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Pitty que pariu

Quarta-feira, Agosto 24, 2005




Vivi, vi,revi e revivi


Eu estava escrevendo um texto encorpado sobre uma filme maravilhoso que havia me estimulado muito o raciocínio, mas o que me ocorreu numa noite de sábado não pode esperar para tornar-se texto a ser partilhado com os parcos leitoras que vez por outra corajosamente aparecem nesse blogger.
Estava eu naquela noite sem muitas perspectivas, com vontade de fazer algo, mas sem algo a fazer. Até que tocou o telefone e em alguns minutos resolvemos por bem sair pra conversar mais, tomar ar (nesse frio é o mesmo que dizer procurar uma pneumonia), ver gente e se divertir. Não tínhamos rumo certo, mas era pela região do centro do Rio ou mais precisamente para o lado da Lapa. E assim fomos nós.
Chegamos no Rio relativamente cedo para o que chamamos night. Era um bom motivo para flanar e simultaneamente pesquisar locais, prelos e eventos. Nessa pesquisa vimos de um tudo, desde forro, samba, choro a reggae e techno na rua, oscilando da gratuidade à calamidade na prática de preços. Uma atração sobressaiu, e muito em nossa pesquisa. Era uma festa Ploc no circo voador, com a presença de Inimigos do Rei, Rosana e Paquitas. Perguntei para três seguranças, dois cambistas e conferi nos cartazes. Era difícil crer, mas era verdade. O preço não era dos mais convidativos, mas é algo atenuado mediante aquela boa e quente carteira de estudante, a qual carinhosamente apelido de seguro desemprego sendo que a idéia exata é o desemprego seguro. Compramos o ingresso e fomos forrar o estômago com aquela gastronomia sórdida, mais conhecido como ¿morte lenta¿ (cachorro-quente ou podrão, churrasquinho, salsichão, pastel, pizza, crepe, hambúrguer, x-burguer, x-tudão, milho, pipoca ou salgadinhos ).
Num dado momento entramos e fomos nos ambientando. Muito fog, luzes, pessoas de layouts mais diversos possível, e nas pickups pop rock internacional dos anos 80. Cada entrada de uma música era seguido de um grito e um olhar de quem descobriu um tesouro. Após essa primeira manifestação, era fechar os olhos e colocar o corpo no ritmo da música, lembrando dos filmes da sessão da tarde ou das festinhas chamadas matinês ou discotecas.
Quase a meia-noite entra no palco o grupo Inimigos do Rei. Apenas um dos membros era reconhecível, mas o fato interessante era o de que tiveram o bom senso de intercalar os seus dois ou três rits com músicas de sucesso de outros artistas como Fausto Faucet e Jorge Ben. Uma apresentação muito entusiasmante, com arranjos razoáveis e uma coreografia inusitada e expressionista, com aqueles excessos e caricaturas. As pessoas se empolgavam, porém a traição da memória impedia a maioria de acompanhar as empoeiradas letras das músicas. Isso era apenas um detalhe que em nada onerava a apresentação do grupo. E em abono da verdade, os Inimigos do Rei fizeram fama por conta da irreverência de suas apresentações e não pelo conteúdo de suas letras. A apresentação valeu. Valeu muitos aplausos, animou muito.
A festa continuava. Após não poucos minutos ao som de pop rock internacional dos anos 80 e 90, alguém anunciou a loira. De imediato pensei que tratava-se de uma das paquitas. Ledo engano o meu. Era ela, a musa Rosana.
Adentra ao palco Rosana entoando gritinhos histéricos de aquecimentos vocais que muito me faziam lembrar o passarinho que canta no filme do Sherek. A diferença é que o passarinho acaba por estourar, mas Rosana ficou no quase. Naquele inconfuncível timbre ¿a picanha ta no ponto¿, Rosana abriu o show cantando a melô do ginecologista ¿Nem um toque¿. Tive uma dissonância cognitiva, pois jurava que a música era interpretada pela Adriana. Ponto para a Rosana, que disparou de dois para três sucessos.
Quando a banda introduziu aquele sample de tons selvagens e a batida marcada a galera foi ao delírio, O amor e o poder. Todos cantaram e interpretaram o hit cafona mais memorável de todos os tempos, competindo cerradamente com Menina veneno e Whisky à go-go. A musa sueco-guarani gritava, cantava e jogava os cabelos. Eu da platéia via tudo em forma de flashes e não parava de me perguntar: Meu Deus, o que é isso? É qualquer coisa, é algo para além do ¿bom ou mal/vício é fatal¿. A voz era a mesma, mas a cor dos cabelos...
Esgotando-se os parcos,porém eficientes, hits da cantora, chegou o memento de investir no soul e black music dos anos 80, bem ao estilo Celebrare, digno da peculiaridade vocal da musa. Sucesso!
Após cantar e dançar com a Japa Blond eu não mais agüentava minhas pernas, e meu humor já estava indo para a sola dos pés. Coisa da idade. Ia me aborrecendo o cansaço atormentando e as Paquitas não aparecendo. Eu bem que duvidava mesmo que fossem aparecer.
Após dolorosa e quase infindável espera, período de desmonte do palco, a DJ largou as pickups, pegou o microfone e anunciou as Paquitas. Introduziram o hino, e me tocou. Minhas lágrimas eram contidas à duras penas. Num palco nu, tudo preto, num playback safado as Paquitas adentraram e se posicionaram lado a lado, quatro. Aquela visão fez valer cada minuto de espera.
Pulando, rodando e dançando, as loiras lépidas e faceiras duplaram ¿É tão bom, bom bom bom/ Quem quer pão? Pão pão pão/ Bom estar contigo na televisão¿. Só nesse momento, tardio confesso, pude prestar atenção na elaboração da música. Que rima rica! Bom, pão e televisão...isso é coisa de Michael Sullivans e Paulo Massadas. Foram músicas e mais músicas de autoria da dupla que infectaram minha mente e se repetem sem cessar.
Estavam elas, Ana Paula, Kátia, Priscila e Roberta, as Paquitas originais, das antigas, sendo o time desfalcado por Andréia Sorvetão, Letícia Pastel, Bianca, Juliana e Tatiana. As que vieram depois eram derrota, uma tentativa fracassada fazer gerações de Paquitas, as quais infelizmente não é possível recordar a fisionomia ou o nome. Agora que eu elenquei nominalmente tive a noção de que eram muitas Paquitas pra pouca Xuxa. Mas a oferta gera a demanda, segundo meus insalubres conhecimentos de teoria econômica, e eram tantas Paquitas que mais e mais meninas queriam virar ajudantes da Xuxa.
Pessoalmente, apresento falhas de caráter desde a mais tensa idade, que se faça notar, por exemplo, pelo fato de que eu nunca ter sonhado em ser Paquita. Meu desconfiômetro me levavam a pesar muitos fatores de incompatibilidade. Primeiramente, eu não era loira nem tinha o cabelo longo ou liso, deixando de atender a condição sine qua non da entidade Paquita. Secundário a isso, eu era gorda, e a não ser que criassem a Paquita do Faustão, eu era bola fora. E pra finalizar, as Paquitas cantavam num tom agudinho, longe de minha realidade vocal que aos três anos horrorizava a vizinhança cantando as músicas da Maria Alcina. Nem a operação das amigdalas e da adenóide reverteu totalmente esse quadro. Enfim, se eu admirava e me espelhava em alguém, era muito mais na Marlene Mattos, pois fez a Xuxa e as Paquitas. Além do que, ganhou dinheiro, fama e não teve a liberdade cerceada. O interessante da história é que, mesmo sem sonhar ser Paquita ou Xuxa, isso em nada onerava a minha admiração e envolvimento por elas.
As Paquitas me divertiram e muito. Dancei mais do que bêbado em quermesse, eram instantaneamente lembradas as coreografias elaboradas pelo Berry. Cantei todas as músicas de cor.
Pra vocês verem como sou simples. É preciso muito pouco pra me entreter. Noitadas, restaurantes, bares, boates e viagens, tudo lusco fusco. Um playback, uma platéia dançando e cantando e quatro loiras no palco me bastam. Há anos não me divertia tanto. Recomendo a todos uma Festa Ploc. Mas só uma!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 3:23 PM :: Escreve que eu leio!: