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Idade: 26

Profissão: publicitária

Estuda: Ciências Sociais

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Pitty que pariu

 

Sábado, Abril 24, 2004




Assistamos a tudo


Eu, na condição de zeladora dos direitos dos consumidores avaros, venho por meio desse post participar-lhes de minha mais recente e quase mesquinha indignação. Digo mesquinha indignação em respeito a coação social/mídia brasileira em tratar exclusivamente da violência. O assunto está na agenda do dia. Reconheço e endosso a relevância, mas os problemas sociais formam um corolário, e não é nada absurdo ou criativo relacionar um ao outro. Enfim, por ora de lado as enfadonhas justificativas, deixe-me ir ao ponto.
Eu e Zinho Jupará, meu escaravelho de estimação que carrego no bolso para conter meu impulso consumista, passeávamos pelas Lojas Americanas. Em verdade não passeávamos, apenas cortávamos caminho para chegar até a faculdade. Eis que eu vi! O preço bem legível R$ 0,50. Começou com zero já me desperta interesse. Era uma gôndola enorme, cheia até não mais caber, de um lado biscoito wafer, do outro recheados, da marca hipopó. Nunca vi hipopótamo fazer biscoito, mas para estar naquele físico comeram e acharam bom. Meus olhos brilharam! Olhei a validade, pois em geral, como sou sensível a preços absurdamente em conta já sei que o vencimento fala alto, mas estava ok. Pedi autorização para Zinho, que sorriu consentindo, e comprei um. Na hora de pagar o rapaz do caixa já queria me encher de moedas, sem mentira, ele queria me dar um troco para R$10.00 só em moedas. Enchi o peito, olhei com a minha cara mais invocada e falei: Ta de sacanagem! Ele riu sem graça e disse: Não quer moeda não? Aí meu aforismo não agüentou: Ta achando que cu de otário é cofre? Ele morreu de rir, e fez por menos, levei apenas R$ 4,50 em moedas. É impressionante como as pessoas em geral são responsáveis por minhas súbitas variações de humor, em geral do bom para o péssimo. Abri o biscoito e me direcionei para a faculdade.
Entrei atrasadíssima na aula. Ou melhor, numa perspectiva totalmente positiva, cheguei uns vinte minutos adiantada, para a aula seguinte. Sentei-me no último assento da última fileira do auditório. O professor me olhando estranho e eu comendo biscoito. Quando terminei de comer o biscoito, muito gostoso, eu estava feliz novamente. Aquela delícia, com aquele preço, era muito! Terminada a aula, passei para a outra aula e comecei a ficar indócil. Eu precisava comprar mais daquele biscoito. O professor de ciência política se acabando em falar que em estado de natureza todos têm direito a tudo, e eu me acabando em pensar que abusando desse direito as pessoas iriam naturalmente se apropriar dos biscoitos e quando eu lá chegasse nada mais teria. Já estava me dando comichão. A cifra não saia da minha cabeça...R$0,50, nem barra de cereal, nem guaravita na central. Eu estava quase largando a aula. A minha teoria de atribuição de preços passara a ter um novo indexador, e era o famigerado biscoito wafer. Eu, como atormentada e compulsiva, já fazia meus cálculos: Ontem comprei uma blusa linda que custou 58 pacotes de hipopó. E assim a aula passava.
Terminada a aula, não é um gênio quem sabe para onde eu fui. Comprei 19 biscoitos wafers de chocolate hipopó. Após a aquisição eu tinha um encontro com minha irmã e mais duas amigas. Iríamos almoçar, e minha preocupação era quantos hipopós esse almoço iria me custar.
Encontrando-as tratei de distribuir biscoito para cada qual. Elas riram e não entenderam, pois mais que ninguém são vitimadas pela perspicácia de Zinho Jupará. Acharam estranho, agradeceram e ficou por isso. Almoçamos, e assim que terminamos eu perguntei: Alguém quer sobremesa? Saquei um hipopó da bolsa, e a risalhada não parava. Pegamos um ônibus pra casa, e já saquei outro. A essa altura da narrativa vocês devem estar calculando uns quatro hipopós. Sim, devo ter comido uns cinco num só dia, pois sou mesmo compulsiva. Meu cérebro demora a processar a ingestão dos alimentos. Por exemplo, eu não processo um pedaço de torta, apenas a torta inteira. Eu não entendo uma fatia de pizza, um copo de iogurte, um bombom ou uma maçã, eu preciso de uma quantidade, não raro, bastante acima da média. E eu estava encantada com o biscoito. Não sei se mais pelo preço ou pelo sabor. Talvez a união dessas características tenha me estimulado tanto.
Terminada a narrativa, agora sim, explicitarei a sua razão de ser. Tenho o hábito de entrar em contato, via telefone ou e-mail, com as empresas que fabricam e comercializam os mais diversos produtos. Na embalagem da hipopó tinha um site para contato, não anotei o endereço, mas fiquei de procurar para prestar-lhes os devidos comentários a respeito do produto. Encontrando o endereço dos fabricantes, eis que me deparo com uma triste realidade, a falência, que pode ser constatada em http://www.cory.com.br/ .
Volto então à idéia da sociedade como corolário, e conseqüentemente à agenda dos meios de comunicação com a violência em pauta. A falta de incentivos à indústria nacional, as questões relativas as práticas de juros, a economia de impulsos neoliberais e tantas outras questões que alienam os cidadãos de parte de seus direitos e da plenitude de sua dignidade, culminam, sem erro, na violência, na reação. Afinal, o liberalismo está alçado na idéia do individualismo e do igualitarismo, e o individualismo, o mais ocidental dos valores, na de liberdade, propriedade privada e limitação do poder do estado. A partir do momento em que o estado não satisfaz o indivíduo, é legítimo que essa possa se manifestar, e tal é feito através da violência, diria que pelo direito legítima defesa, em última instância, da própria vida. Voi la!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 5:26 PM :: Escreve que eu leio!


Sexta-feira, Abril 23, 2004




Como se eu já não tivesse mais o que fazer


Essa semana fui contemplada com um senhor feriado. Sim, um feriado de quase uma semana. Vislumbrava meus dias, e os preenchia com planos perfeitos. Nos planos constavam leituras, idas à praia, show, passeios, cinema e algumas outras coisinhas a mais. A brincadeira teria início na quarta-feira (Feriado de Tiradentes), emendaria com a quinta, que pode ser entendida como comemoração pós-quarta ou véspera de sexta (Dia de São Jorge), e terminaria apenas no domingo. Eu ria sozinha! Mas eis que a graça acabou na quarta-feira mesmo.
Eu estava sem acesso direto à internet, sendo castigada pelo discado. Vocês não têm a dimensão do drama. Todas as vezes que eu queria verificar um e-mail, ou pesquisar qualquer coisa rápida, tinha eu que esticar um fio de uns cinco metros, do computador que fica no meu quarto, até a linha telefônica que fica na sala. Tudo isso porque a minha extensão não funciona nem por decreto. Dito isto vocês bem podem imaginar o quão satisfeita eu estava. De cinco em cinco metros fiz quase uma São Silvestre.
Fui ao ansiado show na praia, evento 0800 (de graça) que tanto me instiga, em Icaraí. LOTADO! Não vi sequer alma conhecida de Niterói. E os raros conhecidos que esbarrei eram de outro lado da poça. O show era fraco. Era unicamente um pretexto para sair de casa e ver MUITA gente. Eu estava sentindo uns calafrios, dor de cabeça, e voltar para casa foi um suplício.
Quinta pela manhã descobri que estava virótica. Cancela praia, passeio e qualquer atividade que exija esforço. Sobrou o computador para me entreter. Ledo engano. Ele deu pau. Se eu reclamava que não tinha internet, agora eu estava mais satisfeita ainda, pois a máquina não ligava, não rodava, mouse não existia. Dei um jeito de salvar o que dava e dá-lhe format. Se vocês se derem ao trabalho de ler uns três ou quatro posts anteriores, poderão constatar que é a segunda vez esse ano que zero essa coisa.
Coriza, dor de cabeça, dor no corpo, impaciência e acha que acabou? Ainda tem a greve sentimental. Não agüento mais entoar o mantra "toca telefone/toca telefone/toca telefone"... ele não toca. Exagero meu! Ele toca, mas é meu pai me pedindo pra resolver isso ou aquilo. Quem eu desejo que ligue não se manifesta, é mesmo um castigo. Gente, por favor, alguém quer me ligar? Eu pago! Esse telefone fica quase mudo de segunda a sexta a tarde. E quando toca, é invariavelmente em local e hora inconveniente. Daria para me inspirar em escrever um tratado sobre as vantagens e desvantagens de um telefone. Enfim, para o post não ficar só nos lamentos em prosa, fiz um em verso enquanto reinstalava programas nessa máquina:

Despropósito

Hoje levantei
Sem querer levantar
Tomei café da manhã
Sem querer me alimentar
Assim o dia passou
E eu só querendo passar
Quando veio a noite
Me pedi desculpas
Pois foi tudo sem querer


Obs: O feriado ainda não acabou. Só eu e minha paciência.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 12:30 PM :: Escreve que eu leio!


Domingo, Abril 18, 2004




Meninos, eu vi



Após inconfessáveis dias de ausência das salas escuras, num ato mais de solidariedade que de intenção, eu dei fim ao jejum. Não foi um fim em grande estilo, mas já valeu a pena, já estimulou críticas e, mais que isso, o retorno ao edificante hábito de assistir filmes. Coincidência ou não, fui coagida a assistir "Ariela", filme brasileiro, estrelado por Cleo Pires, adaptado, ou deturpado, do livro de autoria de Chico Buarque, "Benjamim".
Paulo José e Danton Melo no papel de Benjamim Zambraia. Ariela e Castana no papel de Cleo Pires. Trocadalho do Carilho a parte, o filme me despertou muitas opiniões. Como diria algum antropólogo que não me vem a memória, um filme pode até não ser bom para assistir, mas é sempre bom para pensar. E é só o que faço. Diria que fico atormentada quando recebo muitas informações ao mesmo tempo, misturo tudo, relaciono coisas, tento pôr ordem, essa mania feia que me acomete, e vocês, escassos e compreensíveis leitores, hão de acompanhar o tanto de indagações as quais consigo tornar inteligível.
Lembro-me de ter lido "Benjamim" há uns três anos. Não gostei da trama, contudo era muitíssimo bem escrito, pois Chico Buarque não é Chico Buarque sem mérito. Eu ficava angustiada pelos conflitos temporais do Benjamim e pela atmosfera angustiante, sôfrega, tão triste e solitária que era descrita das visões do presente e ligações com o passado. Algo como uma existência vazia, um passado muito presente, um apartamento sombrio, úmido, com vista para uma pedra. No filme todo esse efeito literário tão marcante se esvaiu e, provavelmente, com ele o personagem, no filme, pretensamente principal.
Nessa lacuna entra a estreante Cleo Pires, em dois papéis de extremo apelo sensual. Eis a troca que causou-me uma dissonância cognitiva, a prevalência do erotismo sobre a angústia. A Cleo Pires está podendo, e muito, não foi premiada em vão. Não fossem seus lábios, olhares, sorrisos e corpo, que se caracterizam do puritano hipnótico ao escancarado lascivo, a produção estaria verdadeiramente comprometida. Quase fracasso.
Outra questão que merece comentário é o apartamento do Benjamim. Como já disse acima, tinha vista para uma pedra. Para quem conhece o Rio, ou ainda para os que desconhecem contudo são arguciosos observadores, aquele apartamento que foi externamente filmado, localizado na esquina de uma rua entre o flamengo e Botafogo, facilmente avistado por quem passa de carro ou ônibus em direção ao centro, está entre outros imóveis. Portanto, não é complicado concluir que, o que se conseguirá ver, das janelas da frente, ou é a paisagem da enseada de Botafogo ou as pistas do Flamengo, e das janelas de lado e de fundo, concreto dos prédios vizinhos. Então, onde está a pedra? Eu já não durmo pensando onde pode estar a infeliz da pedra.
Por último, também muito inquietante está o poder, sim é um poder digno de super heróis, que os personagens têm de atravessar ruas, de trafego intenso, sem sequer dar uma olhadela se vem ou não carros, e melhor que isso, por vezes ainda atravessavam A La "Seu Boneco": "Dis costa!". Todas as vezes que eu via essas cenas, me dava uma tensão, e eu pensava: Eu não lembro de nenhum suicídio no livro!
Bem, não tanto pelo filme em si, mas por me colocar para pensar, valeu muito a pena ir ao cinema.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 12:32 PM :: Escreve que eu leio!


Segunda-feira, Abril 12, 2004




É fantástico


Muitas e muitas vezes eu simplesmente me esqueço da razão pela qual eu, em geral, me desestimulo de assistir televisão, excluindo o fato de eu não ter lá muita concentração e paciência. Tenho uma tendência ao escárnio, deboche e descrença total das coisas, quase a ponto de construir um retrato pessimista do homem. Mas, vamos às breves observações de alguns minutos de audiência seletiva do fantástico.
Pra começar ele me entra de sola, rasgando, ao fazer um apelo/homenagem. Pede a paz, pede segurança, e pede para que as pessoas não deixem que o Rio perca a imagem de cidade maravilhosa, entrando e saindo cenas de tiros, correria, sangue, e tudo ao som de Elza Soares cantando "Cidade Maravilhosa". Esta é a dramática homenagem feita às vítimas da violência, mortas nesse final de semana. É angustiante dormir e acordar com a idéia de que sua vida, ou de seus amigos e parentes, ou de quaisquer cidadãos, pode ser abreviada de forma estúpida, pode ser tão menosprezada. Mas, cabe também fragmentar a nossa realidade para ter uma dimensão mais ampla das coisas.
Em primeiro lugar, o uso da violência. É uma noção totalmente ambivalente. Para criar uma ordem, em maior ou menor intensidade, se faz necessário o uso da violência. Por sinal o estado é detentor legítimo da violência em nome da famigerada ordem. Por outro lado, os que fogem do controle da ordem vigente, os transgressores, também recorrem à violência. Quem age, e quem reage? Quem contém a violência de quem? A transgressão é, em geral, reação a uma situação adversa, uma reação a um desconforto. Claro que a questão é muito mais complexa do que essas reles colocações, porém creio que sejam fundamentais para a construção de uma análise crítica de todos os cidadãos que se sentem vitimizados pela violência. Um milhão de canhões espalhados pela cidade não diminuiriam potencialmente a violência, mas imagino que parte considerável da população carioca se sentiria mais segura. Engraçado...dia de eleição não tem tiroteio! Talvez se tivesse as pessoas votassem mais conscientes de sua responsabilidade no momento de escolher um representante. É uma idéia a se amadurecer.
A outra questão que me inquietou foi a entrevista com a Cléo Pires. Dormiu filha de Glória Pires, acordou estrela internacional, premiada por sua primeira e bem sucedida atuação num filme brasileiro. Louvo e congratulo Cléo Pires pela ousadia. A classe artística vive enchendo a boca para falar do preparo do ator através de cursos de atuação, interpretação, impostação de voz, postura em cena, autógrafo em guardanapo e o diabo a quatro. Mas, convenhamos, tudo forja um grupo de elite, calcado na idéia de obtenção de técnica mediante ao pagamento de dinheiro. Claro, perfeito, é um mercado. Em alguma instância essa formação de elite ofusca o talento autônomo, apreendido pelo fascínio que determinada profissão possa exercer sobre alguma pessoa, ou mesmo pelo esforço. Sobre essa questão Cléo ganha um ponto, pois transcende essa barreira. No entanto, a oportunidade de mostrar o seu talento está, rigorosamente, atrelada ao prestígio que o nome do pai e da mãe a emprestam. A beleza também contribui bastante, vale a pena ressaltar. Estrear com um excelente papel numa produção nacional, para Cléo Pires, é mole. Quero ver a Jenifer da Silva, que a faz escola de teatro numa comunidade carente qualquer, fazer uma ponta. A Jenifer vai ser no máximo, como li numa revista, atriz negra. Pô, se essa denominação segregadora a fizer receber em dobro é até aceitável. Contudo, me parece mais tratar-se de duas profissões, ou danações, a de ser atriz e a de ser negra. E a coisa é bem como diz meu amado pai: "Filho de rico fazendo cultura é artista, de pobre é vagabundo."
E a miséria continua. Para arrasar essa entrevista que caminhava numa corda-bamba, mediante ao dilema acima exposto, Glória Maria, sem ter muito que dizer e desperdiçando a oportunidade de ficar calada e sair bem na foto, diz que o talento da Cléo está no sangue. Ahhhh... não PHODE! Então ta! Vamos ver se eu entendi: O talento ta no sangue, logo, se a Glória Pires for doadora de sangue, e eu receptora, logo eu viro uma talentosa e premiada atriz?! Eu entendi bem a lógica? Na verdade mesmo, no atual momento de mundo buraco a dentro, eu queria era ser receptora do Bill Gates, pois o talento para ganhar dinheiro também deve estar no sangue. Numa boa, a Glória Maria não tem mais idade para cometer esses erros crassos, os quais fortalecem sobreforma os preconceitos disfarçados de senso comum.
E por hoje é só pessoal. Prometo que domingo que vem me policiarei (olha que palavra maldosa) para não assistir ao fantástico.
Gente, eu andei escrevendo umas poesias, ando muito sensível quando dá tempo, mas a timidez não me permite colocá-las aqui nesse blogger. Tomarei coragem.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 4:37 PM :: Escreve que eu leio!


Sexta-feira, Abril 02, 2004




Não sou santa, mas atendendo pedidos


Atendendo aos calorosos e sinceros pedidos (dois), volto eu a enxertar algum conteúdo a esse espaço. Deixe-me, em primeiro lugar, fechar um parêntese com as pessoas que deixaram esses pedidos para que eu atualizasse esse blogger. Giselle e Marcela, por favor, me mandem o nº da conta bancária para eu poder fazer o depósito. O combinado era R$1,50 por comentário, não era isso!?
Bem, resolvida essa questão, passamos a pré-atualização. Sim, pois, para variar, antes de discorrer sobre alguma loucura, tenho que primeiro me reportar pela ausência. Pois então, fique sem atualizar esse blogger bastante tempo, reconheço. Mas não havia sequer um dia que eu não tivesse algum comentário para fazer, tanto quanto também não havia dia em que eu tivesse tempo e força para escrever. Insisto, preciso sair da oralidade. Ou melhor, preciso ir além da oralidade, pois do contrário as coisas ficam pobremente documentadas.
Hoje eu consegui transcender essa barreira, e aqui estou. Alguns fatores contribuíram para tal feito, e dos quais merecem destaque: meu cel que não toca da manhã de segunda a tarde sexta-feira; uma aula ou outra que andei matando para não morrer (legítima defesa); e por último, porém de enorme importância, o lindo estabaco que tomei hoje quando pedalava pela orla (Tão chique e reacionário esse termo). Aliás, esse tombo é digno de ser contado, sem poupar detalhes.
Sexta-feira, dia em que posso me dar ao luxo de pedalar antes de rumar para a faculdade. Acordei cedo, cansada, com aquele pressentimento de que eu não deveria sair da cama, mas a teimosia, não raro, me fala mais alto. Levantei então, paramentei-me devidamente de atleta amadora, walkman no ouvido, e lá fui eu pedalar a minha cachorra. Sim, cachorra, pois aquilo não se pode chamar de bicicleta. É qualquer coisa, algo como um quadro de ferrugem com rodas.
O meu percurso pode ser feito em cerca de sessenta minutos, passando por uma praia poluída (Icaraí), uma praia muito suja (São Francisco), uma praia imunda (Charitas) e um pântano (Jurujuba), porém eu dou duas voltas na muito suja, imunda e no pântano, para então complementar 90 ou 100 minutos de pedalada. Quando da muito suja eu voltada para a poluída, estando na rua eu precisava ir para a calçada e não correr o risco de ser atropelada. A única coisa que eu não precisava era ir voando. O guidão fez um 360º, mais fazendo lembrar o volante de caminhão. Nesse momento eu fui ejetada, e do céu fui de encontro ao chão, aparando a queda primeiramente com os dois joelhos, como boa cristã não poderia ser de outra forma, posteriormente freiando com a mão esquerda (a qual deslizou no barato meio metro). Nessa inclinada para a esquerda o cotovelo encontrou o chão com uma porrada e, no movimento, o ombro também teve a sua vez de encontrar o chão, e aproveitando o ensejo deu uma roçada boa nele. Deitei a cabeça, olhei de lado e vi um par de coturnos. Fui subindo devagar e parei no focinho de um policial que dorme e coça numa cabine na praia. Ele me olhou e, sem esboçar movimento de ajuda, talvez por nojo ou algum outro sentimento de repudia certamente recíproco, perguntou-me se estava tudo bem. Uma bicicleta torta, um corpo contorcido jogado num piso de pedras portuguesas e sujo de areia, está tudo bem? Sim! Respondi. Pensei comigo: Está tudo ótimo! Depois de ver aquela cena, tenho certeza que viu, pois do contrário não estaria ali tão rapidamente, no mínimo ele deve ter achado que eu faço curso para dublê, e que aquele tombo era meu dever de casa. Não consigo imaginar outra possibilidade para a pergunta tão espirituosa. A música continuava tocando em meus ouvidos. Isso mesmo, o walkman não me largou na queda, ele veio juntinho. Só agora a tarde pude ter a noção mais clara do motivo pelo qual o dia inteiro fica um refrão impertinente na minha cabeça, de MARIA meirRITA cantando: hê hê/ ele não é de nada/oi há/ Essa cara amarrada/é só/ um jeito de viver na pior. Clareou tudo!
Enfim, eu, minha cachorra torta, meus dois joelhos ralados, minha bermuda em estado de lástima, meu ovo verde no cotovelo, e meu ombro sensualmente avermelhado voltamos para casa. O meu receio de cair com minha cachorra é mais pelo risco de tétano do que com qualquer escoriação. Foi duro passar pela alfândega sem dar na pinta que estava, digamos assim, debilitada. Tomei banho e, não obstante ao calor, vesti uma calça para esconder as chagas, e lá fui eu pra faculdade. Dor? Nem muita, as unhas, o cabelo e as sobrancelhas não doíam mesmo. Eu nem conseguia prestar atenção na aula. Mas agora à tarde, chegando em casa, fui passar um confere e, na boa, nem parece que caí. Fiquei aliviada, pois imaginei que tivesse que dormir de calça e casaco pra não ter que dar satisfações. Tá hiper discreto. Tô apenas com uma leve aparência de vítima de espancamento, mas muito discreto mesmo. E a dor, já passou. Tão estranho quanto acordar e ter a impressão de que algo iria acontecer, é depois de acontecer rapidamente sumirem as marcas. Que bom. Gostei. A cena ta indo e vindo na cabeça, e é uma pena ter sido eu a atriz. Queria mesmo era ser espectadora, pois deve ter sido lindo o tombo. Daqueles que não dá pra segurar a gargalhada. Aquela cabine da polícia bem que podia ter uma câmera. Bem, o post se avolumou tanto que, eu tinha outra coisa para escrever, que não apenas as justificativas do meu sumiço, mas vai ficar para uma próxima.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 6:51 PM :: Escreve que eu leio!