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Pitty que pariu
Sexta-feira, Março 03, 2006
O jogo dos sete ou mais errosTodas as pessoas têm especialidades. Essa destreza em alguma atividade pode estar estreitamente relacionada com a profissão, ou mesmo um lazer. A especialidade de uma pessoa pode ser algo irrelevante, imperceptível à outra. Por exemplo, para um adestrador de cachorros, as raças, tamanhos, cores e comportamentos dos animais com os quais trabalham permitem uma absoluta distinção entre cada qual, contudo, para muitas pessoas que não têm, não gostam, ou meramente não lidam com cães, todos eles são iguais. Quem trabalha no campo pode conseguir perceber variações mínimas, digamos assim, na cor da vegetação. Para a maioria das pessoas, que não trabalham no campo, tudo é apenas mato. O fato é que o treinamento dos sentidos faz as pessoas terem percepções mais apuradas, e a ênfase maior ou menor em tais e tais sentidos está para o ambiente que a pessoa vive e para a cultura que a envolve. Pessoalmente, creio que minha pseudo profissão me coloca invariavelmente a observar os comportamentos assimilados pelas pessoas em seus grupos ou culturas. E isso ocorre no trabalho e no descanso. Nesses dias mansos do prolongado feriado carnavalesco sempre estava eu percebendo os comportamentos, seja dos que vão para a folia, seja dos que não vão. Fico até saturada de tanto observar, e para tentar relaxar me coloquei a assistir a sessão da tarde. Pra quê? O filme que passou foi A LAGOA AZUL. Nada mais instigante ao ofício de um antropólogo do que imaginar o que se faz de indivíduos isolados. Realmente, colocamos a cultura como a máxima potência dos comportamentos, ou, invertendo a frase, colocamos os comportamentos como adquiridos, minimizando o que a sociedade, especialmente a ocidental detentora da verdade suprema, gosta de fazer crer ser instintivo. O filme inicia com três pessoas, sobreviventes de um naufrágio, isoladas numa ilha. Uma mulher, devidamente inserida numa cultura ocidental cristã, e duas crianças. Perfeito! A criança é o alvo primeiro da cultura, é o ser que precisa adquirir uma forma de viver, de comportamentos, ou seja, uma educação. A linguagem, uma forma oral de comunicação é a principal via para a assimilação da cultura. Assim, a mulher ensina às crianças a escrita, e através da escrita os valores cristãos. Lindo o cenário! Os seres adquiriram fala, escrita, valores morais e religiosos. Um enorme passo para toda a liberdade do tal paraíso ser cerceada. Quando a mulher está prestes a morrer, ensina as crianças orações e todo o ritual de sepultamento, desde o tamanho de uma cova, até as homenagens póstumas, com direito a flores e uma lápide. Rolei de rir, as crianças trabalharam feito formigas! Imagina se morre alguém numa ilha se me dou ao trabalho de enterrar ou fazer lápide...é nunca! Eu simplesmente deixaria a pessoa ser banquete de urubus, para dar continuidade à cadeia alimentar, segundos os conhecimentos que adquiri em árduas aulas de biologia, conhecimentos estes que, no caso da ilha, eu colocaria acima dos rituais cristãos. Depois que a mestre morre, as crianças precisam esperar o barco. Outra coisa que a mulher ensinou foi essa coisa da fé, da esperança. Pelo andar da carruagem essa lição as crianças não levavam tão à sério. Num corte mágico de uns anos, aparecem as criaturas já adolescentes. Foi incrível como os edredons de suas camas permaneceram em excelente estado de conservação, não obstante as intempéries climáticas da ilha, a falta de uma lavadora de roupas e de um bom sabão em pó. Me saltou aos olhos também eles terem crescido e ainda assim terem roupas para cobrirem seus corpos. De repente a mala da senhora que morreu era grande, e eles souberam guardar as coisas, deixa estar. Atentei para os personagens. O cabelo da menina estava comprido, mas com um corte displicente, e não no estilo pentecostes como conseguimos nos horrorizar dos seguidores de certas seitas ou religiões, o que seja. E o do menino, nossa, realmente é natural os homens terem os cabelos mais curtos que os das mulheres. Aliás, é natural esse estilo com franja jogada e os cachos desarranjados. Lindo mesmo! Isso ainda estamos no terceiro intervalo do filme, e segue a vida na ilha. Agora o foco são as ocupações dos nossos modernos habitantes. A menina gosta de se arrumar, e o menino de caçar. Assim é o instinto humano! Já está escrito, Maktub, no roteiro do filme, só se for! Olha a força da religião! Os nossos astutos habitantes têm calendário e festejam feriados cristãos. Tremi! Era páscoa, e o menino queria a todo custo pintar e esconder os ovos. A menina acha aquilo tolo e pergunta pra quê. Ele diz que era para ver quem consegue achar mais ovos. A menina insistia em achar uma boa razão para aquilo. E o menino dizia que era apenas pra competir. Por fim ele apela dizendo que a falecida iria ficar feliz. É interessante que ele tem nele o espírito competitivo, e a menina não liga para a competição, ao menos que haja uma premiação, um estímulo maior. Então, o menino diz que esse ano quem conseguir achar mais ovos ganhará um prêmio do outro. Ele finge que acha menos ovos para dar o tal prêmio à menina. Vejam que louco: ele vai ao mar, pega uma ostra e de dentro dela tira uma pedrinha branca, como diz a menina. A menina adorna de todo modo a pedrinha branca e pergunta ao menino o que ele acha. Ele sempre diz que não se importa com o que ela faz ou deixa de fazer com aquilo. Atentem para o objeto, ou material, alvo de valor. Se uma coisa tem circulação numa sociedade é porque a ela foi atribuído um valor, independente do material que o compõe, de sua função ou beleza. O menino então achou algo que muito coincidentemente é valioso à nossa cultura, e a menina atribuiu à pedra branca a mesma função de adorno que nós atribuímos. Fabuloso! A pérola é naturalmente valiosa, e todo e qualquer ser humano, em qualquer tempo e lugar, consegue perceber isso. Outro apelo natural é o sexual, segundo o filme. E, como não poderia deixar de ser, o homem é quem insiste pelo sexo. A mulher é fresca, não gosta tanto, e faz meio que para o homem parar de encher o saco. Foi nesse momento que eu já não consegui mais acompanhar essa cartilha civilizatória ocidental cristã. Nem Lord Byron agüentaria, nem Norbert Elias perdoaria. Para quê tantos manuais de etiqueta e bom tom se quase tudo é tão natural? Para quê um livro que trate dos processos civilizatórios se o filme retrata tão bem, numa versão minimizada, o desenvolvimento dos seres numa sociedade ocidental, mesmo ilhados? É tudo dado, tudo é como tem que ser, tudo é assim porque é assim mesmo. A agência humana tem uma função ínfima, supondo que exista. E quantos foram os erros? De interessante do filme fica a minha reflexão sobre tudo o quanto eu faria ou deixaria de fazer se estivesse isolada numa ilha. E você que me lê, quais seriam as suas providências? :: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:05 AM :: Escreve que eu leio!: Quinta-feira, Março 02, 2006
Soy loco por tiNuma composição de Caetano a frase que enaltece a América ganhou destaque. Sorte a nossa um poeta inspirar-se mais numa identidade latina do que fazer da nossa um simulacro de identidades européias. Recentemente o CCBB fez uma grande e prolongada exposição, Por Ti América, com o legado dos povos pré-colombianos. Tudo em prol de uma postura identitária mais própria do que a sua dissolução em detrimento de uma avassaladora e homogeneizante identidade global. Pelas descobertas culturais da América se enveredou a Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. E que caminho feliz! Sou suspeitíssima para falar da Vila Isabel, mas não me furto. Em 1988 a Vila Isabel ganhou o título de campeão com o enredo "Kizomba: a festa da raça". Recordo-me como hoje o lindíssimo desfile, que a bem da verdade o que faltava à escola em recursos financeiros, sobrava em criatividade e emoção. Com o "Valeu Zumbi", samba de Martinho da Vila, a saga abolicionista, as agruras dos escravos, sua força de resistência e a riqueza de sua cultura ficaram gravadas em versos e desfilaram na Sapucaí. Em minha inútil opinião existem dois tipos básicos de desfile: o que marca o carnaval e o que ganha o campeonato. Justiça seja feita, creio que em 1988 o desfile da Vila Isabel se enquadrou nos dois tipos. Outros dois sambas da Vila Isabel estão muito bem marcados em minha memória. Um em que Martinho falava da criação, a partir de argumentos sincréticos religiosos. Porém, o samba era uma poesia metafórica demais, e pela beleza da composição foi premiadíssimo, contudo, o carnavalesco não foi bem sucedido em tornar a poesia figurativa ou performática. Cabe salientar que os carnavalescos da escola sempre tiveram como desafio fazer um bom carnaval com parcos recursos financeiros. Outro samba que entrou para a história da Escola foi o "Muito prazer! Isabel de Bragança e Drumond Rosa da Silva, mas pode me chamar de Vila" de 1994. Esse samba contava com graça os encantos do bairro boêmio de Vila Isabel, e enaltecia a ilustre figura de Noel Rosa. Novamente, era muito samba para pouco carnaval. Entre os compositores dessa maravilha já estava o André Diniz, que também compôs o samba campeão desse ano. Lembro-me dos ensaios da Vila Isabel, que não possuindo uma quadra acabava por reunir seus componentes na quadra esportiva da Escola Equador, ali mesmo na Rua 28 de Setembro, bem próximo da atual quadra da escola. Por sinal, a atual quadra foi cedida pelo governo do estado, era a antiga garagem da CTC (Companhia de Transportes Coletivos), empresa pública que o saudoso Brizola defendeu enquanto pôde, mas que há anos era um grande espaço vazio. Em resumo, para tratar de cultura, dá licença, eu sou mais a Vila Isabel. E ontem lá fui eu para a quadra da escola, comemorar o mui digno título de campeã de 2006. Confesso que o bairro não estava tão cheio e alegre quanto em 1988. Sem grande dificuldade consegui entrar na quadra, e lá era só alegria. Um milhão de vezes o refrão Para bailar la bamba foi entoado. Mas eu, saudosa, estava ansiosa em ouvir os sambas que acima mencionei. Até que de uma hora para outra surgiu o Gera. O firme Gera, puxador arcaico do samba da Vila Isabel. Ele é o cara. Partindo para a galhofa, assim como o Silvio Santos usa um microfone preso ao pescoço, o Gera poderia adaptar um no ombro, pois nunca vi boca tão torta! Fiquei emocionadíssima quando aquela boca de esquina pegou no microfone e com entusiasmo cantou os velhos e consagrados "hinos" da escola. Era tudo o que eu precisava ouvir para voltar pra casa satisfeita. Parabéns Vila Isabel. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 7:51 AM :: Escreve que eu leio!: |