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Quarta-feira, Julho 26, 2006




Fugir da preguiça é cair na avareza



Algumas vezes pode parecer que, tomando como baliza minha escrita mais pendente ao anarquismo, eu seja uma pessoa distanciada das obrigações burocráticas. Quem me dera! Queria eu!
Hoje foi dia de vistoriar o carro. E que dia! Eu sei que uso muitas exclamações, mas é que verdadeiramente vivo a exclamar e sem as benditas exclamações eu não saberia como extravasar na escrita o sentimento que está preso em mim e precisa ser excretado pelos dedos. Voltando à vistoria, eu não a desejo ao meu pior inimigo!
Pra começar, carro é igual a casamento. Você tem até noção de que ele não ta valendo grandes coisas, mas se outra pessoa comenta você fica ressentido. Então estava eu levando meu casamento para ser checado. E não dá outra! O sujeito que faz a avaliação consegue enxergar defeitos onde você jamais imaginou. O pior não são os defeitos que ele garimpa. Pior mesmo é ver o casamento dos outros, bem mais velho e visivelmente avariado, sai de lá sem qualquer pendência.
O rapaz da vistoria encontrou no meu carro as luzes queimadas na lanterna traseira esquerda. Ora, quem é que precisa das luzes traseiras da lanterna esquerda, eu pergunto. Basta as da direita acesas numa estrada muito mal iluminada para um caminhão me pegar com tudo pela esquerda, acreditando que está ultrapassando uma moto.
Tudo bem. Eu não faço questão da esquerda, mas a vistoria não me deixa pegar a documentação sem ela. Lá fui eu procurar um local para acertar essa situação.
Cheguei na loja, perguntei se o rapaz fazia o serviço e quando eu dei conta ele já estava com as lanternas desmontadas, lâmpadas queimadas retiradas e as boas já testando. Impressionante como para usurpar um otário as coisas funcionam, e rápido. Diante daquela presteza fiquei logo ressabiada. Conhecendo o meu bolso, tive que deter o cara antes da tragédia. Perguntei pra ele quanto eram as lâmpadas, e quanto era o serviço. Ele disse o preço de tudo, mas eu insisti para que ele discriminasse cada coisa. Vejam bem, pra arrancar a lanterna, era R$5,00 e cada lâmpada custava R$2,00. Eu tinha duas lâmpadas queimadas na esquerda, ele inventou mais uma queimada na direita, logo, ele me cobrou na lata R$16,00. Eu só pagaria tal quantia se eu não estivesse acompanhada de Zinho Jupará, um escorpião implacável que carrego no bolso para conter meus impulsos consumistas.
Achei o preço da lâmpada elevado. Se formos analisar, a lâmpada é um vidro fino com uma base e um filamento. Perguntei por que tão cara. O rapaz disse que é a original. What porra is lâmpada original? É a lâmpada que iluminou a lua de mel de Adão e Eva? É a lâmpada que Thomas Alva Edson criou? O rapaz insistiu em me convencer que a original era BEM melhor. Eu disse que melhor era ele não se conformar em ouvir falar e procurar compreender as coisas. Concordo que há coisas ditas ¿originais¿ de melhor qualidade que as demais, contudo, isso está longe de ser uma regra. Bem melhor naquela situação era eu satisfazer minha necessidade com o mínimo de gasto financeiro. Pedi as lâmpadas ditas compatíveis, que custavam cada uma R$1,00. O que as pessoas tomam como uma ninharia representa um lucro de 100% no preço final do produto. É o mesmo que comprar um carro pelo preço de dois, contudo, como não tenho dinheiro para comprar um carro, economizo nas lâmpadas.
Sem querer desmerecer o serviço alheio, nunca vi nenhum especialista em arrancar lanternas, nunca li um manual sobre, e sequer já vi um curso na área, algo que justifique tal coisa ser tão valorizada, algo rápido e que para executar basta tão somente uma chave de fenda. Eu disse ao rapaz que me vendesse apenas as lâmpadas que eu daria um jeito de coloca-las sozinha. Ele disse que já tinha arrancado uma. Eu disse que ele arrancou porque quis. No final das contas paguei as lâmpadas e a colocação da lanterna.
Toda essa avareza não pode ser e nem é em vão. Penso que as virtudes e os vícios sempre têm funções. No caso, a minha avareza é extremamente instrutiva. Se por um lado eu não estou disposta a pagar para colocarem a lâmpada na lanterna do meu carro, por outro lado eu me disponho a aprender a colocar essa famigerada lâmpada. Sobretudo porque eu não quero no meu velório ninguém aos meus pés chorando e dizendo: Coitadinha da Priscilla, não sabia sequer trocar as luzes da lanterna do carro. É esse tipo de humilhação que eu estou evitando.
Moral da história: em dez minutos eu consegui fazer o serviço que o sujeito fez em 2. Agora eu sei como se troca as lâmpadas da lanterna de um carro. Eu precisei escrever esse post inteiro apenas para fazer um apelo: Se alguém andando pelas ruas encontrar a lanterna de um Palio, devolve que é minha!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 3:34 PM :: Escreve que eu leio!:


Domingo, Julho 09, 2006




Dia de Alforria


Domingo, dia de alforria. É o dia em que você pensa em ficar fazendo preguiça na cama até a hora que não mais agüentar, acordar para tomar um farto café da manhã com jornal espalhado pela casa, e depois correr mundo, sem local e hora muito fixa. Mas, esse domingo é o dia sonhado, ou filmado como perfeito. A realidade, ao menos a minha, é distante dessa lépida idealização.
Pra começar, eu não moro sozinha e nem com a pessoa amada e escolhida para coabitar. Estou eu de refém na casa dos pais, em virtude da insustentabilidade financeira que assola a geração de anciões adolescentes. E no caso, ainda jogo as mãos para o céu em agradecimento pela gentileza e caridade dos pais, em grande medida pela piedade cristã que ainda tem espaço no coração dos católicos.
Então, voltando ao meu domingo, acordo com o barulho de todos conversando estrondosamente. Falam de contas, de parentes doentes, de contratempos, e do que será o almoço do domingo.
O jeito é pular da parte em que se acorda a hora que bem entende para a parte do farto café da manhã. Foi chegar na sala e deparar com aquele já castigado saco de pão de forma, o copo de requeijão nas últimas, e uma nada generosa fatia de queijo magro, que eu gostaria de dizer branco, mas tomando os dias em que vai à mesa e volta à geladeira, falta pouco para estar da cor do chedar. É dura a escolha entre o requeijão e o queijo, cumpriu engolir um pão de forma seco, que foi descendo com a amarga ajuda de um café com leite. E esse banquete matinal é na casa dos pais. Se eu refletir bem, se fosse na minha casa poderia ser bem pior! Fico nesse momento me indagando como pode a obesidade assolar o nosso país. Como visionária, já penso em adaptar um spa na casa dos meus pais. Acorda-se cedo, come-se pouco e ainda tem que se mexer.
A parte do se mexer é realmente desagradável. È preciso limpar a mesa do café da manhã, lavar a louça, varrer a casa, tirar tudo o que está espalhado pelo chão, limpar o banheiro, juntar roupa para lavar, e enfim, quando você pensa que tomando banho fará o plano de fuga, precisa ir comprar algo para fazer o almoço, ou mesmo fazer o famigerado almoço. Nisso já deu metade do domingo e estamos nós na estaca zero.
E o jornal? Bem, de papel não rola. Caso queira saber das notícias do dia é melhor pegar uma senha para acessar a internet no meu quarto. Sim, pois aqui é a dança da cadeira: a disputa é desleal. No que você levanta, o outro não espera a cadeira esfriar. Andei pensando em comprar uma sonda, pois assim não perco a vaga na hora que a bexiga enche.
Depois do almoço, dá uma fraqueza. Sim, pois o cardápio dominical dessa residência em geral é o que chamo de quinteto ADA: carne ou galinha assaADA, macarronADA, rabADA, buchADA ou feijoADA. E mesmo com essa variedade, todos os domingos se discute o que será o almoço, mas muito raramente se varia para um strogonoff, um medalhão com arroz à piamontese, um bife à rolê, uma peixada, panquecas, nhoque, algo assim.
Mas, tudo isso seria pouco domingo não fosse dia de colocar som alto. Repetindo, eu não sou a dona da casa. Então, eu fico à cargo do estilo musical dos donos da casa. O gosto do meu pai é viável, e em alguns momentos muito agradável. Mas minha mãe, a Dona Encrenca, essa castiga. Seja em CD seja na rádio, ela encontra preciosidades absolutamente desnecessárias. Das músicas selecionadas para tocar alto no domingo, tenho sérias dúvidas se o pior é a melodia, os arranjos, a voz ou a letra. Sem generalizar, no mais das vezes é um conjunto todo desagradável com um dos itens em destaque. Hoje eu fui obrigada a ouvir desde a abandonada e orgulhosa Alcione, passando pelo corno inconformado do Latino, chegando mesmo a versões de canções do inglês para o pagodês. O ápice desse set list foi uma versão de ¿totalmente demais¿ entre o funk e o pagode. Até as hemorróidas de Caetano sofrem com um ato de tamanha violência, pedindo arrego! E ainda assim devo me dizer sortuda, pois ainda não foi executado um cd todo de forró, em que a mulher canta os delicados e sensíveis versos: Me acuda Doutor/ Será que esse mal tem cura?/Meu marido tomou/a pílula do amor/ mas a perna é que ficou dura.
Eu bem que tento nesse meio tocar um pouco de violão, treinar alguma música, mas é o som na sala disputando, visitas chegando, telefone tocando, internet apitando, que o melhor é ensacar o violão de deixar pra um dia de folga.
O dia ainda não está perdido. Ainda dá pra curtir um cineminha. Pego o carro, que eu deveria ter lavado mas rolou preguiça, vou ao shopping, mas estaciono na rua. O flanela me cobra uma grana pra olhar meu carro. Ora, se eu quisesse pagar pra estacionar meu carro eu o colocaria dentro do shopping e não fora. Para mim parece óbvio, mas como o flanela é o dono da rua e nela empreende benfeitorias, algum eu tenho que soltar na mão dele sem direito a reclamar muito, eis que posso adquirir arranhões, amarrados ou algum dano no meu veículo. Corro shopping a dentro pra pegar a sessão que já começou. Resta dar uma volta, vislumbrar as vitrines, desejando tudo o que não se tem dinheiro pra comprar, entoando o mantra: nãoooo, nãoooo, nãooo!
A noite o telefone toca e são os amigos, atrás de algum prazer e alongar um pouco mais o dia maravilhoso. Uns combinam o bar daqui, outros o bar de lá, e no fim você furou com quase todos, pois no caminho encontrou um outro pessoal muito legal que te prendeu na conversa. O telefone não pára com as reclamações do furo, e fica no ar a promessa de recompensar durante a semana. E o triste é ir dormir pensando que amanhã volta a canseira.
Eu mereço! Domingo pra quê?Acho que irei descansar no trabalho!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 3:21 PM :: Escreve que eu leio!: