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Pitty que pariu

 

Domingo, Agosto 31, 2003



se nada posso eu fazer, lamento


Antes de qualquer coisa, quero fazer um apelo. EU NÃO SOU A PITTY CANTORA!!!! NÂO, NÂO, NÂO e NÂO!!!!!! É bem verdade que tormento alguns tímpanos ao estragar umas músicas com auxílio de um violão, que minha voz é sinistra e que, em abono da verdade, vez ou outra me amarre em aparecer, mas eu não sou a rockeira baiana Pitty. Tenham piedade de mim, me poupem de ficar a cada post me justificando, essa sina anda me perseguindo e ao que parece nada adiantou trocar de endereço.
Aconteceu-me uma passagem inusitada. Reencontrei um amigo de faculdade e, como não poderia deixar de ser, ficamos felizes e surpresos. Goró abordou-me perguntando se eu era a irmã da Priscilla. É a segunda pessoa que me faz a mesma pergunta, o que denota que, até o momento, minha aparência está rejuvenescida. E como a situação era repetida, a resposta já estava pronta: "-No caso eu sou a própria Priscilla!" Rimos, conversamos, relembramos, fizemos aquelas perguntas de práxis e eis que do nada ele dá uma leve franzida no cenho, faz cara de galã de boteco, coloca o dedo indicador próximo ao lábio inferior, e lança: "-Lembrei de você no dia 24 de Junho". Não tive como disfarçar meu espanto mediante àquela lembrança, datada, disparada como um tiro certeiro. Ruborizei na lisonja! Contive a vaidade ao cinicamente perguntar porque ele lembrou de mim. Pelo que conheço, Goró não é um sábio idiotizado, então achei-o aficionado, nas duas uma, ou por datas ou por mim. Mas tudo se revelou, em absoluto surpreendente ao que eu supunha, quando ele disse "- Dia 24 de Junho eu estava participando de uma entrevista coletiva com a Pitty, daí lembrei de você!". Vamos combinar, me arrasei! Goró, entrevista coletiva e Pitty...tudo ao caralho!
Não cogito em deixar de usar meu apelido por dois motivos convincentes. O primeiro, e simplório, porque já me chamam assim há bastante tempo. O segundo, crucial, é porque, embora eu não ponha questão os méritos do sucesso da artista, ela tem pleno padrão one way, e assim sendo esquecê-la é questão de tempo. E algo me diz que nem muito.
Para que fique claro que nada tenho contra a cantora, como prova de simpatia, me sinto tentada a entoar o refrão de sucesso da rockeira, claro que devidamente parodiado, e mesmo de expor uma foto dela, para deleite dos fãs!
O que ela canta como "Bizarro/bizarro/bizarro", eu entendo como "Que chato/que chato/que chato"




:: Postado Por Priscilla Xavier :: 5:32 PM :: Escreve que eu leio!


Terça-feira, Agosto 19, 2003





Sinto muito



Hoje eu queria falar sobre as sensações. Sensação é uma sensação, que todo mundo alguma hora sente. Toda hora alguém no mundo tem. Sensação não para um instante. Essas coisas que passam pelos sentidos, isso mesmo, é tudo sensação. Um cheiro, um toque, um barulho, uma lembrança. Opa, agora confundiu-se tudo. Será que a sensação tá na lembrança, ou a lembrança tá na sensação? Não sei. Deve haver muitos postulados filosóficos sobre essa premissa. Sendo verdadeira, creio já ter lido algo do tipo. Dizia que nada existe na cabeça que não tenha antes passado pelos sentidos. A afirmativa esta torta, faltando muita coisa, ou sobrando. Não só sentidos, e sim das sensações dos sentimentos. Confuso. Não importa. O que é não sei definir muito bem, mas dar exemplos me parece fácil e até divertido.
A sensação da chatice. Por tratar-se da que mais me atormenta, essa abre os comentários. Cabendo esclarecer que os seguintes não obedecem qualquer ordem previamente estabelecida. Ela se manifesta de diversas formas, mas a mim, a mais comum é a do vomitador de pareceres infrutíferos. Eufemismo para ¿falador de asneiras¿. A pessoa fala, fala, fala, fala, fala, e nada diz. Não te acrescenta em nada. Minto, te acrescenta impaciência, aliás, transborda. Você observa a pessoa, movimentando incessantemente o maxilar, e fonemas e mais fonemas escapam formando frases que em geral o sujeito é alguém que ele não gosta, e o predicado é um podre desse sujeito. Num dado momento pouco importa o que ela pronuncie, pois você já ligou o MUTE e apenas ouve os próprios comentários sobre o quão chata é a pessoa, como pode ser tão insuportável, e variantes.
A sensação do ciúme. Essa sensação nada mais é do que uma insegurança que culmina num zelo exacerbado por alguém ou alguma coisa que você se atribuiu a posse. Dá para entender que só há ciúme quando só você acha que a coisa é sua? Se para você e todo o resto da humanidade estiver nítido que uma coisa lhe pertence mesmo, você não tem qualquer insegurança. Sábio é o ditado que diz que desse mundo nada se leva. Se eu não posso levar algo, logo esse algo não me pertence. Resumindo, podemos ter ciúme de qualquer coisa. Esse textos por exemplo, bom ou ruim, não interessa, é meu. E se alguém mexer em qualquer parte, alterar, publicar, usar, e não pedir meu consentimento, eu ficarei muito irada. Nem tá pronto, mas já tenho ciúme dele. Agora tenta imaginar até onde vai meu ciúme por tudo o mais que é meu! Meu, meu, meu.
Tem outra sensação interessante para comentar, que por sinal figura entre os pecados capitais, que é a inveja. Ela é maravilhosa. Ninguém admite, mas todo mundo já sentiu. Neguem, convictos, até a morte, pois tão certo quanto ela, apenas o sentir. Quer um exemplo do quão pueril e ordinária pode se observar a sensação da inveja? remontemos à infância. Você torce a língua no canto da boca, sôfrego controla um bastão, de cera ou madeira, de cor nas mãos nada habilidosas, e faz em toscos traços uma casa. Você diz ser uma casa, mas ninguém nesse mundo a reconhece, tanto quanto não admitiriam morar nela. Mas é a sua casa. E no momento em que você se empenha em convencer seus amigos, sua professora e especialmente a si próprio de que o desenho tá razoável, e eis que aparece aquele amiguinho, glorioso, com um desenho muito mais bonito. Você tem vontade de comer seu próprio desenho, aliás tem os que o fazem, e rasgar o do amigo. E só para ele deixar de se metidar a desenhista, ainda enchê-lo de belisquinhos, daqueles doídos e fininhos. Eis a inveja, numa inocente passagem da escola. E muitas se sucedem. A letra do outro é mais caprichada, a outra corre mais, o outro tem uma mochila que você adoraria ter...não faltam exemplos. Fui gentil em citar as formas menos feias de se ter inveja, mas conforme crescemos, a inveja vai se requintando, e vai se tornando necessário ter a mão uma série de artifícios para mascará-la. Afinal, poucos são os que invejam o carro do vizinho e espalham isso aos quatro ventos, como um próspero anúncio do nascimento de um filho, por exemplo. Opa, nessa sentença pode-se perceber que quem sente inveja pode não ser o vilão da história. A inveja é igual a um ping-pong, é lá e cá. Sentimos inveja e a provocamos também. Quem nunca falou uma novidade boa, alta e pausadamente, numa roda de amigos, ou na mesa de um restaurante, para que todos pudessem invejar? Voltei de viagem! Comprei um carro novo! Estou namorando! Passei! Consegui! Essas e outras frases não são, e sequer merecem ser, ditas em segredo. Qual seria a graça?
Agora mesmo, estou sendo acometida por duas sensações. Uma, a de que já fui chata o suficiente. Duas, a de preguiça de continuar escrevendo mais essas chatices. Pois então, eu sinto. E sinto muito.




:: Postado Por Priscilla Xavier :: 7:52 PM :: Escreve que eu leio!


Domingo, Agosto 17, 2003



Nesse momento creio já ter ficado claro aos visitantes que freqüência ou estabilidade não são, e imagino que sequer serão, nem de longe, marcas desse blogger. Portanto, quando pinta algo novo, pode ser lido e relido com toda a calma e paciência que possam dispor. Sobre o texto que agora os exponho, admito que o teor ficcional se faz presente em porcentagem módica. Outro detalhe, pode parecer que não, mas ADORO ler comentários, então...recado está dado!


Da natureza do suposto stress no trânsito



Descobrira, uma semana após se desfazer de um livro/apostila, que as baratas de sua lixeira tinham asco a normas de trânsito. Não conseguiu entender, mas verificou o fato de que as baratas se recusaram a devorar aquele aglomerado de celulóide borrado com pigmentos, que outrora, com outros conteúdos, em pouco tempo davam cabo.
Ignição, freio-de-mão, marchas, primeira, segunda, terceira, quarta e ré. Pedais, embreagem, freio e acelerador. Setas, para baixo indica à esquerda, e para cima, à direita. Então vamos lá: liga na ignição, pisa na embreagem, passa a primeira, solta o freio-de-mão, dá a seta e vamos sair devagarzinho. Essa era a frase que doravante, sempre no mesmo horário, ele iria ouvir até a véspera do dia do exame prático para conseguir sua habilitação.
Todas as infinidades de exigências do DETRAN eram providenciadas pouco a pouco. Cada uma delas era um passo a mais na direção da ansiada habilitação. Exigia-se de tudo, ao ponto de que se lhe pedissem a foto da vovó de biquine na praia de Ramos ou um long play do Bezerra da Silva, ele viabilizaria sem estranhamento. E seguiam os treinos, liga na ignição, pisa na embreagem, passa a primeira, solta o freio-de-mão, dá a seta e vamos sair devagarzinho. Receber ordens não constava em sua lista de aptidões, portanto, no terceiro dia de treino ele já adentrava no veículo com cara de poucos amigos. O instrutor, cheio de marra como bem dita o perfil da raça, com sua finíssima educação a La FUNABEM, nunca chegava cinco minutos após o previsto para o início do treino, tanto quanto, nunca o findava sem uma folga de uns quinze. Não carecia ter um curso com o matemático Oswald de Souza para calcular um déficit de aproximadamente 30% do tempo de treino. Isso não o aborrecia. O que tirava-lhe do sério era a indicação do percurso, ditado sempre de improviso, naquele sussurro de canto de boca. O instrutor só era claro no momento de dizer que não entrara onde ele mandara. Paciência! Isso era desagradável, contudo, nada era pior do que ter um rádio dentro do carro. A música fica a critério de quem? Acertou quem disse do instrutor! Ele então procurava a rádio mais pirata, que executasse, em alto volume e bem chiado, os piores hits dos grupos de pagodes mais abomináveis. Isso era tudo? Não, não mesmo. O instrutor, ainda seguindo as premissas básicas para os seres da espécie, era ritimista. Fácil é supor que a lataria do carro servia de pandeiro, tantan, atabaque, surdo ou seja lá que diabos de percussão fosse. Embalados pelos chiados e batuques, com fervor e devoção que jamais imaginara ter, pedia a Deus paciência, muita paciência. Tal pedido era louvável, já que se pedisse força, encheria o instrutor de porrada. E nunca daria de pau no instrutor, visto que o pau poderia quebrar. Aquilo era caso de uma barra de ferro, e se ela entortasse de um lado, era só bater com o outro, até desentortar.
O dia do exame se aproximava. Ao conversar com o compadre, que estava de mudança para outro estado, descobriu a coincidência. Ambos faziam aulas de condução na mesma auto escola. E a coincidência não parava por aí. Iam fazer o exame prático no mesmo dia e local. Assentada estava ali a segurança de obter um resultado positivo, afinal de contas ter um conhecido por perto nos momentos de tensão já pesa na conta do alívio.
Seguem-se os treinos, hidrômetro com o ponteiro igual a bate estaca na serva, tanque sempre vazio, carro rondando à cheiro de gasolina, rádio na estação pirata e instrutor recém almoçado, devidamente paramentado de calça semi aberta, camisa levantada expondo o sexy umbiguinho e um palito pendendo no canto da boca. A visão do inferno contentaria-se com um desprestigioso segundo lugar no quesito requinte. Ele era bravo! Agüentava a tudo.
Quando iniciou o treino com balizas sua vida mudou. Conseguiu a devida distância do bugre do instrutor, que agora ditava as ordens de uma distância segura, entendendo-se maior que a envergadura do sujeito. Mas nem assim ele conseguia não ser inconveniente. Passava as instruções e dava um tapinha na lataria do carro gritando: Aê, aê! Desfaz, desfaz! Acerta, acerta!
Essa técnica de repetição de palavras unida aos tapinhas na lataria eram os mais novos recursos de tortura. Era um suspiro e uma olhada para Deus. Ele ia vencer! Não demorou e Deus intercedeu. O instrutor agora não ficava mais do lado, não repetia as palavras, e tampouco dava tapinhas na lataria. Agora simplesmente ele arrancava do porta-malas, tal qual um mágico da cartola, uma cadeira de praia, uma cruzadinha e um óculos de sol. Sob a inclemência solar incidindo em seus cornos suados e seu corpo agoniado transpassado por um cinto de segurança imundo, fazendo força com os braços para arrastar o volante de um lado ao outro numa manobra estafante, pelo retrovisor do carro via-se sentado numa cadeira de praia, de óculos de sol, passatempo e caneta, o instrutor. Claro que atropela-lo era uma idéia que piscava incessantemente em sua cabeça. Conteve-se.
Na véspera do grande dia, com ares de bom amigo, o instrutor manda a letra de que, ele até tinha condição de passar, mas se por acaso ficasse nervoso, poderia apelar para o esqueminha. Ele se fez de desentendido, e perguntou como funcionava. O ogro explicou que eram três fiscais por candidato, e cinquentinha por fiscal, era só avisar antes e colocar o ¿beijo-na-testa¿embaixo de tapete. No lápis, era o mesmo que pagar meio-duda e refazer as aulas práticas. Ficou zonzo com tal possibilidade, cogitou a morte como algo mais viável. Não disse nem que sim nem que não, apenas ouviu quieto, e ainda mais quieto com o apelo de que tal assunto fosse segredado.
No mesmo dia deu com a língua nos dentes, e logo para o compadre, cagão renomado, que estava pulando no rabo por medo de perder a prova e ter que reiniciar tudo, em outro estado. O compadre abraçou a causa e disse que queria esqueminha.
Dia de prova, deram bom dia aos primeiros raios de sol. Parcamente desjejuados, amontoavam-se entre os proprietários de esdrúxulos nomes que também fariam exame prático. Uma senhora, doublé da bruxa do 71, berrava os nomes, do meio da boiada surgia o tal e dois brutamontes distribuíam as senhas. Assim foi até a centésima qüinquagésima quarta senha. Ele, senha 97, e o compadre, 43. O compadre passou uma conversa no instrutor, visto que iria viajar ainda naquele dia, e foi um dos primeiros a fazer o exame. Com esqueminha, vale lembrar. Ele, queria levar o compadre ao aeroporto, também pediu para ser adiantado.
O compadre entrou no carro, fez a baliza direitinho, não errou uma seta, carro não morreu. Fez o percurso, e saiu com sorriso de "atleta ouro olímpico" gritando "PASSEI"! Abraçaram-se, e nem assentada estava a emoção quando o instrutor veio perguntar-lhe sobre o dinheiro. O compadre disse, enfaticamente, que colocara lá, direitinho, debaixo do tapete. O instrutor insistia que já procurara e nada, mas ouvindo a afirmação resolvera por bem dar mais uma vasculhada. Nem virou as costas e o compadre já sumira na poeira. Daí por diante, o instrutor do compadre olhava-o a cada instante e fazia pose de macho valente, com os punhos fechados latejando para distribuir socos na direção do comedor de lavagem de manés metidos a espertos. Até o momento em que se aproximou, ainda na postura de pugilista de fim-de-semana, e começou a tomar satisfações. Ele é o quê seu? Você o conhece de onde? Sabe onde ele mora? Sabe se ele se mudou mesmo? Qual é o telefone? E daí a amansar e lamentar miséria não demorou. Era um tal de eu não sou criança, eu tenho filho pra criar, ele combinou comigo, isso não se faz, palavra é palavra, questão de caráter, e apelou o quanto lhe foi possível, chegando mesmo a deixar a imagem do compadre bem complicada.
Trim, trim, trim. Puta que pariu, só podia ser ele,o infeliz sem desconfiômetro. Procurou se desvencilar dos olhares fiscalizadores e rancorosos do instrutor para atender o inconveniente do celular. Primeiramente sequer lembrara de desligar aquela bomba que poderia malfadar seu exame, e posteriormente já caíra a ficha de que o compadre havia dado uma beiça no instrutor. Era mesmo o compadre. Falava baixinho, e insistia para que o compadre fosse breve, pois estava com a sensação de estar sendo vigiado. Ligou para saber se ia ou não levá-lo ao aeroporto. Disse que dependia da boa vontade do instrutor de chamá-lo o mais breve possível, mas não tinha como dar certeza.
As horas se adiantavam. O sol se aprumava e já causava aquele leve inconveniente a quem encontra-se desabrigado. Ao ver seu instrutor ascenava com o dedão polegar, ao que obtinha em resposta o mesmo sinal e um sorriso, mas nada de ser chamado.
Meio-dia. Terminava o período estipulado para as provas práticas. A montoeira de gente já havia evacuado. Os carros para o exame tampouco estavam presentes. E quando não havia mais ninguém, o infeliz portador da senha 97 fora chamado nominalmente. Nesse momento o nervosismo já tinha sido substituído por fome e exaustão. Pensava que estava sendo boicotado, que aquilo era complô e já até se conformava com a reprovação. Carro ligado, fez as balizas. Fez o circuito impecavelmente. Dirigiu-se a mesa e não perdera seque um ponto. Não tinha forças nem físicas nem emocionais para comemorar. Era um caco humano. Amassou o papel no bolso e arrastou-se até em casa para desabar num choro de absoluto desgaste. Mas conseguiu. Uma semana depois estava com sua habilitação em mãos.
A habilitação poderia ser, ou melhor, deveria ser, o encerramento de um drama. Ao contrário, foi o início de uma cisma. Desde então, ao caminhar pela orla, ao andar pelas ruas, ao fazer compras, ou simplesmente à caminho do trabalho, sempre que depara-se com um carro da auto escola, especialmente dos veículos que ele e o cunhado dirigiram, sente calafrios. Tem a impressão de estar sendo seguido. Sua desconfiança quanto à honestidade de instrutores de auto escola nunca fora pequena, mas agora se avolumara de sobreforma. Imagina que seu nome, em virtude do compadre, encontra-se numa espécie de lista negra de perseguidos. Chega a sentir um X marcando suas costas.
Plano para o futuro, dependendo da benevolência de outrem em não abreviar sua vida, é tirar um brevê. Só para saciar a curiosidade se o instrutor de vôo batuca na fuselagem do avião e, se o faz, qual será a sua trilha sonora. Depois da saga para adquirir a habilitação de trânsito, tudo lhe parece... moleza.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 12:47 AM :: Escreve que eu leio!


Quarta-feira, Agosto 06, 2003



Nem vou ficar me justificando que continuo sem uma conexão descente, que ando assoberbada com uma gama de inutilidades, nem que a preguiça me toma. Simples e brevemente irei agradecer-lhes as visitas, cada vez mais numerosas, e os comentários, mesmo que não tão numerosos.



Escola da Malandragem



Idiota, mongol, retardado, imbecil. Adjetivos, pejorativos, não faltavam a Otávio. Não lhe bastasse ter um nome tão almofadinha, tinha mesmo uma cara de babaca. Desde a mais tenra idade era alvo fácil de espertinhos. No jardim da infância já tinha a merenda subtraída, a massinha usurpada e se desse bobeira de levar algum brinquedo para se distrair com os amigos, era o mesmo que despedir-se para nunca mais. Nunca se vira coisa igual. Otávio era uma espécie rara, inominável, mas que me concedo a graça de batizar como chamariz de vagabundo ou Papai Noel de malandro, vai ao gosto do freguês.
Feriado, dia de eleição. Como bem instiga a Lei Seca, só não estava tomando uns biricos as crianças e os convocados para auxiliar no pleito. E nos dois casos não se pode dizer ao certo em qual Otávio melhor se encaixa.
Naquele bar a meia-porta estava reunida a vagabundagem de sempre. Era passar após votar e, mesmo os regenerados não se continham, cair na gandaia e empurrar o pé. Para os que ignoram, vagabundos votam, cumprem felizes o exercício da cidadania. Até porque é um motivo a mais para reunir-se em bando. E lá vinha, calça surrada, regata branca, cordão de ouro, olhos desconfiandos e ágeis, como os de quem assiste campeonato de ping-pong, andar pendente de um lado ao outro, dois passos a frente, um para o lado, típico de quem está acostumado a subir ladeira, sejamos exatos, de quem mora em morro. Ele foi a comoção do bar. Fora avistado ainda na esquina, e todos os vagabundos pararam para saldar sua triunfal chegada. Ele era o cara. O mais falante do bar já gritou:
-Quem tem título sempre aparece!
E o comentário foi seguido de uma sucessão de risadas grossas e escandalosas. Essa era deixa do malandro se aproximar com toda a pompa de quem tem fama. A conversa do bar seguia animada. Não faltavam histórias que envolvessem o cara. Ele fazia nome desde o jardim de infância. Primeiro ganhara a alcunha de Ratinho, quando atormentava a vizinhança com seu poder mágico de dar sumiço em tudo. Foi crescendo, e logo virou mão- leve. Na adolescência, de tanto correr dos cascudos e sovas dos que não compreendiam sua sina, virou perna-longa. Foi se especializando na profissão e começou a lidar com negócios. Seus maiores e melhores parceiros, olha que inusitado, eram policiais. Chamavam-lhe então de Freio de Camburão. E claro, com um currículo tão progressista, tivera inúmeras passagens em diversas delegacias e penitenciárias. Era uma autoridade no quesito vagabundagem.
Escolaridade? Tinha a terceira série, e incompleta. Carteira de trabalho virgem. Seu habitat natural era praia, beiles, bares, samba, pagode, sinucas e campos de futebol. Peladeiro dos bons, com direito a uniforme completo, invariavelmente roubado. Era altruísta, nunca roubara uma camisa, roubava logo o time inteiro. Com ele não tinha bagunça, tinha um nome a zelar. E dizia sempre aos mais chegados:
-Você tá por dentro do meu conchavo!
E realmente perto dele não tinha tempo ruim. Fazia ganho a qualquer hora, em qualquer freguesia. Batedor de carteira, de classe. Era levantar um cavalo, e não existia puta pobre, ou vagabundo de boca seca. Bancava as farras e esbanjava bordões arrancadores de gargalhadas:
- Comigo miséria não tem vez, é regado!
Filhos? Não tinha nenhum, alhures. Embora os recalcados teimassem em atribuir a uma criança ou outra das redondezas alguns traços que o lembrassem. Dizia ele que isso era intriga da oposição. Mulher? Ele arranjava fácil. Fácil vinha, mais fácil ainda ia.
Era supersticioso. Tinha mesmo que ser. Tanta gente de olho gordo nessa vida que ele levava. Acendia uma vela e carregava no peito a medalha de seu santo protetor, São Jorge.
-Salve Jorge, para que meus inimigos tenham pés, mas não me alcancem. Tenham olhos, mas não me vejam.
De fato o santo fazia sua parte, mas Jorge, eis nome de trambiqueiro, não fazia por onde. Ainda que o santo se revezasse em três, não daria conta do serviço. Jorge rodou, e várias vezes nas mãos dos policiais. Isso não diminuía sua devoção, assumia a culpa.
Agora estava ele, gozando nas vestes de humilde, dos louros que sua trajetória de vida lhe dera. Era bem visto, saudado e respeitado pela malandragem, e um ídolo para a ladroagem. Num bronzeado moreno encarcerado, e num odor flores da cela, não carecendo explicações sobre sua procedência, foi bem chegado!
-E então Jorjão! Já votou?
-Já!
Respondeu malandro, tímido, como um filho pródigo.
-Então pega um copo e vamos comemorar!
Deu uma caída no pescoço, uma subida nas sobrancelhas, e gesticulando na manha explicou:
-Hoje eu não estou bebendo.
Todo mundo riu. E a galhofa estava armada.
-O quê que é Jorjão? Tá tomando antibiótico?
Jorjão sorriu de soslaio, e continuou se justificando.
-É que eu tô a serviço. Não fica bem para um cara da minha categoria fazer um ganho, e se gorar, dá o mole de correr com as pernas bambas.
A risalhada era estrondosa. Realmente o cara era a figura. Mal chegou e já era a chacrinha. Todos queriam ouví-lo, e fazer piadas. Mas a verdade era que Jorjão não estava mais na flor da idade, e esse era o motivo da chacota, muito embora ele estivesse ali, em grande parte, no intuito de provar o contrário. Deixar claro para a garotada que era o dono do pedaço.
Já bastante enturmado, agora a garganta se afinava em dizer saber tudo:
-Rapá, eu sou malandro da época de Getúlio! Sei tudo de malandragem.
E essa era mais uma frase de efeito que geral repetia as risadas. Foi se empolgando e dava veredicto em tudo:
- Conheço tudo mundo e mais alguém!
Alegava ter vivido muito, rodado muito, e conhecer tudo e todos. Enquanto a farra rolava, ele sempre dava umas olhadas incertas para rua, espreitando um mole qualquer, coisa de malandro que não deixa nada passar. E a vagabundagem entendia e respeitava, afinal de contas ele já avisara estar de serviço.
O dia passando, e nada de Jorjão fazer um ganho. Agora a chacota era que Jorjão era um garganta. Geral impregnando e rindo:
-E então Jorjão? Qual vai ser a parada? Tem um pirulito ali na mão da criança! Dá pra ser?
Jorjão olhava puto, fazia cara de poucos amigos, gesto de quem pede segredo, e ainda resmungava dizendo que assim não dava, o pessoal explana muito, tem que ser no sapatinho.
Já era quase noite, finda a eleição, e nada de nada com Jorjão. A vagabundagem já se dizimando, rumo ao descanso, em abono a verdade, vagabundar também cansa. Jorjão lá, só de butuca. Não tinha pouso certo, ficava por ali mesmo. Não pensava mais em fazer ganho, pois a rapaziada que poderia apreciar sua desenvoltura já não estava em condição de ver muita coisa, e então sossegara a idéia. Olhava para a rua, e eis que passa Otávio. Os olhos de Jorjão cresceram. Otávio não era mesmo uma pessoa comum, era uma afronta a esperteza alheia. Andar distraído, cabeça baixa, óculos na metade do nariz, bunda grande balançando, calça com bainha varrendo chão, camisa amarrotada para dentro da calça, e nos bolsos de trás da calça, de um lado ia a carteira e do outro subia quase caindo o título eleitoral.
Jorjão não agüentou aquela visão e seguiu sua presa, sorrateiro, até uma rua menos movimentada. Não teve tempo de armar um esquema, então achou por bem agir no instinto. Otávio nem se dava conta de estar sendo seguido. Jorjão mandou a letra:
-Mermão, nem vou te assustar muito. Vai passando tudo o que você tiver, e não faz gracinha.
Otávio olhou bem para jorjão. Já vira aquele focinho mal esculpido em qualquer lugar. Foi descendo, e aquela ossada também lhe parecia familiar. Chegou aos pés, e numa sandália de couro observou dedos cascudos vazando para todas as direções, tudo tomado de panarício. Voltou os olhos nos olhos e, assustado e incrédulo, balbuciou:
-Jorge Ratinho?
Jorjão não se intimidou, e deu logo um tapa esperto no ombro do cara, para deixar claro que ele dominava a situação:
- Vambora logo. Agiliza!
-Jorge Ratinho!
Agora Otávio estava convicto. Era Jorge Ratinho, seu algoz na infância.
Jorge, por sua vez, num estalo recordou tudo nitidamente, desmentindo em parte o ditado que diz "quem apanha nunca esquece". Jorjão batera, e muito, e estava ali, absolutamente lembrado, com a emoções invadindo seu corpo segundo após segundo, conforme lembrava-se dos tempos de escola. Mandou certeiro:
-Otávio!
Nesse momento os dois se abraçaram. Abraço caloroso. Não estivesse tomado de tanta emoção, Jorjão nunca daria um abraço tão forte, pois rezava que era "sujeito homem" e tal não cabia. Otávio o abraçava sem reservas. E do abraço seguiu o sorriso, e a sem gracisse de não saber o que falar. Jorjão, mais escolado, quebrou o climão:
-E sua Mãe, Dona Imaculada, continua com mão boa para bolo?
Otávio gargalhou:
- Sim. Pena que na época da escola eu não conseguia provar os bolos que ela fazia. Você sempre roubou minha merenda.
-Otávio, não mete essa! Eu era magro e faminto, e você gordo, bobo e cheio de merenda. Pensa bem: era ou não era a combinação perfeita?
E assim riam, recordavam e se divertiam. Até que Otávio olhou preocupado para o relógio:
-Eu tô atrasado para chegar em casa, minha mãe deve estar preocupada.
-Tu ainda tem mãe, gente-fina?
-Tenho. Quer ir lá em casa? De repente ela fez um bolo hoje.
Jorjão pensou bem, fazendo aquela "glicose anal" (o famoso cú doce). Mal sabia Otávio que tudo o que Jorjão queria era um lugar para cair e um quente para o estômago, que a essa hora do dia já estava aderindo as costelas. Mas não podia ir sem cerimônia. Otávio abraçou Jorjão, e seguiu caminhando, conduzindo-o para casa.
No dia seguinte, de porre da eleição, geral comentava. Estavam bêbados, mas viram Jorjão agarrado com um otário. Um cuspiu de lado e duvidoso mandou:
- Pó mermão...aposentadoria de malandro agora é viadagem?! Tô out!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 8:52 PM :: Escreve que eu leio!