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Pitty que pariu
Domingo, Novembro 12, 2006

Uma amiga muito sagás recentemente escreveu-me falando sobre um tal sentimento nada grandioso que ela de experiência própria dizia desconhecer, contudo, andava sentindo algo próximo, mas não exatamente, ao que denominam inveja, tomando como base os relatos alheios. Pois então, me apropriando dessa mui espirituosa esquiva, eu sou acometida por sensação similar.
Quando ouço a música ouro de tolo do Raul Seixas eu simplesmente deliro. Canto de olhos fechados, com imensos suspiros e sorrisos entre falas. Eu sou bem assim, uma criatura chata que não acha nada engraçado, parafrasendo Raul, macaco, praia, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco.
Então, tenho uma sensação diferente quando vejo, por exemplo, pessoas absolutamente voltadas a alguma paixão, devotas a uma mania, ou mesmo simplesmente ávidas por tais e tais coisas.
Tenho amigos que colecionam long plays. Consigo aquilatar as preciosidades desse hábito que preserva, transcendendo o tempo, algo como um LP de Michael Jackson Thriller, da época que o mesmo ainda era negro e não branca. E ainda bem que alguém no mundo se preocupa com tal coisa, pois no que dependesse de mim thriller em som estaria em MP3 e em imagem em JPG.
Não compreendo coleções, o prazer de ter algo não cola comigo. Adoro mas não alinho ou compreendo a razão de juntar canetas, esqueiros, figurinhas, camisas da seleção, garrafinha de coca cola, chaveiros ou o diabo que for.
A sensação também me acomete quando vejo um amigo todo feliz e empolgado quando compra um terreno e imagina a casa que vai contruir. Quando construída, se ocupando com a decoração, se põe esse ou aquele móvel pra lá ou pra cá. No meu ver é tudo muito simples! O terreno é um lugar vazio no não vejo mais que vegetação, e duvido que algo se edifique, mas se tal ocorrer quero ver apenas quando pronto. A decoração, é tão bom tudo vazio pra não cansar a vista, alem de dar muito mais liberdade pra transitar. Se tenho um prazer sobre a decoração é no desfazer a existente.
A sensação não me larga. Ela toma conta de mim quando observo os amigos consumindo, comprando sem pena. Não é que eu não deseje as coisas. Eu até cobiço muitas e passeio em shoppings até não mais poder, sem asco em relação a esses templos do consumismo. Garanto que em uma semana percorro em shoppings a distância de uma meia maratona. Lambo vitrines, olho mil vezes a mesma coisa, pergunto o preço, contudo, é muito raro efetivar uma compra. Quando estou quase cedendo uma voz me atormenta perguntando pra quê eu preciso daquilo. E mesmo quando compro, um segundo depois, penso que a compra tá com defeito, pois não sinto aquela maldita satisfação que alimenta os vícios. Percebo nos outros essa mágica do consumo e sou acometida pelo sentimento inominável.
Acabou? Quem me dera. É uma fileira sem fim. O sentimento entra nas vias comunicacionais. Não sou nem tenho maiores pretenções de alinhar-me a uma conduta de eremita. Mas não vejo qualquer graça, por exemplo, em telefone. Celular então, com jogos, calculadora, câmera, player, calculadora de IMC (índice de massa corpórea), calculadora de gorjetas, cronômetro, relógio, agenda, calendário, lanterna, enfim, serve pra tanta coisa, não tem porquê além de tudo efetuar uma ligação.
As pessoas ligam umas para as outras a todo momento, incessantemente, na crença de que seus contatos são imprescindíveis. Ora essa, vivia-se tão bem sem esses malditos aparelhos. Só o que ouço são reclamações dos amigos porque não atendo, não ligo e algumas vezes sequer possuo um celular. Eu utilizar um celular não contribui em nada com o mundo, não aumenta o PIB, não diminui a desigualdade social, não evita a extinção da arara azul, não salva uma vida, não ressuscita Óscar Wilde, não resolve o conflito na faixa de Gaza, não dá significado, prazer ou razão de existência a ninguém, e enfim, não é preciso. Sem contar que a quantia empregada nessas inúteis ligações a médio e longo prazo significa dinheiro jogado ao vento, literalmente.
Me põe também refém da sensação as criaturas que gostam, acompanham e mais ainda as que compreendem trilogias, ou o diabo que for em sequência sem pé nem cabeça. Star wars, Senhor dos Anéis, Harry Potter são as que mais recentemente me atormentam. Não sei porquê existe Anakin Sky Walker, nem de onde ele veio ou pra onde vai. E de Darth Waden não tenho melhores perspectivas, mesmo tendo sido este um apelido que me colocaram na adolescência. E Frodo? Não sei pra quê rodar tanto as voltas de um anel. Os até agora mencionados eu vi uma parte ou nenhuma. Harry Potter vi uma e meia, pois na segunda vez que fui coagida a ir assistir não aguentei ver aquele moleque com barba e pombo de Adão fazendo papel de criança, voando com uma vassoura entre as pernas. Não consigo atingir a grandiosidade dessas produções que arrastam seguidores pelo mundo.
Bem, esse blogger não é grande o suficiente para comportar as minhas rabugices. Mas creio aqui já ter deixado uma boa amostra do quão sem graça eu sou. Numa outra oportunidade tentarei enumerar as coisas que eu me identifico e não as que eu estranho. O conceito de estranhamento ganhará uma perspectiva diferente, garanto. E a tal sensação, é restrita a quem vos escreve?
:: Postado Por
Priscilla Xavier
:: 2:37 PM :: Escreve que eu leio!:
Segunda-feira, Novembro 06, 2006

Nem tanto ao mar nem tanto à terra
Estou em Portugal, território que dá origem "civilizatória" ao que na atualidade chamamos Brasil, tal como rezam os compêndios de história. Estou com todos os meus sentidos voltados à descoberta desse país. A ideia de que falamos a mesma língua é um primeiro equívoco quanto a nossa proximidade. E para além deste há ainda uma miríade de confusões advindas do discurso falacioso de que os brasileiros herdaram seus hábitos.
A língua, instrumento fundamental para o relacionamento e a vivência num grupo social, pela maneira como cada qual utiliza e potencializa é um bom caminho para perceber a distância entre o que outrora fora metrópole e colônia. Do fim ao cabo é possível compreender o que se fala, contudo, não sem esforço.
Uma boa maneira de ilustrar o que eu tento dizer é imaginar uma conversa entre um português e um brasileiro versus a conversa de um brasileiro e um espanhol. No primeiro caso têm-se a ideia de que a língua é a mesma e que a compreensão é perfeita e literal, quase que dada, já no segundo há uma consciência de que são línguas distintas, a despeito de qualquer familiaridade, e que para tornar tal comunicação eficiente ou minimamente razoável é preciso um tanto de atenção e desenvoltura.
Essa ilustração no dia a dia oras é hilária, oras enervante. O português diz para a criança ter cuidado ao brincar para não se aleijar. O brasileiro compreende isso como um exagero, quase como um mau agouro brincando a criança estar arriscando a ficar ¿deficiente¿, aleijada. No máximo a criança iria se machucar. No mesmo exemplo, o português diria magoar, e o brasileiro entende o magoar como algo sentimental, raramente como físico. Brasileiros magoam ou são magoados em sentimentos, aquela dor, aquela ferida, aquilo que se sente porém não se vê.
A maneira de pensar também tem uma enorme distinção. Se uma pessoa num shopping em Portugal está lá para informar sobre as lojas, não tente perguntar o que quer que seja além disso, nem mesmo que seja coisa simples como dia e/ou hora, pois esse ser fica desarmado, sem compreender porquê logo ele teria que saber disso. O mesmo caso no Brasil, as informações sobre o shopping podem até deixarem a desejar, contudo, não se constranja em perguntar quanto foi o jogo de ontem ou se o ônibus tal passa ou não na porta do shopping. O português está preparado para responder estritamente, objetivamente, já o brasileiro é menos direto e mais abrangente. O que tem reflexos na maneira de falar. O português é simples e objetivo, o brasileiro extensivo e inexato. Um para o outro a relação tem reservas, visto que para um brasileiro o português parece grosso e ao português o brasileiro parece enrolão.
Não se deixe enganar com os títulos de livros, séries de tv e filmes. Podemos falar de listas de tais e não termos tido contato com um só item da lista um do outro, num primeiro momento. Contudo, os temas, as capas, autores, atores e diretores podem nos dar uma luz rumo a identificação de itens em comum. O que no Brasil chama-se Arquivo X, em Portugal é Ficheiros Secretos. O clássico livro biográfico da alemã Cristiane F. no Brasil tem como título Cristiane F., 13 anos, drogada e prostituída, e em Portugal Filhos da droga. O filme que projetou Ferrys como o ícone de personalidade e vida invejável para milhões de adolescentes no mundo, no Brasil é Curtindo a vida adoidado, e em Portugal O rei dos Gazeteiros.
A culinária tem ingredientes praticamente iguais, mas é muito diferente na maneira de utilizar e na de denominar também. Os portugueses têm nomes opulentos. Quem diria que uma abobrinha seria chamada de gorgete? É um nome pomposo pra um produto tão simples. Outros nomes têm equivalência, como por exemplo um carré ser febra. Carne em Portugal é entendida, no mais das vezes, meramente pela procedência animal. No Brasil é entendida pelo corte seguido da origem animal. No Brasil é um bife de contra-filé, em Portugal é um bife de boi (nada se sabe sobre que parte ele é feito). Por sinal, açougue no Brasil é um talho em Portugal.
De modo geral para não tomar uma coisa por outra, passando por cima das diferenças sem se importar, é preciso um tanto de habilidade e por vezes ares de idiota de ficar se indagando sobre as coisas, observando e mesmo perguntando aos que o rodeiam. Todos os dias aparece uma novidade.
Estar em Portugal me dá ótimas provas de que o Brasil não tem uma identidade atrelada a uma outra cultura. O Brasil tem uma identidade diversificada onde contribuem várias culturas, sendo uma covardia apontar a portuguesa como preponderante nos fiando no idioma comum. E antes que tomem o post como chato, cumpre dizer com toda força que Portugal é lindo!
:: Postado Por
Priscilla Xavier
:: 11:01 AM :: Escreve que eu leio!:
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