouviu alguma mentira, digna de ser partilhada? No que você credita?


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 6:29 PM :: Escreve que eu leio!:


Terça-feira, Abril 29, 2008




O Rio de Janeiro não envelhece, ganha charme e elegância




A cidade amanhecia sob uma brisa leve e morna e um sol tímido. Poderia ser uma manhã como outra qualquer, mas era o dia oficial de sua fundação, 1º de Março. E eis que o dia não haveria de passar sem devido proveito.
Charmosa por si e maravilhosa pela exaltação de terceiros, em vários bairros os cariocas extravasavam sua paixão e carinho pela cidade, em comemorações de estilos mais diversos. Da zona norte a zona sul a bossa nova, o samba e o choro ditavam o ritmo da festa. No centro, junto aos arcos da Lapa, a noite de muita empolgação num show ao ar livre comandado por Elba Ramalho brindou a cidade com um presente inestimável.
Num palco de dimensão generosa, Elba ia de um lado a outro, cantando e dançando muito entusiasmada pelo aniversário da cidade, tão carioca que a cantora não é. Rente ao palco até a distância de uns 300 metros uma multidão se estreitava e se entretinha.Nem sei o quê faziam mais, mas lá estavam. Os esbarrões são como termômetro do entusiasmo de um evento popular, e nesse show era tudo o quanto não faltava.
Na inviabilidade de todos transitarem, transitam os ambulantes, que não são poucos. Com isopores nas costas, ou puxados por carros improvisados com rodas de rolimã, vendem quase que exclusivamente cervejas e refrigerantes. E ainda no meio da multidão, há os que com enormes sacos plásticos recolhem latinhas de alumínio. Diga-se de passagem a cada dia há mais vendedores e catadores do que consumidores. É mais ou menos esse é o cenário da muvuca que não desanima com quase nada.
Um tanto distante do pessoal que sem dó se espreme, três amigas, já senhoras, estão dançando. Uma delas calçava uma plataforma que comprometia demais a desenvoltura da altiva dançarina. Achou por bem dançar descalça. E todos cantando e dançando.
Bem próximo dali, um rapaz ao notar cacos de vidro no chão trata logo de recolher, colocar numa distância segura, rente a um bueiro. Aproveitou e ainda alertou a senhora que dançava descalça entre as amigas para que tomasse cuidado para não se cortar. Um senhor que catava latas, vendo a senhora descalça tirou o chinelo que calçava e ofertou a ela, que sorrindo aceitou.
E assim o show fluía. O trio de amigas continuava alegre e dançante música após música. Esporadicamente viam o catador de latas passando descalço e gritavam entusiasmadas, fazendo festa, demonstrando o quanto o chinelo estava sendo bem usado. Ele sorria, acenava positivamente pra elas e se mostrava também animado.
O saldo do show foi a alegria e harmonia de uma grande comemoração. Um brinde à cidade maravilhosa que abriga pessoas gentis e sensíveis, aptas a ofertar ao próximo o melhor de si, dando exemplo do que é por em prática o ideal paz e amor. De pequenos gestos como este é que a imagem da cidade deveria se propagar. Nada de violência, nada de desentendimentos, nada de aura do perigo. Eis o grande presente que a população não se farta de doar à cidade: gentileza e alegria. Vale lembrar que a senhora que dançava, ao final do show ficou no mesmo lugar, esperando o dono do chinelo voltar. Com sorriso largo, abraço apertado e enorme agradecimento devolveu os chinelos ao gentil cavalheiro que cata latas.



:: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:33 PM :: Escreve que eu leio!:


Terça-feira, Abril 08, 2008




O que o trabalho inspira




Em 1880 a princesa Isabel assinou um famigerado documento que decretava o fim da escravidão no Brasil. E assim, por um documento, sem mais nem mais, foi abolida a instituição que durante séculos forneceu mão-de-obra para tocar uma colônia que hoje tem sua soberania e chamamos de país.
Das milhares de indagações a respeito desse processo e de suas conseqüência nesse minuto me instiga como conseguir uma percepção positivada do trabalho. Como não relega-lo às pessoas que não têm liberdade e/ou escolha? Como não tornar o trabalho uma ação pejorativa? Para os brasileiros a resposta a esta pergunta é tão simples que chega a ser despropositado se indagar. A resposta é FINGIR QUE TRABALHA.
Os índices de desemprego, o afrouxamento das leis trabalhistas, as pressões mundial para adoção de medidas neo-liberais, tudo o mais é nada frente ao poder debochado do brasileiro de lidar com situações adversas.
Conheço muitas pessoas que não tem emprego fixo, várias que têm a carteira de trabalho virgem, aliás é nesse grupo que eu alinho, e até quem nem se dê ao trabalho de ir tirar uma carteira de trabalho. Mas o maior número de pessoas que percebo são as que, com ou sem carteira assinada, fingem que trabalham.
Pode parecer loucura minha, mas eu olho para as pessoas e fico imaginando que atividade produtiva elas desenvolvem. Olho pra um vizinho de terno e gravata, mais cheiroso que besouro da Amazônia, cabelo bem cortado, num sapato tão bem conservado que parece até que o dono anda de cadeira de rodas, e vem logo o enigma: o que ele faz?
Simples! O cotidiano é o seguinte: chega no escritório as 9:00h e toma um café conversando com o pessoal até as 10h. Parte então para seu computador e começa a burocracia. Abre a agenda e dá logo três telefonemas. O primeiro pra mãe, o segundo pra esposa ou peguete e o terceiro pra um amigo. Sendo casado telefona pro amigo pra reclamar, sendo solteiro pra aprontar. Vocês pensam que a hora não passa, mas já avançamos para as 11h, e o sujeito ta atarefado. Entra com a senha no computador, baixa os e-mails e toca a apagar as propagandas, ver os slides de power point ou com conteúdo de moral edificante ou pornográfico, repassa as piadas e slides mais ou menos e eis que já são 12h. Desce em bando pra almoçar, passa em lojas pra comprar qualquer coisa inútil que lhe dê consolo por um dia-a-dia tão stressante e volta para o escritório 13:20h. Mais café, com mais bate-papo, até que 14h não tem jeito, tem que voltar pro computador. Navega na internet das 14h às 17h. Toma mais um café, até que chega do nada a emergência de fazer um relatório. Ele só tem até às 18h para relatar as atividades do dia, tudo pra uma reunião no dia seguinte. E faz! São quatro laudas no Word, fonte tamanho 20, espaçamento duplo. Era até mais fácil fazer em power point. Mas enfim, já deu a hora de voltar pra casa. Chega de trabalho por hoje, o sujeito já está exausto. Tal e qual estaria qualquer outra pessoa ainda que não fizesse nada.
E quando vislumbro uma vizinha, tailler de cor mórbita, cabelo tão aprumado como uma peruca Lady (Copacabana, Barata Ribeiro), com aquele cacharrel terrível que o cheiro muito faz lembrar a penteadeira de uma meretriz (vovô se valia bastante dos serviços dessas damas, por isso que sei bem o cheiro), meia-calça kendall na cor da pele (da pele da Pina, porque dá logo pinta que a ridícula tá de meia, tamanho o contraste da cor das pernas com as mãos), uma base no rosto mais grossa que a máscara de Jason, as unhas disputando destaque com as do Zé do caixão, e fechando o modelito um scarpin básico e uma bolsa de couro com fivelas banhadas a ouro da Lui Vitton (camelôs e ciganos conseguem uma réplica que andando rapidinho nem especialista distingue, e La garantia soy yo!). O que ela faz? Que profissão exerce?
É amiga de escritório do sujeito já mencionado. O que supõe que o dia-a-dia deles é bem parecido. A diferença é que enquanto ele navega ela faz os slides de power point que circulam na internet, e as correntes católicas.
Divulgarei aqui, em primeira mão, os sites indispensáveis para as pessoas que “trabalham”:
Google: Aqui é o começo e o fim. É aqui que ele rouba textos para introduzir nos bonitos relatórios. Aqui também, ele e ela, pesquisam bons preços de agencias de viagens, para ir programando o que vão fazer nas férias, nos feriados prolongados e tudo o mais.
Orkut: Alguém vive sem socializar? Então, o sujeito que trabalha tem o direito e dever de estar a par de tudo o que acontece com as pessoas que o rodeia. Fiscalização branda no profile da namorada, ou esposa, para não parecer ciumento e neurótico. Fiscalização moderada nas ex, como um tratamento, pois ele jura que aos poucos vai esquecer ela e parar com esse vício de querer saber o que se passa. E fiscalização intensa nas possíveis, sempre atirando pra tudo quanto que é lado, pois como diz meu sábio e filósofo primo: se eu não “panhar” vem outro e “panha”. As mulheres visitam praticamente os mesmos profiles, só que em relação aos namorados e/ou maridos, pois tá louca de saber como ele reage a tudo isso. Enfim, o orkut é o inferno na terra.
Climatempo: Como é que a pessoa vive sem saber se está sol ou chuva, calor ou frio. Dentro do escritório a temperatura é permanente em cerca de 19º, mas a criatura não vive sem saber como está o tempo lá fora. Além do mais, da pra fazer também aquela análise para o final de semana, feriado, e ver se fica melhor ir à praia ou serra.
Fliperama: pra jogar e/ou baixar alguns games, pois ninguém é de ferro, tem horas que é preciso descontrair.
Horóscopo Virtual, GuruWeb, TerraEsotérico: porque ninguém acredita em horóscopo, tanto quanto nem duvida. Pelo sim, pelo não, não tenho muito mais o que fazer, é melhor dar uma conferida. De repente até um tarô on line. O casamento entre signos.
GloboEsporte: para acompanhar os resultados da rodada, o estadual, o Brasileirão, a Copa América, a Libertadores, o Mundial, e sobretudo a escalação de times deveras importantes como o “XV de Jaú”, “Ferroviária de Araraquara”, “Ìbis”, “América” do Rio de Janeiro e o Paysandu. Sem falar no grid de largada da F1 e o campeonato estadual de basquete. Só com um conteúdo tão denso é que o sujeito está apto a tomar um cafezinho e confraternizar sem se sentir diminuído por falta de assuntos.
O Fuxico: É de extrema relevância saber dos novos affairs da Preta Gil, do mais recente namorado da Galisteu ou Cicarelli, e enfim, essas informações que precisam ser acompanhadas semana a semana, quando não diariamente. O mundo tá rodando e a mulher só lá trabalhando? Não, não mesmo, é preciso uma Dirce para colocá-la ciente do resumo das novelas, da vida dos artistas, celebridades e quem mais coloque o traseiro à mostra.
Oglobo: esta página é tudo. É o que há. É quase como um protetor de tela. Varam janelas ao pé da tela, msn piscando, oito profiles e quatro comunidades do orkut, mas se o chefe passar de uma hora pra outra irá se debater logo com uma página cheia de informações, fundamentais ao bom desenvolvimento do trabalho diário.
Enfim, é dura a vida de um trabalhador. O dia inteiro nesse ambiente insalubre, trabalhando oito horas e as vezes tendo que fazer hora extra, tanta informação, isso acaba com o ser humano. É uma vida árdua, mas alguém tem que fazer. Só mesmo com essa ação inteligente de desobediência profissional, pois já que o patrão finge que nos paga, nós fingimos que trabalhamos. Destorcendo o que foi a estratégia de Gandih é que estão os brasileiros nos escritórios. Pode parecer tolo, mas um processo como este demora uns 200 anos para se consolidar. Agora, se você trabalha e tem mais de dois desses links que apontei em seus favoritos, vamos admitir: você também finge que trabalha!






:: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:55 AM :: Escreve que eu leio!:


Quinta-feira, Abril 03, 2008





Meio confuso falar do Meio Ambiente



Vivemos um período em que os analistas que têm ejaculação precoce já chamam de pós-neoliberalismo. Deixemos que eles se divirtam em detectar o presente como passado e o futuro como presente, sem que sequer acreditem que esse presente virá. Tratemos de algo que está na ordem do dia, a preservação ambiental.
O primeiro fator a ser levado em consideração é que, estejamos onde estivermos, fazendo o que for, o mundo ta dando suas voltinhas. Se você ficar de olho ele gira, se piscas ele gira também. Essa frase pode parecer, e até é, imbecil. Mas ela identifica um tanto da postura de quem vos escreve. Anotem!
Quando em 1945 bombas atômicas foram arrogante e covardemente lançada sobre as cidades de Hiroxima e Nagasaki, o mundo se estarreceu com o seu poder de destruição. As regiões afetadas, excluindo as inestimáveis perdas humanas, sofreram e ainda sofrem com impactos ambientais. Sem adentrar nas especificidades de clima, terreno e vegetação, as bombas foram decisivas para as pararem pra pensar nas questões ambientais.
Desses dois bombardeios para cá, outras bombas foram criadas, algumas lançadas, e outras testadas. E a cada desenvolvimento no setor de “destruição e ameaça”, maiores e mais exaltados são os alardes que o meio ambiente está sendo castigado. Fato!
Quando falam que as reservas de águas são finitas eu acredito. Mas não tomo como uma verdade absoluta, não estoco água nos bolsos nem escovo os dentes com caneca. Afinal, moramos num planeta comporto de 70% de água. A maior parte é salgada, mas é água. Que desenvolvam processos de dessalinização. É estúpido eu falar assim? Certamente, mas é melhor do que tomar banho a seco.
Quando falam que o aquecimento global é um fenômeno que ameaça a humanidade, degrada o meio ambiente, que é impulsionado pelo aumento de consumo material, da produção de lixo, da quantidade de automóveis, da criação do gado e tudo o mais, eu acredito. Mas eu não visto a culpa como um manto e me junto a um grupo de franciscanos que pregam uma alimentação frugal e vida desapegada dos bens materiais.
O american way of life é lindo, mas não contempla a humanidade equanimemente. Os papéis sociais numa perspectiva mundial são opostos e sem equivalência numérica. O cálculo é cruel! Para fazer um milionário é preciso centenas, e talvez até milhares, de miseráveis. Para um país degradar é preciso um continente para preservar. A conscientização dos problemas ambientais é mais do que necessária, é uma postura responsável e ponderada, é um reflexo de respeito a si e ao próximo, uma orientação também em prol das gerações futuras. Mas por favor, não façam pouco caso do meu discernimento com gráficos e estatísticas apocalípticas e com mudanças de hábitos drásticas.
De tudo o que se prega em prol da preservação do meio ambiente é o fato de que raramente consideram o homem como um ser natural. Parece que ele é um elemento que foi colocado na natureza para combate-la. O ser humano não é posto numa cadeia, num ciclo, de modo que viver passa a ser necessariamente uma agressão ao meio. Uma arara azul tem direito de nascer, crescer, com a ajuda de ambientalistas e biólogos se reproduzir, e para o lamento da humanidade fechar o seu ciclo morrendo. Ela grita e não polui sonoramente. Ela come várias sementes e frutas, mas não estraga nem extingue nada. Ela excreta, mas deve até ser cheiroso. Agora eu não posso dar uma simples barrigada que já poluí a baia de Guanabara. Como assim? Eu vou de carro de um lado ao outro da cidade e já condenei o ar que respiramos a um ar que nos envenena. Eu vou até parar de escrever, pois pra quem não sabe o computador além de aquecer, utiliza a energia que pode ser do petróleo (fonte esgotável), nuclear (Se eu ouvir soar a emergência em Angra já rezo encomendo a minha alma. Pra você vê como a ecologia em algum momento alcança a religião) ou hidráulica (sabe Deus o impacto social e ambiental dessa uma barragem). Isso tudo sem falar nos componentes, minérios incontáveis. E a fabricação? Essa emana é calor, gera lixo, polui mesmo. Não é ecologicamente correto viver num mundo pós-neoliberal, definitivamente. Vou pular pra outro galho, porque esse aqui já deu.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 10:14 AM :: Escreve que eu leio!:


Segunda-feira, Março 10, 2008




Nem te ligo!




Dia desses falava com uma amiga ao celular. Foi quando avistei meu ônibus, me despedi e fiz sinal pra ele parar. Entrei, preocupada em pagar a passagem e pegar o troco. Preocupada mesmo, pois pode parecer banal pra qualquer pessoa, mas tenho a cara mais “boba” que suponho haver no mundo, então toda atenção é pouca. Sem atenção, me passam o troco muito errado, ou certinho, só que em moedas. É sério! Já houve circunstância em que paguei com vinte e levei troco de quem pagou com cinco reais, e até mesmo já ocorreu de um cobrador me dar um troco de cerca de dezessete reais em moedas. Isso não é pra qualquer um. Só mesmo tendo a cara de babaca que eu tenho. Aliás, quem quiser comprovar minha tese, basta andar comigo e verá situações tão inusitadas quanto ridículas em respeito a minha cara de trouxa.
Deixando minha cara de trouxa de lado, estava eu no ônibus, com o troco conferido, caçando um lugar mais ou menos pra fazer a viagem. Parei entre as bolsas de um cara e a bunda enorme de uma moça. Não pelas bolsas, menos ainda pela bunda, mas aquele espaço parecia confortável. Consegui um espaço no ônibus sem ninguém ficar se roçando ou fedendo ao meu lado, e ainda assim a viagem estava irritante. Foi quando ao invés de tentar olhar o caminho achei de olhar para dentro do ônibus. Todo mundo falava ao telefone. Aliás, pior do que isso, havia quem estivesse falando por rádio.
Era uma zueira de vozes e ruídos, como se não bastasse o motor no ônibus e a orquestra do trânsito. Tudo na maior desarmonia. Pra onde quer que eu olhasse era gente com o celular na orelha, como se fosse um brinco. Eu vou falar um coisa pra vocês, fonte segura: o diabo tem um nextel, um vivo, um Tim, um Oi e um claro, tudo no cartão pré-pago. Aliás, me disseram até que o toque do nextel é um mambo, e o aparelho da vivo é um Motorola V3.
Na balbúrdia seguia a viagem. Pensei, pensei e resolvi admitir pra mim: estou viciada em celular. Precisei ver na sede de falar alheia o meu problema. Tudo começou há cinco ou seis anos, era uma conta telefônica num plano de R$32, na operadora vivo. De lá para cá troco de aparelho anualmente, e na mesma proporção ganho ação na justiça por problemas nos serviços das operadoras e por vícios nos aparelhos. Ouso dizer até que as indenizações pagam o aparelho e o serviço anualmente. Da maneira que for, o que é afinal um serviço de telefonia?
Compreendo que é preciso tecnologia, estudos avançados e o trabalho de milhões de pessoas no setor, contudo, grosso modo, não passa de palavras ao vento. Toda uma estrutura desenvolvida para as pessoas propagarem som. Ok, o avanço é tanto que de lambuja vai até a imagem.
Não faço idéia de quantas pessoas possuem aparelho celular no país, mas calculo que nem 10% delas resolvem efetivamente algo fazendo uso do aparelho. Cientes disso é que os fabricantes não poupam imaginação para agregar funções aos aparelhos celulares. O mero “ligar” fada um aparelho celular ao limbo. É como se ele não fosse nada. Entre as funções mais eficientes e inusitadas que meus aparelhos já apresentaram posso citar a indicação da hora mundial, afinal de contas como é que eu vivo sem saber que horas são em Abudab? O índice de massa corpórea, o qual fui mostrar pra uma amiga da faculdade e a criatura até hoje me culpa por meu celular chamá-la de gorda. E, a melhor de todas, calculador de gorjetas. Essa é de suma presteza, pois uma conta de 10% não é feita por qualquer um. Essa função pra mim era um insulto, pois eu nunca faço esse cálculo se não ao inverso. Tenho a memória de um elefante, mas não me lembro quando foi a vez, se é que houve, em que dei uma gorjeta feliz. Não é só mesquinharia, ou é mesmo uma mesquinharia esclarecida, já que me alinho à máxima de que o cachimbo deixa a boca torta. No caso, o que era pra ser uma gentileza tornou-se uma obrigação. Mas isso são outros quinhentos e eu falo de outro vício, o celular.
Enfim, eu comecei num plano “Beneditino”, com base na idéia de que temos duas orelhas e uma só boca, portanto, devemos ouvir duas vezes mais do que falamos. Desse modo, eu ligava e falava pouco, e me colocava disposta a ouvir quem quer que me ligasse. Nem sempre eu atendia as pessoas, raramente ligava e tudo ia bem com um uso apenas racional do celular.
As promoções das empresas passaram a me estimular, tirar temporariamente a mordaça de minha boca com aquelas promessas de “fale 500 minutos por 7 centavos”. O asterisco abaixo da promessa, em letras minúsculas, sempre trazia os entretantos, tipo “promoção válida por um período de 3 meses”. E nessas modalidades ardilosas de promover o vício, eu fui falando, falando, falando. Quando a promoção acabava eu entrava em crise. Olhava para o celular, ao alcance das mãos, e dava só uma ligadinha. Aquilo me dava um alívio, mas a dose era pouca. Ia ligando, ligando, ligando, pequenas doses, vários dias. No final do mês a conta alta, e junto dela a promessa de que vou dar um jeito no vício.
Pois bem, a conta do telefone chegou aos trezentos e tantos reais. Procurei conforto me confessando a pessoas próximas. Elas diziam que quando pagam só trezentos estão felizes. A coisa é pior do que eu poderia supor. Eu sou “novata” entre os viciados. Mas já elaborei estratégias para me desvencilhar do uso do celular.
A primeira estratégia é adquirir, ou resgatar na gaveta de quinquilharias, um aparelho horroroso, bem antigo, daquele que se muito faz ligações e no display informa a data e hora. Qual a vantagem? Primeiramente, não dá nenhum gosto ficar carregando algo feio e grosseiro na mão. Não fica por aí. Todas as vezes que te ligam você pensa duas vezes se vai atender. Se atender vai ser rápido, falando só o necessário. Atender ou fazer ligações com um aparelho velho e feio é algo que se faz sorrateiramente, de preferência com algum disfarce, seja escondendo o aparelho na cabeleira, seja indo para um cantinho reservado, ou até apelando em colocar a cabeça quase dentro da bolsa.
E a agenda do celular? É preciso deixar no aparelho apenas números emergenciais. Os outros números ficam numa agenda de papel. É até mais seguro. Isso faz com que durante o dia poupemos de ligar pra todo mundo que conhecemos, reservando uma parte da noite pra ou encontrar com o pessoal pra colocar a fofoca em dia, preferível, ou ligar do telefone fixo para fixo, pois a noite as pessoas costumam ir pra casa ao menos pra dormir.
Outra estratégia é não se preocupar em carregar a bateria. A idéia é que ela tem uma autonomia no stand by e outra em uso. A do stanby é enorme, já em uso a autonomia diminui consideravelmente. Todas as vezes que você notar que tem apenas “um pau de bateria” (um clássico do vocabulário do viciado em celular) falará rápido pensando em poupar bateria pra uma ligação mais importante. A questão da bateria diminui a nossa preocupação com a carga constante, economiza luz e, mais importante, vai nos aliviando do vício. Pra um fumante, seria algo análogo a lhe dar cigarros, mas deixar ao seu alcance apenas palitos de fósforo molhado.
Tudo isso é ruindade? Sim, mas é pensando no bem das pessoas. E o que é o bem? Essa é difícil, passo! Agora basta de escrever porquê preciso fazer uma ligação. Aliás, já viram o novo smartphone? Então, tô visando um. Nem é pra ligar, mas só pra ter, é bonito e tal...



:: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:22 PM :: Escreve que eu leio!: