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Pitty que pariu
Sábado, Abril 08, 2006
Se o trabalho enobrece alguém, esse alguém é quem explora o alheioNão sou das blogueiras mais constantes ou zelosas, contudo, não me recordo de em algum outro momento ter ficado tanto tempo sem postar. Claro que isso não afeta a economia mundial ou a política brasileira, mas quero acreditar que três ou quatro solidários leitores sentiram falta das minhas porcas linhas. Resumidamente posso explicar que eu estava achando a vida "aquilo mesmo", sem grandes perspectivas, aquele quadro sem mudança, um desânimo só. Essa idéia de tudo sempre assim me arrepia os últimos pelos até das regiões onde não ventam para dentro. Não me importa se bom ou ruim, mas o sempre igual não me satisfaz. Assim, se um momento ao outro, resolvi mudar. Joguei tudo para o ar, parei de estudar e resolvi trabalhar. Cansei de ganhar experiência, decidi ganhar dinheiro, deixar de lado a teoria e ir de peito aberto ao pragmatismo. Como alguém já criticou Marx: teorizar menos sobre o capital e ocupar-se mais em ganhar algum. Troquei a sala de aula, os amigos, as chopadas, as noitadas, as conversas intermináveis, as leituras instrutivas e edificantes e as de gosto duvidoso, as telas de cinema, as atividades físicas e tudo o mais que possa compor uma vida mais ou menos, pelo ambiente de trabalho, cerca de dez horas diárias. Essa troca fez tudo ficar mais claro. Agora sim eu compreendo porque as pessoas bebem, fumam, cheiram e constituem família. Eu que me julgava uma pessoa de inteligência razoável, demorei muito tempo para compreender o porquê das coisas serem como são, da vida ser assim e pronto. Trabalhando como condenados não há outra saída a não ser reproduzir a ordem do sistema. Não há tempo para reflexão, indagação ou criatividade. Enterre tudo isso, encha meu copo, ouça a minha piada, acenda meu cigarro e me deixa ir, pois preciso fazer compras, ir ao shopping, levar as crianças na festa dos amigos e ver um terreno bom logo ali, entre onde Judas bateu as botas e onde o vento faz a curva. Meu trabalho é até bem exigente, é preciso ler. Não necessariamente saber ler, mas tem que ler. Ando lendo todos os dias, muito, uma bobeirada sem tamanho. Mas ontem chegou-me uma leitura de uns 23cm, cerca de cem páginas e capa em rosa extravagante. É o novo livro da Fernanda Young, "As Dores do Amor Romântico". Ontem de madrugada, quando cheguei da labuta, estava ele sobre a mesa. Veio pelo correio, com o nome da minha irmã, como cortesia da editora. Esse já foi inusitado, pois recordo que numa das promoções da net eu coloquei o meu nome e o da minha irmã na promoção, mas saiu o dela. Dá pra notar aí que a vida goza com minha cara! Acordei e antes de levantar fui passando o olho no livro, folheando, folheando, e quando ainda não havia escovado os dentes já o havia consumido. Pudera, um livro de poucas páginas, escrito em versos, e apenas a frente das páginas impressos, não há como render. Além do que, Fernanda Young falando de amor é algo próximo a Hitler exaltando a compaixão. É algo possível, mas pouco crível. Não à toa a autora enfatiza que muito provavelmente é seu primeiro e único livro de poesias. Eu sou fã da Fernanda Young! Me identifico sobreforma. Não tanto pela destreza do ofício de escritora, mas pela cara de pau. Ela é audácia pura. E esse livro mais recente é o marco dessa disposição de colocar a cara a tapa. Primeiro de tudo, dizer que esses parcos versos compostos em Adobe Rotis espalhados sobre papel Top Print 75g da Votorantim é um livro soa como risível. É numa situação como esta que eu penso que o livro no Brasil deveria ser comercializado pela quantidade de caracteres contidos. Seria ótimo chegar na livraria e pedir dez mil caracteres organizados por Patrícia Melo, ou quem lá seja. É o cúmulo da padronização, pois os caracteres de Paulo Coelho seriam equiparados aos de Oscar Wilde. Mas, poderia até criar uma tabela de caracteres por autor. Do fim ao cabo o que eu pretendo dizer é que determinados livros e volumes acabam por iludir, e muito, quem os consome. Quem já leu algum livro do Jô Soares certamente concorda com o que eu digo. Seria possível fazer edições pocket de qualquer livro, contudo, a companhia das letras inflaciona o produto colocando-o em edições que, não fossem as capas de material simples, seriam luxuosas pelo espaço não aproveitado naquele papel pólen. Enfim, li Fernanda Young e estou feliz que ¿deu tempo¿ mesmo trabalhando feito louca. Senti saudade do tempo em que eu tinha tempo para sentir dores existenciais para transmitir em poesias. Se alguém se interessar em publicar, valendo-me do plágio sarcástico, já tenho até nome: As cores do Ardor Rompantico. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:47 AM :: Escreve que eu leio!: |