
Estar Fish
Era um dia lindo. Um dia desses em que nada entre o céu e a terra pudessem depor contra. Os pássaros batiam as asas com tanta força, como quem aplaude, saudando o céu. O céu, azul de acanhamento, cedia o mérito ao sol. O sol amarelo de orgulho irradiava seu brilho para o mar. O mar se agitava em ondas de alegria e me chamou para celebrar.
E foi nesse dia, com as mencionadas ilustres presenças, que não me contive em mergulhar. Aqueci-me sob os atentos olhares dos promotores dessa celebração. Sorri e fui em direção aos anfitriões. De braços abertos me lancei. Que maravilha! Com agitação me receberam, eu era a sensação.Cumprimentavam-me e chacoalhavam-me num esfuziante vai e vem. Logo em seguida a bebida foi servida. Era espumante. Bebi. A princípio não achei deveras agradável, mas não me prestei à desfeita. Em pouco tempo estava embriagado, já bebia sem sentir.
E eis tudo o que me recordo daquele dia, no qual esqueceram de me advertir de que eu não sabia nadar. Ainda não sei, mas naquele dia virei estrela, do mar.
AMIGO DE BODE
Uma corda fina e bastante desgastada adornava seu pescoço. Sim, adornava, pois em verdade não tinha em si outra serventia. Era mesmo um vadio, um valdevinos. Nos botecos conheceu seu grande amigo, Zé.
Zé era um excelente amigo de farra, contudo, não se conformava em restringir tal amizade as súcias. Decidiu aproximar o amigo ao seio do lar. Não foi tarefa fácil. De início aturaram os julgamentos, as palavras e os comportamentos ríspidos dos familiares, frutos do estranhamento, mas nada que o tempo e a persistência não dessem cabo. Assim, ninguém mais achava estranho Zé e seu fiel amigo figurando pela cidade em quaisquer eventos sociais, desde missas a aniversários. Onde um não fosse bem quisto o outro sequer punha os pés, ou melhor, para ser mais exato, o outro nem mesmo se aproximava, pois pés em si apenas Zé possuía.
Esta enorme amizade, como toda que se preze, rezava pela cumplicidade. Sim! E Zé carecia de alguém que soubesse absorver seus relatos e lamurias, sem contudo sentir-se julgado. Nada mais específico do que os ouvidos de um bom amigo. Não tardou e já estava Zé a abrir-se ao companheiro.
Era Zé a falar, e seu amigo a balançar a cabeça, revirar os olhos e mastigar sabe-se lá o quê. Ter com quem se abrir era a Zé uma novidade boa, mas o comportamento do amigo, convenhamos, não parecia dos mais satisfatórios, visto que vez ou outro Zé era atormentado pela sensação tola de estar jogando palavras ao vento. A fim de solucionar tal questão, Zé passou a escrever seus desabafos em pedaços de papel. E o que seu amigo então fazia? Devorava os segredos de Zé. Agora sim, Zé estava satisfeito. Era essa interação que Zé sentia falta. Só assim conseguiu ver real interesse do amigo em devorar seus relatos.
Todas as relações têm seus estremecimentos, e essa amizade nisso não se diferenciava. Num dia de bebedeira os ânimos de desafinaram. Os que presenciaram dizem ter sido desentendimento sem jeito, envolvendo ofensas. De certeza o que se sabe é o resultado: Cada qual para seu lado.
Remoeram o desentendimento até perderem as estribeiras. Que se dane a amizade. Zé não escrevia mais segredos, tampouco o bode se prestava a absorve-los. O triste é saber que não ficou por isso, não mesmo.
O bode, num acesso de vingança, correu a cidade a cagar e vomitar os segredos do ex-amigo. Zé, humilhado e ridicularizado por seus relatos mais íntimos de conhecimento pleno de uma legião de cruéis julgadores, prometeu fazer sarapatel do infeliz do bode.
A mais nada se sabe da sorte dos personagens desse relato. Sei que de tal desgraça em diante, não se confia segredos a amigos, tanto quanto amizade a bodes.
A partir deste post dou vida a esse blogg!