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Idade: 28

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Pitty que pariu

Quinta-feira, Março 22, 2007




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Voltando para a vida acadêmica é que me dou conta do quanto o habitus é poderoso. Não tenho qualquer utópica intenção de mudar o mundo, contudo, não é sempre que consigo pairar pelas coisas sem atentar ao que me causa algum desconforto.
Aprendemos na escola, pública ou particular, que sem querer Pedro Álvares Cabral DESCOBRIU o Brasil. Isso deveria ser enredo de literatura fantasiosa, mas é a História do Brasil. E então os portugueses resolveram fazer do Brasil uma colônia de povoamento. Nem se a população Portuguesa da época migrasse em peso tal feito seria possível. Então, uns parcos portugueses se empenharam na árdua tarefa de procriarem nessas terras. À princípio com índias (habitantes que se achavam na terra descoberta), posteriormente, quando para trabalho deu-se início ao tráfico de escravos negros, com as escravas. E essa é a gêneses da população brasileira, da sociedade brasileira, à partir do que fora o famigerado descobrimento. É bom ressaltar, pois do contrário teria que buscar os ancestrais mouros e árabes dos portugueses, e mesmo ser criteriosa quanto a distinção de localidades de procedência dos negros traficados (é muito comum a crença de que a África é um todo homogêneo).
Quinhentos e tantos anos depois, fui jantar num restaurante. Notei uma mesa extensa, composta por cerca de dezoito mulheres e apenas dois homens. As mulheres usavam faixa. Eu demorei a crer, mas era isso mesmo. Em 2007 eu estava jantando e testemunhando da existência de miss. Senti falta do Silvio Santos narrando o nome, a localidade e as medidas das criaturas. Pelos nomes nas faixas pude sagazmente perceber que tratava-se de um concurso estadual, e cada moça representava uma cidade do Rio de Janeiro, de Duque de Caxias a Friburgo. O que me saltou aos olhos era a supremacia da Loreal no mercado de cosméticos, pois todas eram loiras, com exceção a Miss Niterói. Agora, incluindo Miss Niterói, todas tinham os cabelos na categoria que chamo "dependente químico", pois sabe Deus sob o poder do quê ficam tão lisos. Todas coerentemente falsas, tal e qual a história que nos foi e ainda hoje é ensinada.
Essas observações ficaram me consumindo uns dias. Confesso que fiquei no ônibus, nas ruas, nas barcas, e em qualquer lugar que eu fosse lá estava eu fazendo observações sobre a aparência dos brasileiros, mais especificamente dos cariocas. Numa tarde dessas me peguei vendo Malhação e numa única cena tinham cinco loiras. Não fosse o idioma e a tez das peles, diria que tal novela era rodada na Noruega.
A conclusão de que cheguei é que, para além das fantásticas teorias históricas, a imagem que os brasileiros valorizam como ideal de beleza está distante do índio, do negro e do português, ditas três raças (supondo que isso exista) que geraram a população. Não questionando a liberdade que as pessoas têm de parecer como bem lhes pareça, há aí uma deformidade, uma inconformidade com certos aspectos típicos da miscigenação, algo que deve mexer vergonhosamente na auto-estima da população. Afinal, não há como disfarçar que nossa cultura é aparência. E vale ainda lembrar que a apreciação estética não está dissociada do condicionamento cultural. Em suma, no Brasil ou é vergonhoso parecer brasileiro, ou parecer brasileiro é forjar determinadas aparências.



:: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:14 PM :: Escreve que eu leio!: