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Pitty que pariu
Quarta-feira, Outubro 04, 2006 Luso DivagaçãoDepois de alguns dias em silêncio quase sepulcral, eis que eu apareço para dar notícias. O texto é sem qualquer revisão, postado as pressas pois não estou em casa, mas sim em terras lusitanas. A vinda para Portugal me reservava muito mais surpresas que certezas, com bem convém a ser. Não me furto de partilhar um tanto aos que se habilitem. A chegada ao aeroporto do Porto foi bem tranquila. Embora eu portasse uns 50 quilos de drogas (eu mesma), o serviço de migração ou coisa que o valha não me interceptou. Ainda no aeroporto internacional do Rio de Janeiro algo me deixou bem ressabiada quanto a minha entrada em Portugal. Uma funcionária me interceptou e perguntou-me se eu já estava a par das exigências de entrada numa zona comum da Europa, a qual eles dão um nome que não me ocorre. Numa das exigências estava um seguro saúde que cubrisse 30.000 euros. Ora essa, minha vida não vale nem um terço da metade, imagina se eu cá haveria de ter um seguro com tamanha cobertura. Pois, esse tal seguro me seria arranjado pela solícita senhora pela bagatela de setecentos e tantos euros. Nem que eu fosse à Europa vender meus órgãos (sim, pois o corpo em si não creio que seja vendável ou de interesse) eu me disporia a tanto. Dito isto e certa de que estava fora de cogitação eu adquirir tal exigência, pus-me ao risco e a infeliz da incerteza que me atormentava a mente no ritmo do piscar de olhos se eu conseguiria ou não adentrar em terras lusitanas. Isso bastou para tornar minha viagem um suplício. Oras eu pensava que nada demais haveria de ocorrer na minha entrada em Portugal em busca de rever amigos e arranjar sossego. Oras eu me dizia que não tendo o tal seguro, descumpria-se uma exigência e estava apta a ser mandada de volta ao Brasil. Na aeronave eu era toda desconfiança. Já é sabido que pobre vive só de pirraça, e de pirraça corre o mundo. Cheguei na aeronave com os olhos ligados a tudo, e logo vi poltronas enormes, reclinadas a 90 graus, e achei-as muito bem elaboradas para uma viagem tão longa. Por sinal, tamanho conforto fez-me até parecer uma viagem curta. Isso foi um engano que durou apenas alguns passos. Passos esses que dividiam a classe executiva da classe económica. Eu diria que se o avião tivesse cú, era bem a região a qual correspondia meu assento. Minha poltrona era a última do meio do avião, com um generoso reclinamento das que a minha frente estavam. Sendo sincera, é certo dizer que praticamente vim com um passageiro deitado ao meu colo. Espaço para as pernas? Estou ainda a procurar, pois desatarrachei-as e guardei-as junto a bagagem de mão, no compartimento logo acima de nossas cabeças. Quando o avião iria descolar (note bem, em Portugal é descolagem a palavra), uma voz na aeronave pediu que colocássemos o assento na posição reta. Foi nessa hora que eu me injuriei com esse engraçadinho e prometi me acertar com ele. Desconfiada como sou, julguei ser essa uma piada de mal gosto e diretamente pra mim, pois da posição reta minha poltrona não saía. Descolamos e a viagem seguia calma. Os dois primeiros pares de horas eu até me senti bem, dentro do que é possível estando confinada. As horas restantes eu só queria sair pra tomar um ar. O filme O código da Vinci foi repetido à exaustão, Tom Hanks já estava rouco. A minha paisagem não mudava. À frente, a um palmo do nariz, estava a poltrona e a tela que exibia imagens. À direita dormia e babava um jovem com os lábios de tamanho avantajado. À esquerda um simpático integrante de uma banda de reggae. Sim, vocês entenderam bem, banda de reggae, com direito a dread looks. Quem já teve a oportunidade de estar perto ou conviver com dreads sabe bem que é muito bonito, muito estiloso, muito visual, mas exala um cheiro de tapete de enchente, cachorro de vala, táxi alagado ou coisa parecida. Mediante a inteligência, amabilidade e simpatia do sujeito, até diluiu-se o odor. Mas claro estava a traição e eu nem para perceber. O sujeito carregava em seu bolso um amassado rolo de papel higiénico que utilizava para assoar o nariz. Esse detalhe só agora atento é que enfraqueceu minha primeira semana em Portugal, numa tal de constipação (gripe). Chegando ao destino, aeroporto do Porto, a tensão quase fazia minha cabeça explodir. De cinco em cinco minutos eu checava toda a documentação como se fosse um ritual sagrado que me dava garantias de que tudo iria correr bem. As mão estavam geladas e suadas, um leve tremor, uma dor de barriga, mas logo achei uma fila. Em Portugal chamasse bicha, e lá estava eu ao rabo da bicha. Andava muito devagar, era demorada a liberação dos que chegavam e tinham que ter em mãos para verificação sua documentação. A minha já estava até melada de suor. Mas, parcas perguntas me foram feitas do tipo: penico de barro enferruja? Planta carnívora tem dor de barriga? Batata da perna é boa assada? Do que padecia o mar morto quanto enfermo estava? Após essa sabatina me encaminhei para a esteira. Eu, como boa libriana, olhava as malas serem despejadas e pensava que a minha haveria de ser colocada com cuidado, pra não sujar nem estragar. Andei rápida na escrita, mas claro que da saída da nave para a saída do aeroporto lá se foram quase duas horas. Era já um dia de céu nebuloso, temperatura amena e uma leve brisa que dava à paisagem um leve ar de melancolia. Um lugar novo, todo cheio de informações a serem apreendidas, um mundo que se abria para eu desvendar. Me senti como uma criança de uns cinco anos, que olha ao redor e se pergunta tudo, tenta assimilar tudo, mesmo as coisas mais comuns e corriqueiras. Claro que dá pra passar sem achar nada novo. Mas a graça e o encanto está justamente em garimpar no corriqueiro, comum e cotidiano as coisas distintas. Por sinal, tais distinções não passam apenas pela visão, pois atingem a todos os sentidos. É simplesmente inebriante. Pro caralho o seguro com cobertura de trinta mil euros! :: Postado Por Priscilla Xavier :: 4:38 AM :: Escreve que eu leio!: |