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Pitty que pariu

Quarta-feira, Abril 27, 2005




O vôo arrasante


Em algum momento ouvi dizer que existem três experiências que modificam as pessoas: o nascimento de um filho, a morte dos pais, e um grande amor. Sem entrar no mérito do excesso psicológico da colocação, eu concordo. Aliás, não apenas concordo como concordo e implemento. Acrescento que a experiência de aproximar-se da morte também transformadora. Hoje estou uma pessoa diferente em virtude de uma experiência recente de vislumbrar a morte. E humilde e generosamente intento partilhar com os que tenham interesse e relativismo suficiente para acompanhar meu depoimento.
Sem detalhe quando, como ou porquê, estava eu no aeroporto de Brasília ávida em voltar ao Rio de Janeiro. Essa frase é estranha, pois realmente é óbvio que quem mora no Rio tem a necessidade de sair de Brasília, e com pressa. Liguei para casa e pedi que alguém fosse ao aeroporto, fazer a caridade de me buscar, pois em torno de uma hora e meia eu estaria chegando.
Firme nessa crença eu embarquei num avião que faria um vôo parceiro entre a Varig, Tam e uma outra empresa que não goza de tanta má fama. Assim que adentrei na aeronave algo me despertou atenção, ou perplexidade. Era a quantidade de assentos, ocupados por sinal. Dois na lateral esquerda, três ao centro, e três à direita. Multiplica-se esse número pelo comprimento da aeronave. Não é difícil concluir que parecia mais uma barca. Mas se a empresa se propõe a voar com esse pau-de-arara, quem sou eu para me ressabiar pelo tamanho da tripulação?
Todos embarcados. Aconcheguei-me próxima a janela, na altura da asa. Isso no primeiro momento me tranqüilizou, pois sempre ouvi dizer que era o melhor lugar para se viajar. Minha tranqüilidade foi-se no momento em que eu resolvi me indagar o porquê.
Enfim, anunciaram a autorização para decolagem, e o avião começou a taxiar. Eu de olho na asa. Ela fez um movimento muito similar aos antigos brinquedos Transformers. Notei que avião também enferruja. Conforme a nave ganhava velocidade as asas ganhavam estremecimento. Segundos antes da efetiva decolagem achei que a asa sacudia mais do que capô de chevette, mas não era nada que comprometesse a decolagem.
E lá estava eu, e metade da população brasileira, sobrevoando a ressequida paisagem do distrito federal. Vez por outra eu dava uma verificada no panorama aéreo. Seguia tranqüilamente a viagem.
Num dado momento, dentro do horário previsto, avisaram-nos para nos prepararmos para aterrisagem. E esse foi o início do drama. O avião começou a tremer. Confesso que era até gostoso. Sei agora como se sente uma pedra de gelo numa coquiteleira. A tremedeira era boa, sobretudo se comparada ao brusco e subido movimento de queda e subida. Pela ausência de setas indicativa do momento de subida e de descida, aquilo já estava ficando muito desagradável. Olhei ao redor da nave e era triste o cenário. Muitos vomitando, crianças gritando e chorando, e uns poucos esperançosos rezando. Olhei para a janela. Em vão! Só se viam nuvens. Na minha cabeça brilhava em néon e em letras garrafais: FUDEU.
E no embalo da turbulência o avião ia descendo. O piloto iria aterrisar. Como? Era a pergunta que não queria calar. Do nada a nave subiu, subiu, subiu. Pouco depois o piloto comunicou à tripulação que fora feita uma manobra emergencial, e que estava segundo para São Paulo, pois não havia condições de pouso no Rio. Nossa, que bom que ele avisou! Eu nunca que iria notar que não dava pra pousar se ele não tivesse o desprendimento de admitir.
Já que não pousaríamos naquele momento, desafivelei meu sinto e sofregamente ganhei o rumo do banheiro. Quando uma das aeromoças me viu no corredor, olhou com cara apavorada e disse mui educadamente em alto volume e tom agudo: Senta, o avião vai balançar.
Mais uma presteza! Olhei pra ela e perguntei: vai? Eu podia jurar que ele não parou um só minuto. Quero ir ao banheiro.
Ela disse que não podia naquele momento. Mais uma vez o piloto fala à tripulação. Nesse momento eu já estava com raiva daquela voz apocalíptica. O que mais ele teria pra dizer? Pois bem, disse que o vôo era complicado, e que todos permanecessem com os cintos afivelados e as poltronas em posição reta.
O profeta tinha razão, o vôo era complicado. O saculejo só piorava. Tudo me inspirava. Comecei a fazer conclusões e constatações mundanas transcendentais. Uma das constatações era a de que o ar não tinha cabelo, e no caso de queda não tem onde segurar. Outra é de que avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Se o vôo é bom chega-se seguro. Se for ruim é seguro a morte. Por sinal uma ótima morte, instantânea e indolor. Melhor que morrer de acidente aéreo só morrer de parada cardíaca. Pensei que aquela noite estava linda para morrer. O que me desanimava era aquela multidão de gente indo junto. Pegar fila até no céu não me pareceu interessante.
Meu companheiro de vôo, enquanto eu elucubrava, meditava. Olhei para ele e disse: Pára de ser frouxo. Vamos conversar. Se for o caso de morrermos, façamos com hombridade. Até pra morrer eu penso que há que se ter elegância. Morrer é tranqüilo, mas com dignidade. Eu disse isso tomada de resignação, pois já havia encomendado a minha alma. Meu forte sempre foi a imitação, e já havia improvisado uma cerimônia de extrema-unção. Estava relax A única coisa que eu queria fazer, discretamente se possível fosse, era colocar algum documento na boca para facilitar a identificação dos corpos. Pensei melhor, e me convenci de que não restaria nada, e minha família teria que vencer essa coisa chata de não ter um corpo pra velar.
Apesar de todas as indicações favoráveis à morte, não era mesmo o dia. Pousamos em São Paulo, sem problemas. Após longa espera, reféns dentro do avião, regressamos ao Rio de Janeiro. Dessa vez vôo e pouso tranqüilo.
Quando no saguão no aeroporto encontrei minha irmã me esperando, mais de três horas com certeza, arrasada, eu a abracei diferente. Não com mais força, pois eu já não a tinha para esbanjar, mas com o sentimento de que eu tenho um compromisso, a responsabilidade de bem empreender a minha vida.
O nome da aeronave? Claro que não me sai da cabeça, MD11. Sugiro dêem às naves nomes mais sugestivos como: "Pombal Airplane", "Boeing Série 171", ou "Pau-de-arara Jet".


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:56 AM :: Escreve que eu leio!: