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Pitty que pariu

Quarta-feira, Setembro 14, 2005




Cinema é a maior digressão


Não tenho originalidade suficiente para escapar da tentação de iniciar um comentário sobre imagens com a máxima de que uma imagem fala mais que mil palavras. A eficiência da imagem ganha potencialidade quando em movimento. Sendo exata, o cinema fala por si e diz tudo. E mesmo quando o filme é ruim para a apreciação estética, é sempre proveitoso para a depuração intelectual, ou seja, quando não é bom pra ver, é bom pra pensar. Fui assistir a um filme que primeiramente pareceu-me idiota, mas me surpreendi e positivamente. Para falar do filme, A Ilha, acabei por pensar em outros que se alinham na discussão dos avanços científicos.
Nos idos de 96 a divulgação da conclusão dos trabalhos de sequenciamento do genoma humano trouxe um importante questionamento com relação às suas conseqüências. Se a descoberta se dá através de intenções pretensamente edificantes, as possibilidades de uso são cheias de dúvidas. De um lado a esperança de cura de muitas doenças de origem genética e do outro o mal uso, ou abuso, desse conhecimento e suas implicações sociais mais concretas, dada a ênfase no que por convenção ou ausência de palavra mais exata chamamos ética. Nesse período de tensão relativa às incertezas geradas pelos avanços médico-científicos Andrew Niccol dirigiu o filme Gattaca. O filme era uma espécie de projeção do que seria a sociedade futuramente no tocante as questões biogenéticas. No futuro roteirizado por Niccol as corporações tornaram-se mais poderosas que o Estado. O diretor trabalha o drama de um rapaz que nasceu da reprodução natural, com suas peculiaridades genéticas não manipuladas. O fato é que ele é uma espécie de pária, pois os geneticamente manipulados têm as melhores oportunidades sociais. É a criação de uma raça superior, uma hierarquia legitimada cientificamente, calcada na genética da melhor combinação de qualidades possível.
Colocando mais lenha na fogueira dos debates sobre o desenvolvimento científico, em 2001 surge o tema sobre a inteligência artificial, com um filme de título muito original, inteligência artificial. Há quem defina o filme sobressaltando o alto apelo comercial e a baixa inteligência. Minha perspectiva é mais ponderada. Dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Haley Joel Osment, o filme se passa num futuro em que as calotas polares derreteram e uma nova forma de inteligência artificial auxilia a humanidade em sua saga sobre o planeta. O filme trabalha muito bem algumas indagações até filosóficas da possibilidade ou não da inteligência e sentimentos das formas mecânicas, ou das criações humanas. Nada muito pretensioso do ponto de vista cinematográfico, contudo, sempre bom para pensar.
Embora eu esteja me referindo ao mérito das discussões científicas, o que eu apreendi nesse filme é mais relacionado ao ponto de vista político. Excesso ou não, me detive à analogia na nominação dos humanos como org e os mecânicos como Meca. Os Org eram seres supremos que tudo podiam, e os Meca uma tentativa risível de fazer máquinas a imagem e semelhança de humanos. Nessa relação extremadamente vertical, os Meca padeciam com a prepotência humana. Esse fato seria nada não fosse utilizado por cineastas estadunidenses, no contexto em que foi criado o filme. Os estadunidenses não de hoje são dados às teorias conspiratórias. A especulação das possibilidades ofensivas de quem eles, por medo, estranhamento ou interesse, combatem não têm limites. As religiões, sobretudo as de pouca aderência no mundo ocidental, ou as mais ortodoxas, são alvos constantes das desavenças ou pouca tolerância. Atrelando então a característica conspiratória com a intolerância religiosa, seria muito engraçado tripudiar os Meca, não fosse Meca o nome da capital do islamismo.
Completando a tríade dos filmes sobre avanços científicos, a Ilha. Estamos nós inseridos num período em que a clonagem tornou-se possível. Primeiramente de uma ovelha, a famigerada Dolly. Depois da clonagem da Dolly, a síndrome da Arca de Noé infectou os cientistas que danaram a clonar animais diversos. De animal em animal, pra clonar seres humanos, no que depender da ética, não custará tempo, contudo, certamente custará uma soma razoável em dinheiro. Esse é o argumento para o roteiro do filme ¿a Ilha¿, dirigido por Michael Bay.
O filme trata de um local utópico, um complexo isolado, no século XXI. As pessoas são condicionadas num ambiente estéril. Nessa primeira concepção já se percebe a naturalidade e eficiência dos conceitos behavioristas, consagrados por Dr. Skinner, nos Estados Unidos.
O filme é sagaz em demonstrar a eficiência do controle através de uma força imperiosa, contudo, sem anular a possibilidade de manifestação do self. Em outras palavras, é a filmagem do que Goffman* conceitua como instituição total, ou seja: "Uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerado espaço de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada¿.
Isso resume o filme, contudo, não o esgota. Essa seria uma análise, porém outras mais são possíveis. Voltando, por exemplo, ao debate científico, ou melhor, o debate ético, ou econômico da história. Enfim, não me deterei a uma conceituação fechada para a minha análise.
Pensando então sobre o filme, nele as pessoas são treinadas em determinadas habilidades intelectuais, acondicionadas em um dormitórios individuais, encaminhadas para atividades esportivas específicas, têm uma alimentação controlada, se vestem uniformemente, acreditam serem sobreviventes de uma enorme catástrofe que contaminou a terra, e que os únicos lugares seguros para eles é o que eles estão e uma ilha, para onde sonham ir. Assim, a ilha passa é um ideal de todos. E como ter acesso à ilha? Através da loteria. Realmente, o roteirista do filme merece a minha admiração. Que raio seria mais eficiente para iludir as pessoas que não a loteria? Só ela dá resposta para uma vida ordinária. Só ela consegue mover as pessoas numa vida tão medíocre.
Um dos elementos condicionados, que dá margem às suas dúvida e contesta tudo o que o cerca, desde as mesmas roupas, até a alimentação controlada e a idéia de que fora daquele ambiente tudo está contaminado, descobre que as pessoas que são sorteadas na loteria morrem. Pelas minhas referências católicas o roteirista utiliza ilha como sinônimo de paraíso, brindando-nos a refletir mesmo sobre nossas crenças.
E as descobertas desse elemento subversivo levam-no à fuga. A fuga o faz se deparar com uma outra realidade, bem diferente. Descobre então que ele não é ser humano, e sim um clone. Ruiu a crença fragilmente sustentada por toda sua vida. Seu objetivo, portanto, mudou. Quer salvar sua vida e acabar com a empresa que, com fins estritamente financeiros, produz clones e os mantém como vegetais a espera das necessidades de seus donos. E parte o herói, mas não sozinho. Vai acompanhado de uma amiga, e com ela descobre o mundo, os sentidos, ênfase ao sexual, e os sentimentos.
Essa segunda fase do filme se perde um bocado nas empreitadas muito cheias de ação, de relance sendo confundível com Thrue Lies ou Duro de Matar. E o fim do filme é total happy end americano, dando até aquele asco. O mocinho (homem adulto branco sempre no comendo) beija a mocinha (mulher branca e pretensamente linda), e deixa um outro tipo qualquer com inveja. Claro que o tipo qualquer é negro. Onde já se viu em filme estadunidense o crioulo beijar a loira? Muito lugar comum mesmo o final do filme, atendendo a uma série de clichês, perpetuando os preconceitos e preceitos estadunidenses. E pra fechar, a libertação maciça e feliz de todos os clones, cena que muito me fez lembrar a propaganda de Sabão em Pó ¿Omo faz, omo mostra¿, com todo mundo de roupa muito branca pulando pra lá e pra lá, ao som de uma odisséia espacial.
Numa análise sequencial, o início do filme é ótimo, o meio muito bom, e o fim um fiasco. Contudo, não chega a comprometer o conjunto. O filme não é um clássico, mas sem dúvida uma referência deveras interessante, que faz a mente fervilhar em reflexões. Eu recomendo, e adoraria ler a interpretação, comentário ou o que fosse, dos que se aventurassem a assistir o filme.
* Goffman, Erving 1996 Manicômios, prisões e conventos. 5ª ed. São Paulo, Perspectiva.



:: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:32 PM :: Escreve que eu leio!:


Quarta-feira, Setembro 07, 2005




07 de Setembro


O grito de independência, proferido pelo príncipe D. Pedro em 07 de setembro de 1822 às margens do Riacho Ipiranga, foi o ato que consolidou a crise do sistema colonial abrindo espaço à independência do Brasil. Cabe salientar que a famigerada independência, desde essa época, era somente, e alegoricamente, política.
O ato heróico de Dom Pedro ecoou até os tempos atuais como a quimera da independência, e o dia 07 de setembro tornou-se um feriado patriótico, seja lá que diabo de invenção é esta.
Não bastando um dia para celebrar, tratou-se de elaborar uma performance. Como padrão tipicamente brasileiro, nada mais óbvio do que imitar os desfiles, tão arraigados na cultura européia. E assim se reinventou a roda.
No feriado de 07 de setembro tomam as ruas em desfiles bandas, exército, marinha, aeronáutica, tanques, carros, motos, animais, estudantes e tudo o mais que possa ser associado com a força da nação. Risível, pois venho acompanhando um processo de sucateamento dos desfiles das forças nacionais.
Da janela do meu quarto sempre tive um ângulo privilegiado para acompanhar a encenação do poder da pátria. Desde minha idade com apenas um dígito eu acordava nos 07 de setembro com uma alvorada encorpada pelas vozes vigorosas de soldados. Punha-me a olhar aquele número sem fim de pessoas ordenadas em fileiras, com uniformes, botas e armas. Várias bandas, carros oficiais, pelotões táticos, muitos estudantes de várias escolas e muitas bandeiras. A bandeira, símbolo máximo da nação, de pano era segurada com orgulho pelos que desfilavam, e de papel com alegria era sacudida pelos que prestigiavam o desfile disputando entre a multidão um lugar de visão privilegiada. Era desfile a não mais ter fim. Um engajamento maciço dos filhos da pátria. Lembro-me que era sempre um dia de sol intenso, mas que o calor não desanimava ninguém. Muitas crianças sentadas nos ombros dos pais para conseguir ver o desfile. E o desfile rendia, pelotão após pelotão, banda após banda ,escola após escola intercaladas por bandeiras e meninas que dançavam e faziam acrobacias com maiôs e balizas.
As bandas eram uma entidade à parte. Muitas caixas, pratos, bumbo, trompete, trombone e xilofone. Pára tudo! O que é um xilofone? Onde ele se escondem os xilofones nos outros 364 dias do ano? Alguém já ouviu um xilofone em um outro dia qualquer que não seja no desfile de sete de setembro, ou abertura de olimpíada estudantil? No dicionário do meu computador não existe a palavra xilofone. É um instrumento que graças ao dia da independência está muito vivo na memória da nação. E não é pra menos, pois as aquele som agudinho arrepia até o último pêlo daquele lugar que não venta. Ouvi-lo um só dia do ano é suficiente pra você não esquecer dele nunca mais.
Os desfiles de 07 de setembro vêm enfraquecendo, e não apenas eles mas o que eles celebram. Hoje o dia é chuvoso. Acordei com a alvorada meia-boca do corpo de bombeiros, coisa que acontece diariamente. Olhei da janela e nada de pelotões, carros ou bandas. Apenas grupos espaçados de estudantes nas ruas molhadas. Até as oito da manhã nada de muito barulho.
As dez da manhã o desfile ferveu, ouvi uma banda. Ela tocava "há um mundo bem melhor/ todo feito pra você". Achei no mínimo sugestivo. Fora essa música, tocou uma música religiosa, a qual o Padre Marcelo Rossi regravou "O senhor tem muitos filhos/ muitos filhos ele tem". Sendo um desfile patriótico ponho-me a pensar que esse tal de senhor só pode ser o senhor excelentíssimo presidente da república. Não me conformo com essa antiqüíssima mistura da igreja com o Estado. O conservadorismo e a religiosidade impedem o desenvolvimento do estado laico. Maquiavel já nos indicou que a política está para conduzir os rumos da nossa vida na terra, e que a religião se ocupe da salvação das nossas almas, supondo que para nossas almas haja salvação.
Nessa chuva, todos que desfilam deveriam ganhar uma coristina. Sobretudo as meninas das balizas que fazem acrobacias com várias partes dos corpos no chão, molhando até mesmo a rabiola nas acrobacias mais ousadas.
Está tudo muito morno, nada de entusiasmo, e não me admira, tamanha vergonha e desgosto que a população vem tendo em relação aos nossos mui dignos representantes, escolhidos pelo voto. Por sinal, a democracia é outro discurso que os brasileiros não estão engolindo mais. Muita CPI e pouca ação dentro dos trâmites legal. Até quem preside CPI tem atos duvidosos a serem investigados. A impunidade se perpetua, mas por algum motivo a realidade tornou-se oficial. O país opera com dois pesos e duas medidas, e ponto.
Novamente fui convocada para trabalhar no pleito eleitoral. Desde os 18 anos sou convocada, e ninguém que já trabalhou comigo em eleição nesses 10 anos continua trabalhando. Ninguém tem vergonha de dizer que escapou da convocação porque tem um tia, primo, ou seja lá que grau de parentesco ou conhecimento for, envolvido na política local que mexeu os pauzinhos. Eu, como boa filha da puta, sou filha de mestiços, advindos das classes desfavorecidas da população, que investiram na minha educação acreditando que era um mecanismo de ascensão social e valorização da nação, em resumo, nada posso fazer senão aceitar essa condição. Que opção eu tenho? Vou novamente trabalhar, de graça sendo mão de obra especializada e desempregada, para a pseudo democracia e fortalecimento da corrupção.
Saudade da época em que as pessoas usavam a frase "Brasil, ame-o ou deixe-o". Se alguém souber de alguma embaixada de um país democrático e liberal, de fato, que aceite a naturalização de estrangeiros, por favor, me avise. Telefone, mande e-mail ou toque um xilofone embaixo da minha janela.




:: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:51 AM :: Escreve que eu leio!: