![]() Menu · Home · Arquivo : Diagnóstico Idade: 28 Profissão: publicitária Estuda: Ciências Sociais Vocação: vadiagem Hobby: ler,comer e domir : Prescrições · E-pipoca · Contos e Crônicas · Eyepunch · DiAAmante · Pequi-up · Corra Alcira, corra · O Pastim · Balde de Gelo · Fried my Little Brains · Hai-Kai · Alma transparente · Tudo o que é sólido desmancha no ar . Idéias de Lívia Lamblet : Visitaram meu rebento
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Pitty que pariu
Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007
Uma volta na LapaMarquei com uma amiga de nos encontrarmos na Lapa. De antemão cumpre esclarecer que tal local fora escolhido não pela animação, b^emia, poesia ou quaisquer predicativos que dão à Lapa um brilho que de perto é lata, mas pelo fato da amiga morar no bairro. Com os horários um tanto complicados em virtude de uma comunicação não muito eficiente, cheguei ao local muito antes da minha amiga sair do trabalho. Em termos exato, eu tinha aproximadamente duas horas para gastar até o anciado encontro. A primeira medida era estacionar minha viatura em algum lugar razoável. Não digo seguro, pois para o bairro é uma espécie de utopia. Pensei que a ladeira onde minha amiga reside era o local perfeito, afinal, morando no local deve-se colocar o veículo em algum lugar próximo. E assim fiz. Encostei o carro, dei uns telefonemas de relevância estratégica e quando achei que não estava mais sendo notada, saí sorrateira. Essa é uma das modalidades esportivas em que sou exímia e a cada dia me aprinoro: a corrida do flanela sem barreiras. Ia eu descendo a ladeira imaginando ser um dos figurantes do "Incidente em Antares". Eis que um sijeito com um layout muito peculiar apontou para mim e disse alto: Dez! Na minha cabeça a resposta estava pronta: Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, vendido ao senhor mal ajambrado com a peruca do Qualhada. Onde? Quando? Como? Padece gravemente das faculdades mentais a criatura que alimenta a crença de que eu estico dezão para qualquer um na rua. Ele me intimidava dizendo ser o Paulão, que manda na área, que vigia o carro e ali estava tranquilo, era só deixar acertado. Era tanta marra que eu no auge da sensatez voltei para o carro e disse que por dez eu ficava a noite rodando e não com o carro parado. Quando meu carro vê dez de gasolina até engasga de emoção! Vinte então, o frentista até me pergunta pra onde eu vou viajar. Desci a ladeira aos roncos em busca de um local em que eu fosse menos explorada. Dei uma volta no quarteira e encontrei a extensão toda da calçada me chamando. Me certifiquei de que não tinha nenhum flanela no local. Liguei o alerta, reduzi, parei. Eis que um sujeito que por certo estava indo ao botequim comprar um cigarro parou já esticando a mão e fazendo aquele movimento e pedindo pra eu deixar solto. Eu realmente devo ter cara de otária. Ele falou, filha acerta adiantado. E eu que não perco a oportunidade de sacanear um, já fiz cara de perdida (conhecendo a localidade há tempos) e soltei: eu só queria saber onde fica o IFCS (leia Ifix). O cara quebrou na hora! Passou a mão na cabeça, se coçou e olhou ao redor procurando uma vítima para aquela situação. Achou um vendedor de chicletes e gritou, sabe onde é o fix? Um maluco que nada tinha com a história colocou-se muito local e disse que a SiX era logo ali perto das rua das marrecas. De fato, a boate Six é próxima a rua das Marrecas, mas o IFCS é próximo ao João Caetano e ao Real Gabinete Português, ou seja, do outro lado. Esse do outro lado garantiu-me uma fuga descente, não transparecendo que eu estava indisposta a pagar R$5,00 adiantado para abandonar meu carro na rua. Lá se foram mais algumas voltas pelas animadas ruas da lapa. Na Rua do Lavradio, tinha um buraco de obra que era ótimo para colocar o carro ao lado, pertinho da polícia, com uma imensa placa de é proibido estacionar. Mas, no barulho das luzes quem é que dá confiança à placa? Embiquei, e na manobra imprensei um pedestre que tentava se desvencilhar do buraco. Ele gritou e mais que prontamente eu sorri e me desculpei, alegando estar concentrada em estacionar. O sujeito riu malicioso e ficou me fitando meio que de soslaio. Na passada de ir embora, ele deteve-se e perguntou se podia conversar comigo. Pensei logo que tivesse perdido a oportunidade de atropelar um flanela. Mas ele trazia nas mãos algo que colocou nas minhas. Disse que dava pra notar que eu tinha bom gosto, e pediu que eu avaliasse as peças. Simplesmente as peças eram um cordão, com um pingente de crucifixo e uma grossa aliança. Eu só vi tanto ouro na minha vida no sorriso de uma cigana e em vitrine de joalheria. Devolvi rapidamente, e expliquei que eu estava impossibilitada de fortalecer. Ele perguntou então quanto eu tinha. Mandei direto: dez reais. Ele tirou a aliança e disse que o cordão era meu. Saquei do bolso, dura e engomada, a bendita arara. Deixei o cara sumir enquanto fingia ajeitar as coisas pra sair do carro. Quando fecho a porta do carro, do nada brotou um sujeito com um colete cinza da prefeitura, daqueles dos que vendem talão de estacionamento público, dizendo pra eu deixar solto. Soltei o freio de mão, fiz a minha cara de insatisfação e comecei a impregnar. Eu estou muito aí pra isso! Falei que procurei cuidadosamente um local onde fosse proibido estacionar pra não ter que pagar. O cara disse que tem que pagar sim, é night. E eu que lendo os famigerados talões, que me causam ódio profundo, já absorvi a informação que após as 20h ele já não mais se faz necessário. E assim era, não precisava talão. Precisava apenas pagar três reais. Outro detalhe interessante é que a luz do dia o talão custa R$2,00, e a luz da lua o não talão custa R$3,00. Qualquer real me interessa muito. Quem não se importa com R1,00, favor depositá-lo todos os dias na minha conta. Insisti com o guardador que fazia hora extra para cobrar apenas R$2,00. Ele estava irredutível e com ar nenhum pouco amistoso, ralhando que quem quer sair de carro tem que gastar, além do mais o srviço era esse preço porque a polícia em breve passaria ali cobrando o dela. Realmente não duvido, mas o quê eu tenho com isso? Eu fiz acordo com alguém? Se algum policial já viu um centavo meu foi porquê caiu do meu bolso, mas devo ter me abaixado mais que depressa pra não ficar no prejuízo. Enfim, o sujeito vendo meu veículo não teve a presença de fazer por menos. Ele falava que quem sai de carro tem que gastar como se eu estivesse passeando pela Lapa com um Rolls Roys. Meu carro anda, mas não chega nem a ser denominado popular, o que seria um embuste pra dizer que é um do ano nacional, voltado pra uma classe média a qual não pertenço. Tudo bem, é um carro do ano (do ano em que o Brasil fez 500 anos), traição nas quatro rodas, pára-choque na cor (do asfalto), raridade, muito novo, carro de mulher. Lamúrias a parte, o sujeito não teve mesmo compaixão e me cobrou, centavo a centavo, R$3,00. Assim que paguei tive a sensação de que minha noite estava estragada. Só pra sair do carro na Lapa tive que investir em jóias e alugar um local para parar meu veículo (estando ciente dos riscos), fechando aí a conta em R$13,00, e ainda tendo uma noite pela frente. Isso porque pechinchei muito, tive tempo de fazer uma boa pesquisa de mercado, lidar com os profissionais que trabalham na área. Em resumo, a constatação é antiga e cada vez mais enfática: a Lapa tem donos e estes são putas, travestis, ladrões, traficantes e bandidos (alguns fardados, sem necessariamente comprometer a corporação como um todo, mas assumindo que policial na Lapa e cachorro em açougue não são confiáveis). A Lapa é assim, e SE QUISER. Se não quiser se enjaula em casa. O poder público ali não apita em nada, a dita população está a mercê de algum poder paralelo. Um brinde ao Rio de Janeiro, sou carioca e quero meu crachá, com foto e identificação: Otária! :: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:18 PM :: Escreve que eu leio!: Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007
Tá dando pra entender, ou quer que desenhe?Vez por outra sou acusada de escrever de maneira muito rocambolesca, de usar um vocabulário rebuscado, falar de maneira pomposa e coisas mais que insinuam que ou eu sou exibida a cartar erudição (como? Como é possível cartar o que não se tem?), ou meramente não me faço entender. A bem da verdade minha escrita não é das mais convencionais e talvez também nem seja das mais eficientes, mas a meu favor está o fato de que a maneira de falar e escrever é idiossincrasia pura. Muitas vezes fui, e ainda hoje sou, vitimada pelo parco ou nulo entendimento do que as pessoas escrevem e/ou falam. Quando criança devo ter sido vacinada com agulha de vitrola. Eu falava pelos dois cotovelos, e se bobeasse até pelos joelhos ou demais articulações (por sinal, nunca entendi a razão de se falar pelos cotovelos). Um ditado Beneditino reza que temos uma boca e dois ouvidos, portanto, temos que ouvir duas vezes mais do que falar. No meu caso era complicado, mas eu bem que me empenhava em dar ouvidos a tudo e a todos. Me recordo de ouvir coisas das mais absurdas, que levavam um tempo enorme para serem esclarecidas. As circunstâncias e declarações são inúmeras, mas há sempre as mais deprimentes que merecem destaque em qualquer tempo. São clássicas, não no sentido de velhas, mas no de sempre atuais e pertinentes. Próximo ao condomínio em que moro desde a infância há uma casa na ladeira (várias), e ao lado da casa uma ladeira de cimento liso que finda num patamar frente a porta da casa, patamar este adornado com vasos de plantas. Aos olhos e à bunda de uma criança sagaz, como eu era, o cimento liso não passa de um escorrego, e as plantas de um artifício bem bolado para aparar o impacto da descida. Não sei quantas vezes escorreguei e coloquei aqueles vasos caídos no afã de não me esfolar um tanto mais. Dona Darcy, a proprietária da divertida casa, sempre vinha me inquirir com os óculos na metade do nariz, olhos semi cerrados e as mãos na cintura: Priscilla, você viu quem quebrou minha samambaia chorona? Meus olhos paralisavam, minha mente se empenhava para dar àquela pergunta um pouco de significado, apenas o bastante para esboçar resposta. Ela repetia: Priscilla, você viu quem quebrou meu xaxim de samambaia chorona? A cada declaração a coisa piorava um bocado. Na minha mente passavam mais interrogações do que água nas cataratas do Iguaçu. O que no mundo deveria ser um xaxim? Eu não fazia idéia do que era uma samambaia, mas até ficava sentida por ela ser chorona. Daí a eu conseguir compreender as preocupações loucas de Dona Darcy lá se foram anos, e vasos de plantas quebrados. Se ela fosse mais direta e perguntasse quem quebrou meus vasos de plantas, saberia que a culpa (odeio essa palavra) sempre era minha, porém, eu demoraria muito mais tempo a saber o que era um xaxim e uma samambaia chorona. Meu pesar é o fato da Dona Darcy ter tido apenas samambaias, pois vim a conhecer as avencas apenas há dois anos atrás lendo Caio Fernando Abreu. Então, só conheço avenca na escrita, nunca vi nem quebrei o vaso de uma avenca. Outra declaração que me assombrou foi a de uma professora de português que entre as amigas eventualmente mandava: a recíproca é verdadeira. Para mim a recíproca era uma amiga delas, esguia e franca. O esguia tirei pelo nome, pois com um nome desses eu achava pouco provável que a Recíproca fosse anã ou gordinha. E essa tal recíproca ainda tinha um irmão, o recíproco. As confusões não se resumiam as declarações das pessoas que me cercavam. Música é muito bom, porém era algo que eu cantava por cantar, pois eu não me fiava na idéia de que aquilo tivesse que ter sentido. Quando Rita Lee cantava No escurinho do cinema/chupando drops de anis, eu cantava por "cantar No escurinho do cinema/chupando drops xanis". Anis, xanis, era tudo uma palavra com sonoridade. Drops de anis não é, nem nunca foi o tipo de consumível do meu repertório. Drops eu até imaginava que fosse bala (na época associava ao ducora), mas de anis nunca vi algo da estirpe. Dia desses, lendo a caixa de chás aqui de casa, é que fiz a revolucionária descoberta de que anis é nada mais nem menos do que erva doce. Aí tudo se esculhambou. Para quê eu iria no cinema chupar a bala de uma erva pra fazer chá? Era mesmo cantar por cantar! E assim é que ampliamos nosso repertório comunicacional! É fundamental aumentar o número de sinapses. Se uma palavra existe é para ser usada, ainda que não seja a mais usual. Se não a usarmos aí sim é que nunca ela será conhecida. Além do quê, usar sempre as mesmas construções e palavras põe o freio do comodismo em nossa possibilidade de aprendizado e cognição. Já que os lingüistas desenvolvem trabalhos com base na idéia de que a língua é viva, em constante modificação, escrever e dizer sempre o mesmo, grosso modo, é estagnar nossa língua. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 5:43 PM :: Escreve que eu leio!: |