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Pitty que pariu
Domingo, Dezembro 11, 2005
o prazer do ofício nada a fazerApós um árduo período acadêmico, eis que volto para dar vida a esse espaço virtual de livre manifestação. Como estou em ritmo de férias, penso logo nas coisas mais simples, as quais somos privados durante o corre-corre profissional ou acadêmico. Pensei nas lindas tardes que começam com um cochilo após o almoço e são seguidas daqueles ignóbeis filmes da sessão da tarde. Com a graça de São Francisco, irei discorrer sobre os usos e abusos que esses filmes fazem dos animais (do céu, do mar e da terra). A divisão dos animais poderia seguir as mais diversas lógicas, desde mamíferos para répteis ou até de domésticos para selvagens. Mas a ordem será dada mais ou menos pela desordem da minha inspiração e lembrança, numa perspectiva entre o anárquico e o dadaísmo. Começamos pelo mar, com o filme ¿Orca ¿ Baleia assassina¿. A baleia, pelo título, é a maior vítima. Vítima não no filme, e sim do filme, do diretor, do roteirista e de quem mais seja iludido pelas imagens disseminas nessa produção de suspense estadunidense. As orcas têm, em média de 6,5 a 8 metros de comprimento. Mas a estrela do filme é garota propaganda do fermento Royal e mede, chutando pra baixo, uns quinze metros. Outra covardia com a baleia é em relação aos seus hábitos alimentares. Embora seja um predador versátil, que alimenta-se de uma diversidade enorme de animais, desde lulas, peixes e aves, até focas, golfinhos e tartarugas-marinhas, em sua dieta não consta madeira de embarcações, botes, gesso (a mulher no filme perde a perna engessada) e tampouco carne humana. O que posso dizer para abonar o roteirista é que no mínimo a baleia comeu a carne humana e utilizou as ripas do barco para palitar os dentes. É pouco? É ridículo? Pode ser, mas é tudo o que eu posso fazer. Aliás, o roteirista de ¿Orca¿ não está sozinho na criação de aberrações, pois ¿Tubarão¿ investe nos mesmos exageros monstruosos. Mas tubarão tem um artifício de terror a mais, que é a indefectível trilha sonora. Quem é que num lindo dia de sol dá um mergulho nas calmas água de qualquer praia e não lembra daquela música que antecede o pavor da presença do mais impetuoso predador dos sete mares? Quem é que quando vê sangue na água do mar não lembra que atrai o insaciável ser marinho? Por esses dois filmes a sessão da tarde é traumatizante. Na vertente de animais super dotados desfila a ala doméstica, com os cães disparando na liderança. Um filme com crianças ou para crianças invariavelmente tem um animal. Se o filme for com crianças atuando elas têm um animal de estimação, e se o filme for para crianças, há animais como protagonistas. Os animais são fiéis como Lessi, amigos como Beethoven, companheiros como o cachorro do filme do ET, justiceiros como é o caso do K9 - um agente especial que sabe até códigos Morse, românticos como os casais de A Dama e O Vagabundo ou Roxy e Dafne de Olha quem está falando agora, aventureiros como aquele gato que ronrona mundo afora no filme As aventuras de Shatran etc. Os animais domésticos de filmes, repito, são sempre super dotados. Super-dotados de mentira são os filmes, e não os animais. Os animais são tão inteligentes que diante deles me sinto um rato. Diria que por esses filmes a sessão da tarde é ultrajante. Há também os filmes infantis que utilizam os animais para protagonizarem uma linda e edificante mensagem. Por exemplo, Babi (o porquinho) trás toda uma ideologia de que não é bom abater porcos, pois eles além de bonitinhos são educados, limpos e inteligentes. Eu, como pessoa que sofre das faculdades mentais, percebo Babi como um híbrido, uma figura quase mitológica, meio porco meio veado. Por falar em veado, Bambi, o mais famoso do mundo, também transmitia uma singela mensagem da fragilidade do animal distante do seu laço familiar, exposto aos perigos da floresta. Waldy Disney (passa mais no festival de Férias do que na Sessão da tarde em si) deveria ser processado por fomentar uma esquizofrenia coletiva. De longe é o que mais investe na personificação dos animais, ou na animalização das personas, como preferir. Ele fertilizou a mente de muitas crianças, o problema é que merda é um excelente adubo. O que dizer de Dumbo? É a imagem da máxima ¿Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez." de Jean Cocteau. Um elefante voar como metáfora de que não podemos nos abater diante das aparentes impossibilidades das coisas é facilmente compreendido por adultos. Criança entende logo que também pode voar, e como preço dessa lição ou perde uns dentes ou ganha umas fraturas e escoriações. Mas vale à pena, pois fica por conta da diversão. E o Rei Leão? É linda essa legitimação do patriarcalismo, da hierarquia do gênero, do determinismo da descendência familiar e dos privilégios consuetudinários. O Rei Leão é tão correto que se tomar uma sopa de letrinhas caga em ordem alfabética. O fato é que o rei leão, de tão certinho, ¿morreu¿ no filme, e os coadjuvantes Timão e Pumba, um suricati e um javali, acabaram tornando-se o mais atrativo, servindo de base para uma série animada. São dois amigos destemperados, cínicos e mentirosos que estão sempre arrumando confusão. São figuras que saíram de um filme muito edificante, mas tendem mais para o que chamariam de ¿politicamente incorretos¿. Nessa trilha de maus exemplos tem ainda um filme, que o nome me foge a memória, em que uma garota tem um mico que rouba tudo o que está ao alcance das mãos. A menina só se fode tentando consertar as roubadas do mico. Por esses filmes a sessão da tarde é instigante. Pra encerrar vejamos filmes com aves. Elas sempre aparecem, contudo não nos lembrarmos bem porque dificilmente são protagonistas. Elas estão quase sempre como um apoio, um recurso. Em todos os filmes que se passam em Nova York ou Los Angeles lá estão as gaivotas abrindo e/ou fechando as cenas. Os pássaros são imagens comuns para fade in e fade out. Um clássico da imagem de pássaro é aquela sobreposição que fazem do rosto de Michele Pfeifer e um falcão em O feitiço de Áquila. Outro lugar comum utilizando pássaros é um filminho de horror, uma floresta e um barulho de uma coruja. Sessão da tarde sempre tem pássaros, os filmes passam voando. Depois de dessas insanas observações pode-se ter uma noção do quanto e do porque assistir a sessão da tarde é um rito tão enraizado na função ¿nada a fazer¿. Sinônimo de atoísmo e vagabundagem plena: assistir sessão da tarde. Ela consegue reunir tudo o que há de mais tolo de maneira extremamente agradável e/ou risível. Ao final de cada filme estamos com cara de bobo, balançamos a cabeça e falando ¿Meu Deus, lá se foi minha tarde¿. Pelo conjunto dos filmes, e pelo contexto que estimula assistí-los, a sessão da tarde é necessária. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 12:26 PM :: Escreve que eu leio!: |