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Idade: 26

Profissão: publicitária

Estuda: Ciências Sociais

Vocação: vadiagem

Hobby: ler,comer e domir




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Pitty que pariu

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006





Os escafandristas estão chegando


Após o estrondoso insucesso de um post sobre minhas peripécias, estou eu teimosa e seguramente a investir na vertente das desgraças. Desta vez irei falar das catástrofes naturais que andam assolando o mundo. Como não tenho inteligência suficiente para absorver informações para além do meu umbigo, não tratarei de Tsunami ou Catrina, e sim da chuva que inundou o Estado do Rio de Janeiro, na última sexta-feira, dia 27.
Verão, sol inclemente, calor intenso. A paisagem carioca é a de muitas praias sujas com que proporcionam à população um banho de mar farto em coliformes fecais. Isso em nada diminui a alegria da população em disputar o banho de mar com águas-vivas e as mais ilustres musas do verão, as gigogas. De uma sujeira para outra esta espécie de planta migrou dos tomos das coleções de biologia e botânica para as populares cartilhas de alfabetização das escolas da rede pública carioca. A Tia Maricotinha ensina para a classe: G de quê? E as crianças entusiasmadas num afinado coro gritam: GIGOGA. Mesmo as elaboradas frases de fixação de conteúdo foram modificadas, assim como Ivo viu a uva a gigoga é da Gigi.
Enfim, tudo lindo até lembrarmos que verão é época de chuvas e enchentes. A da última sexta-feira não fugiu à regra. A tarde inteira o céu prometia desabar, mas somente no início da noite a catástrofe ocorreu. Creio que para dar tempo aos que estavam nas ruas de construírem uma arca modelo Noé 2006 Space Wagon, e instalar o Kit Gás para baratear o IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Anfíbios).
A chuva começou, continuou., engrossou e não mais parou. Como diria minha acéfala irmã com ares de erudita: Chovia pântanos (querendo dizer cântaros). Em uma hora o Rio de Janeiro virou Atlântida.
Não faltou diversão para os bombeiros, que se desdobravam em mil para prestar socorro. Os telefones das seguradoras de carro estavam fora do gancho, e os carros segurados dentro das valas. Era como um ensaio para o apocalipse.
Uma amiga me ligou relatando seu drama pessoal. Estava ela na rua, dentro do carro, quando a água transbordou o Estado. Disse-me que quando notou uma piscininha no fundo do carro julgou ser o momento propício de recolher os documentos e fugir. Tentou sair do carro mas a porta não abrir. Quando conseguiu abrir a porta foi estimulada pela correnteza a se afastar do veículo. Dois dias depois da tragédia caiu a ficha: salvou a vida mas perdeu o único bem que tinha, o carro, alienado por sinal. Esse paradoxo a faz rir e chorar, alegrar-se por estar viva e lamentar-se por estar sem carro, mas com dívida.
No dia seguinte ao dilúvio cismei de caminhar pelas ruas. Tudo era sujeira, galhos, folhas e lama, muita lama. Uma densa nuvem de poeira transformava a paisagem da cidade no cenário da campanha publicitária de cigarro, assemelhando-se ao deserto do oeste norte-americano, que ao fundo do sopro do vento o locutor diz: Bem vindo ao mundo de Malboro!
Quando se olhava com atenção para as calçadas era possível ter a dimensão da tragédia. Eu mesma vi os corpos de uma família vitimada. Aquilo mexeu comigo, pois até então eu era convicta de que ratos eram anfíbios, mas tive a prova de que morrem afogados. Triste é o destino dos pequenos e asquerosos seres que habitam os esgotos.
Apesar dos estragos, a população não se dá por vencida. O bom humor, a irreverência e a completa descrença na melhoria dos nossos tristes quadros sociais une a população. Num bairro próximo ao que eu moro alguns sobreviventes do desastre se reuniram num "eca" evento denominado: Churrasco da Leptospirose. Entre mortos e feridos, fuderam-se todos.
E não pensem que a alegria pára por aí. Essa enxurrada ressuscitou a parodiadora que existia dentro de mim, que tantas letras subverteu para embalar os memoráveis passeios escolares. A marchinha que embalará o carnaval 2006 é:
As águas vão rolar
Barraco em morro a correnteza vai levar
Eu passo a mão no guarda guarda guarda-chuva
E nada pra não me afogar
Deixa as águas rolar



:: Postado Por Priscilla Xavier :: 4:11 PM :: Escreve que eu leio!:


Quinta-feira, Janeiro 26, 2006




O sabor do que passou



Como mencionado no post anterior, aqui vai um longo, porém instigante relato de uma ocorrência do passado. É tão somente um relato, sem maiores pretensões se não a de entreter esses dias de férias.
Bem, primeiramente cabe mencionar alguns detalhes sobre o ser que vos escreve. Eu sou aquela espécie em extinção, totalmente exótica, que causa espanto à população porque não bebo, não fumo e, pior do que isso, não sou adepta a nenhum tipo de droga (aos puritanos de plantão, aos defensores da liberdade do indivíduo ou da libertinagem, quando menciono drogas incluo desde medicamentos alopáticos até as substâncias quimicamente elaboradas para reagir de maneiras diversas organismo, alterando estado de consciência das pessoas). Outro detalhe relevante é o fato de que no período em que ocorreu a história que vou contar me era comum o hábito de ter e carregar sempre comigo o que eu denominava kit vadiagem. O kit era composto por um biquine, uma regada, uma calcinha, cortador de unha, pinça, pente e desodorante.
Estava eu na faculdade numa sex tá-feira, eis que toca o meu disk-guerreiragem. Minha comparsa me chamava para um show em Papucaia. Guerreiragem é guerreiragem, não cabe recusa. Na época eu, nobre e requintada, andava tão somente de Mercedes Bens e chofer. Coletivamente, indispensável esclarecer.
Começo da noite saí da faculdade e fui para Papucaia, onde há um enorme campo enlamaçado que abriga exposições agropecuárias e rodeios. De um ponto ao outro se faz necessária uma baldeação básica, em Itaboraí. Lá fomos nós, lépidas e faceiras, num ônibus parador que vazava a estrada no frio inclemente da noite.
Chegando em Papucaia precisávamos comer algo. Paramos na primeira padaria e lá já molhando a palavra alguns amigos e conhecidos. Nos juntamos a eles e imediatamente fomos obrigadas a beber algo, no caso uma Vodka Ice, sob a alegação de que era fraquinha como um suco. E realmente, o sabor era agradável. Com o estômago colando nas costelas de fome, desceram três garrafinhas de Vodka Ice. Tudo parecia ótimo, até o traiçoeiro momento em que eu tentei me levantar para comprar um picolé. Notei que as pernas falharam. Pedi então que alguém apanhasse para mim um picolé de morango, tutti-frutti, framboesa ou cereja, qualquer desses sabores artificiais de frutas que não são tipicamente brasileiras.
Depois do picolé juntei forças para ir ao mercado que já estava fechando. Queria comprar uma sopa, algo da natureza para dar uma forrada leve no estômago e sacolejar numa boa no show. Eu tentava inutilmente ler as embalagens das sopas, procurando algum sabor mais agradável. Cruel e ingrata era a minha tarefa. O mercado fechou enquanto eu sofregamente tentava ler algum sabor. Levei o que estava na mão, como se eu tivesse escolhido. Enquanto isso minha amiga desfilava entre as fileiras do mercado, sem propósito ou rumo, rindo de tudo e todos, trocando as pernas e dizendo que eu estava bêbada. Quando saí do mercado lembrei que queria um biscoito, mas já era tarde.
Enquanto caminhávamos para a casa que iria nos abrigar, ou mais precisamente abrigar nossas tralhas, vimos uma outra padaria. Não sei como, mas lembrei do biscoito. Na padaria só tinha biscoito waffer de morando. Então eu comprei um waffer de morango, da marca pica-pau. Achei aquela marca estranha, inusitada, mas sou adepta a dar valor à industria nacional, ao que chamam fábrica de fundo de quintal. Além do que, pica-pau me faz recordar lindos momentos da infância. Dá-lhe pica-pau!
Abri o waffer e fui devorando. Antes de chegar em casa eu já tinha dado cabo da embalagem de biscoito. E para meu azar descobri porque o infeliz se chama pica-pau: o biscoito fica bicando o estômago. Então, com o estômago bicado adentrei na casa e comecei a brincar com o sobrinho da minha amiga, um menino que na época tinha uns 3 anos de idade, uns 20 bonecos e algumas embalagens de salgadinhos cheetos à disposição. Ele abria o biscoito só pra pegar aqueles famigerados tazos. O biscoito servia de isca para humilhar adultos. Ele ficava brincando de acertar na minha boca. Brincadeira muito saudável, até o momento em que ele pediu que eu abrisse a boca e fechasse os olhos. Eu, ingênua, fiz o que ele pediu. Imaginei que ele iria rumar o biscoito para a minha boca, ledo engano o meu, visto que no lugar do biscoito ele varejou um boneco que acertou em cheio meu supercílio, que na época era adornado com um piercing. Nossa, que dor lancinante. Se a criatura mirasse não era de fazer um arremeço tão certeiro. Creio ser dispensável relatar que a minha terrível dor oferecia ao meu mui amigo um imenso prazer pela salutar sacanagem.
Dramaticamente finda a brincadeira, fui tomar a sopa. O estômago era um embrulho só, a sopa descia rasgando, uma leve tonteira, e um crescente mal estar. Fomos então caminhando, cerca de dois quilômetros, para o parque de exposições. Quando chegamos ao redor do parque me subiu algo quente pela garganta e eu expeli num só jato uma massa amarelado recoberta de uma cobertura rosa pink. Quando meus companheiros de empreitada olharam aquilo me perguntaram o que eu tinha comido para vomitar daquele jeito. Tendo por base as exuberantes cores do vômito, respondi que no mínimo uma drag queen.
Comecei a me sentir um pouco melhor. Mas isso durou apenas até entrar no parque. O pica-pau voltou a picar. Pensei que seria bom tomar um leite, pra dar um alívio ao estômago. A única coisa no parque que continha leite eram as tetas das vacas (no way) e a caipifruta. Tomei a caipifruta de morango, dupla!
Andar na lama não é das atividades que eu tenha desenvoltura o bastante para ousar inserir tal atividade em meu currículo, mas lá estava eu zonza com as canelas frias procurando diversão naquela noite até então mal aventurada. Nada abala a animação de um grande espírito. Andando tropegamente eu me sentia como uma coqueteleira. Dito e feito, assim que o show começou não dei mais que três pulos e foram suficientes para fazer a caipifruta jorrar da minha boca como água jorra das cataratas. Abriu-se um ótimo espaço arejado ao meu redor. Eu conseguiria andar por um mar de gente, abrindo geral na base do vômito. É impressionante como abre do nada! Todos os que me acompanhavam choravam de rir, mas sei que no fundo sentiam era vergonha. Olhei para a minha comparsa e falei: To demarcando o território aqui para não nos perdermos.
Vou me esquivar de dizer o nome do artista que se apresentou, mas não temo em assumir que o show foi do caído pro sofrível. Eu até sabia quase três músicas do ser, mas não estava dando pra animar. Nessas circunstâncias uma série de medidas necessitam ser postas em prática. A primeira delas é descer o padrão de seletividade do 9 para o grau 0. Em outras palavras, pegar todo e qualquer, sem perguntar nome ou pautar sequer dois minutos de prosa. Tem que ser rápido, direto e objetivo. Outra medida é a de anular todo e qualquer comedimento etílico, coisa que não pus em prática por não ter o hábito de consumir bebidas alcoólicas, o que naquele dia tinha sido levemente burlado, mas sem intercorrências maiores do que a de um interminável enjôo. Mas como acabar com o comedimento alcoólico quando se está com um limitador financeiro. Simplesmente bebendo mais do que custa menos, ou seja, desce qualquer uma. Minha amiga tinha começado a noite tomando vodka ice, contudo, após o show ela tomava um genérico que se chamava alguma coisa como Miklos. A proporção era ótima, pois com o preço de uma Vodka Ice ela tomava duas Miklos. Sensacional, não é mesmo?
E de Miklos em Miklos minha amiga foi de bêbada para zêbada. O grau de labirintite dela era algo absurdo. Eu olhava à meia distância minha amiga encostada no ombro de um rapaz, horas conversando e rindo. Quando ela mais ou menos me mirava eu fazia gestos mil para que ela entendesse que era hora de partir. Ela baixava os olhos, ria e acenava para que eu me aproximasse. Lá fui eu do ladinho dela, quando ela me segredou que estava se segurando naquele sujeito porque não conseguia andar ou ficar de pé sem apoio.
Dá para imaginar que eu seria o mais novo reboque de Papucaia a fazer entregas em domicílio. E então lá estava eu com o peso da minha amiga nas costas, arrastando como podia aquele corpo relaxado, já com algumas lágrimas me escapando pelo canto dos olhos em pensar nos dois quilômetros que separavam o parque de exposições da casa que abrigava nossas tralhas. O rapaz que estava servindo de apoio para minha amiga grita que nos daria uma carona. Naquele momento os conselhos de papai e mamãe para não pegar carona de estranhos soavam como piada. Claro que eu queria essa carona. Eu iria mesmo que fosse sentada no capô, do lado de fora, tomando vento gelado nas fuças, mas não iria carregar minha amiga a pé até em casa. E então peguei a carona com aquele gentil cavalheiro, que de tão generoso carregava todos os demais bêbados e enlamaçaodos que restavam naquele lugar. Aquele veículo ignorava solenemente todas as leis da física, sobretudo a de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar e que para toda ação há uma reação blá blá blá. Mas quando eu lembrava dos dois quilômetros e do peso da minha amiga, meu corpo se encaixava confortavelmente, nada melhor do que calor humano numa manhã fria.
Chegamos em casa bem. Bem acabadas. O dia seguinte era dia dos pais, toda família querendo se reunir, sair para almoçar e eu só queria cama. Eu só me sentia melhor quando olhava para a minha amiga, desnorteada, desidratada, descabeladas, sem forças, uma foto da degradação do ser humano após um porre de Miklos.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:15 AM :: Escreve que eu leio!:


Terça-feira, Janeiro 24, 2006




Vidinha mais ou menos


Sumida eu? Nem um pouco. Digamos que estou somente um tanto inoperante. Contudo, vez por outra passo por aqui para conferir os comentários. Estou de férias, na faculdade e no estágio. A vida está bastante mais ou menos, praia, cinema, pedaladas, piscina, acordar as 10h da manhã, dormir quando não mais agüentar ficar de pé, bares, vadiagens, amigos de papo furado, e como se tudo isso não bastasse, desde o natal do ano passado me rendi ao impulso consumista de adquirir um aparelho de DVD. O que não chega a ser garantia de que eu assista mais filmes, pois embora eu tenha alugado e pego emprestado com os amigos mais de 30 títulos, somente um consegui assistir na íntegra. Em casa é impossível ter sossego e concentração para curtir um bom filme. Aliás, não apenas um bom filme, até para os ruins é complicado.
Enfim, aproveito como posso esse período de vadiagem. O triste é que ele coincide com um período de dureza suprema. Não que em outra época eu tenha fartura de dinheiro, mas em geral o que tenho é milagrosamente adaptado às minhas empreitadas. Na atualidade ando tão desprovida de dinheiro que perante a mim qualquer mendigo é reverenciado como Vossa Excelência, Majestade, Excelentíssimo ou demais tratamentos que o valham. Só para se ter noção do meu drama, dia desses eu ia estacionando minha viatura, quando chegou aqueles guardadores inescrupulosos, que ficam extorquindo dinheiro dos desarmados proprietários de veículos automotores, já gritando: É R$10 adiantado. E eu prontamente respondi: Vendido!
Gente, R$10 pra mim é muito dinheiro. Aliás, é a justa medida da minha autonomia veicular de ir e vir. Chego no posto de gasolina e já chamo o frentista, Sr. Damasceno, na manha: Coloca deizão! ¿ Fazendo as contas, tão peculiar ao meu dia-a-dia, são 4 litros de combustível. Meu veículo anda treze quilômetros por litro, e isso significa que eu só me afasto até vinte e seis quilômetros do meu domicílio (o cálculo já é feito com a volta). O frentista já está tão habituado com a minha triste condição que, quando eu peço para ele colocar R$20 ele sorri complacente e já pergunta amistoso: Filha, vai viajar pra onde?
Vamos levando do jeito que não dá, pois quem não deve não tem. Sigo firme e confiante com a máxima já cantada por Raul Seixas: Quem não tem presente se consola com o futuro.
Sabe qual o problema do ser moderno? A antecipação. Ninguém aproveita devidamente o presente porque está se adiantando pensando no futuro. Quer exemplo? Eu não relaxo totalmente nas férias porque me dá uma tensão pensar que essa moleza vai acabar. O indivíduo tem um problema, e o problema não é o agora, mas sim o que ele não tem controle, o que ele não consegue prever com certeza, o futuro. Ele é tão promissor quanto ameaçador. Esse é o cerne de profundas indagações físicas, filosóficas e psicológicas que animam a humanidade.
Já que estou curtindo o momento, não irei refletir demais sobre ele, nem conjecturar o que virá. Irei relatar algum momento destacável do meu passado. Um passado recente, mas já bastante distinto do meu presente. O relato segue aquela famigerada linha: Eu era feliz e não sabia! Mas isso farei apenas no próximo post, supondo que alguém leia e comente o atual que já está longo o bastante.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:59 AM :: Escreve que eu leio!: