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Sábado, Junho 23, 2007




Aos juizes juízo



Se as notícias dos jornais conseguem nos fazer refletir, o que nos sobressai, entre escândalos políticos e índices alarmantes de violência e criminalidade, é a antiga e famigerada ineficiência da justiça. Tudo bem, as instituições do país não são exemplares, não ampliam e nem contribuem em grande medida para o que convém chamar democracia.
A ineficiência não brotou em nossa sociedade, não dormimos na ordem e acordamos na desordem. É fruto de uma longa e tenebrosa história, que tem suas bases na colônia que Portugal instaurou no Brasil, na sua divisão do território em cesmarias e da produção mercantil para abastecimento de mercados externos. Esses são alguns dos possíveis fatores que podem ser elencados para a compreender a dificuldade do Brasil em se constituir como um estado-nação, de se inserir na modernidade estandartizada pela democracia e ideais universalistas. O malogro da constituição de uma esfera pública num território gestado consoante interesses estrangeiros e gerido por interesses privados tem reflexos atuais expressivos, sobretudo na posição do Brasil no cenário internacional. E internamente, bem podemos medir as conseqüências.
No Brasil o que deveria ser terreno para a igualdade, a esfera pública, nunca passou de uma extensão da esfera privada. E o golpe mais fatal desse fracasso na distinção de uma esfera e uma privada foi a construção de uma ordem jurídica com membros recrutados da elite dominante e comprometidos com os interesses dessa mesma elite, numa concepção de fazer com que esse sistema altamente personalizado, onde o privado predomina, se perpetue.
Os anos que se passaram, da constituição da república até hoje, não serviram de reparo para esse problema. Nem populismo, nem autoritarismo, nem golpe deram cabo da questão. A problemática da ordem jurídica, o distanciamento de uma normatização em prol de uma sociedade igualitária, ao invés de ser solucionada se complexificou. De resumo de sua incipiência fica o chavão de que de nada vale boas leis sem mecanismos que assegurem seu devido cumprimento. Mecanismos incluem instituições concretas e trabalho humano.
A minha intenção não é a de denegrir a ordem jurídica, ao contrário, é clamar pela necessidade que essa se estabeleça de forma eficiente e condizente com a liberdade e igualdade asseguradas em leis a todos os elementos que compõem a nação.
Mas como isso é possível quando um juiz tem poderes, acima do bem e do mal? Se todos são iguais, como um juiz não pode ser julgado, portanto, jamais punido? É uma imunidade que por um lado o distingue dos meros cidadãos, dando cabo do ideal de igualdade, e por outro aprioriza que o que quer que o juiz faça é legal. É daí que emanam excessos e confusões. Os excessos ficam por conta da arbitrariedade que do poder de decidir, dar um parecer que deveria se valer de uma reflexão que expressasse a coletividade, mas acaba dando voz aos interesses mais vis, pessoal, parental, religioso ou partidário. As confusões são as de aspectos morais e psicológicos. Quem investe na carreira de juiz o faz estritamente por interesse pessoal de gozar de uma série de regalias, de poder no sentido mais mesquinho. Ressalta o eu, detentor de uma legítima distinção social. O que nem a população, nem os juízes pregam é a concepção de que juízes são subordinados. Sim, subordinados a um ideal maior, a uma ordem, a um dever, a uma nação. Enquanto essa consciência não for internalizada como prática a ineficiência se perpetua. Claro esteja que há juízes que rezam, e muito bem, pela cartilha da ética. Contudo, não aparentam ser a maioria, e no mais das vezes atuam em questões periféricas, nas margens, de modo a não comprometer os grandes interesses de pequenos e poderosos grupos. Seus esforços são sempre embaçados pela má atuação dos que estão no miolo das esferas decisórias dos rumos da nação.

:: Postado Por Priscilla Xavier :: 10:01 AM :: Escreve que eu leio!:


Sexta-feira, Junho 15, 2007




Arruma a mala



Adoro viajar. Até aí, nada demais. Adoro viajar com os amigos. Ainda não há nada de distinto. O caso é que gosto da viagem em si, da companhia dos amigos para ter com quem partilhar os momentos e os apetrechos. Sim, os apetrechos.
Todos levam tralhas. Eu também, só que entre minhas tralhas está quase que exclusivamente minhas roupas. Nem sempre minha bagagem é a menor, contudo, é sempre a mais leve. Nunca levo produtos de higiene!
Nada de sabonete, shampoo, condicionador, defrizzante, desodorante, pasta de dente, pente, creme hidratante, protetor solar, repelente, soro, aspirina ou qualquer outra coisa do tipo.
Engana-se quem pensa que fico suada, fedida, sem lavar os cabelos, sem tomar banho, sem escovar os dentes, sem a pele protegida e hidratada. Ao contrário, uso todos os produtos possíveis e imagináveis, alguns dos quais nem disponho de similar em minha casa.
É um hábito que adquiri há algum tempo e que venho me especializando. Funciona em duas possibilidades. A primeira é a de um estudo antropológico/sociológico de enquadrar meus amigos em nichos para tais e tais produtos. A segunda é a de, na experimentação, saber da qualidade do produto e se ele me satisfaz.
Dessas suas possibilidade, nenhum produto é tão rico na análise quanto o shampoo. ADORO! Faz parte dessa análise a leitura do rótulo, composição, preço e modo de utilizar. É divertidíssimo.
A primeira constatação é a de que eu sou a única de minhas amigas que tenho o cabelo NATURALMENTE cacheado, na linha crespo, claro e curto. Se eu fosse uma pessoa que me deixasse abater, ficaria realmente mal. Minhas amigas de viagem têm cabelos longos, no mais das vezes lisos e oleosos. Mas quando eu lavo meus cabelos com os shampoos delas nem noto tanta diferença. A maior diferença é mesmo o cheiro. Em verdade, shampoo é pra lavar o cabelo e essa conversa de frizz, cabelo rebelde, oleoso, e coisas mais são constatações, contudo, um produto que favoreça os cabelos assim ou assado ainda não faz parte das minhas crenças. Shampoo é pra lavar os cabelos, e ponto.
Os condicionadores sim, têm diferenças enormes. As amigas suvinas têm aqueles potes enormes, condicionador em litros, com listras de cores variadas, denominados coquetel de frutas. Claro que uma fruta nunca passou nem de longe na composição desses produtos. As amigas mais dispendiosas compram condicionadores de potes modestos em tamanhos e preços exorbitantes. O coquetel tem que usar sem moderação, deixar agir por alguns minutos e enxaguar. Os demais têm que usar pouco, esfregar apenas nas pontas e em pouco tempo enxaguar. O de coquetel facilita mais o pentear, contudo, quando seco parece residual, pois fica um tanto áspero. Os demais não facilitam tanto o penteado, porém quando secam deixam os cabelos bem sedosos. E o cheiro? Quanta diferença! O coquetel fica um cheiro de gordura com desinfetante de pia, os demais têm cheiro próximo ao de shampoo, muito mais agradável.
Os cremes para pele fazem mais diferença. Não aquela brincadeira de mal gosto de creme para pele negra, mas o de pele mais ou menos oleosa faz toda a diferença em relação a ficar mais ou menos ensebada.Tem a questão do rendimento, alguns precisam pouco e abrange uma grande região, outros é preciso uma besuntada generosa. E claro, mais uma vez, a grande diferença é o odor.
O desodorante é algo revelador. Há mulheres que, por acreditarem transpirar demais, usam o desodorante masculino. Pessoalmente não curto o cheiro de macho dos desodorantes. O mesmo não pode ser dito em relação a perfumes em si. Mas desodorante masculino é aquele que conforme a pessoa transpira vai ficando um cheiro de jaula. Prefiro os femininos, quanto menos odor melhor. Me irritam os desodorantes que têm cheiro de talco. E também me dá enjôo os que têm perfume doce, como o de rosas, de flores, me dá vontade de cheirar um pinico de merda.
O dentifrício já tenho predileção até na experimentação. Prefiro sempre em gel. Os que são em pasta têm o mesmo sabor, mesma cor e mesmo odor, todos desagradáveis. Em gel há verde, vermelho, azul, transparente com bolinhas brancas, azul clarinho, uma variedade. O sabor, já provei até um apimentado. O odor, vai desde menta até de guaraná.
E assim é o lazer. Com tantas coisas para experimentar, é fácil supor que com amigas prevenidas vou a qualquer lugar!


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:49 AM :: Escreve que eu leio!:


Quarta-feira, Junho 06, 2007




Você que vê coisas invisíveis
Você que crê no todo poderoso



Essas frases são de uma música do grupo cidade negra. Tempo saudoso, em que o som tinha uma personalidade bem mais reggae e crítica social do que o pop mais meloso ¿pega leve¿. E outra diferença crucial era o vocalista. Sim, pois esse é o personagem que em geral leva adiante o espírito da banda. Era um sujeito chamado Rás Bernardo. Por este nome não é difícil compor o layout dessa criatura. Dreads total e sempre trajando uma roupa que contivesse algum detalhe apologético como as cores jamaicanas ou ao líder do reggae mundial, Bob Marley. Nada contra Tony Garrido, afinal ele popularizou a banda. Mas penso que não ofende a ninguém explicitar que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Ainda mais quando as coisas são diferentes mesmo.
Não sei ao certo quantos Cds a banda Cidade Negra tem. Nem me darei ao trabalho de me interar de tal coisa. Deles fiquei com dois Cds. Um com o Rás Bernardo, ¿Lute para viver¿, o segundo da banda. E o outro, no esboço de mudança tanto no vocal quanto nos temperos da banda, ¿Sob todas as forças¿, com o qual fizeram enorme sucesso de vendas.
Com o título ¿Lute para Viver¿ já é possível intuir o quanto o trabalho tinha de crítica de ação. E é mesmo imperioso, tanto pelas letras muito bem resolvidas quanto sonoridade, menos mista e mais reggae. E as músicas são daquelas que vêem à mente sempre que nas circunstâncias do dia-a-dia o fardo social e político pesa sobre nossos ombros. As letras são do próprio Rás Bernardo, camelô na Baixada Fluminense, sujeito escolado, que vê e compreende as sutilezas e as grosserias da vida e consegue harmonizá-las numa música.O auge do meu comentário, minha loucura, é a letra ¿Falar a verdade¿, escrita em meados 90. Eu tinha cerca de 12 anos quando ouvi pela primeira vez essa música e recordo que me deixou alucinada ficar pensando nesses paralelos, que verdade era essa. Como assim eu o ladrão? Invertia-se. Quem persegue quem? E quem é perseguido? Quem vê coisas invisíveis é maluco? E porquê não é maluco quem crê no poderoso e a partir dele vê o mundo. A Letra que nos faz pensar, indagar, refletir, refutar do primeiro ao último verso. Eu poderia escrever laudas e mais laudas sobre, mas quero lhes dar a oportunidade e o gosto de fazer por si.

"Falar a Verdade"
Vamos falar a verdade pra vocês
Ei, ei, estamos aí (pro que der e vier)
Ei, ei, estamos aí (pro que der e vier)
A fim de saber a verdadeira verdade
Estamos a fim de saber, a fim de saber
Estamos a fim de saber, a fim de saber
Você que luta para se manter
Você que pede pra sobreviver
Você que olha com toda curiosidade
A fim de saber a verdadeira verdade
Estamos a fim de saber, a fim de saber
A fim de saber a verdadeira verdade
Estamos a fim de saber, a fim de saber
Ei, ei, estamos aí (pro que der e vier)
Ei, ei, estamos aí (pro que der e vier)
Você que foge como um ladrão
Tentando se esquivar da perseguição
Você que foge como um ladrão
Tentando se esquivar da perseguição
Você que anda pelo meio da rua
Você que lê livros de mulher nua
Você que vê coisa invisível
Você que crê no todo poderoso
Você que nasce (hou) você que cresce (hou)

:: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:02 AM :: Escreve que eu leio!:


Sexta-feira, Junho 01, 2007




Preconceito Revisado


O preconceito está banalizado. A palavra preconceito já não é aplicada com o mesmo significado de quando fora forjada. O ordenamento de idéias que irei desenvolver envonlve lógica, filosofia, lingüística, senso comum e demais áreas do conhecimento, portanto, é chato e quem não tiver bagagem cultural ou paciência para acompanhar, por favor, pode parar a leitura por aqui. Para os que se julgam preparados, garanto no mínimo entretenimento.
A palavra preconceito, se dividida tem o seguinte significado. Pré, é um prefixo de anterioridade, e conceito é um julgamento, entendimento, idéia ou opinião. Portanto, um conceito apriorístico, ou seja, um conceito anterior a sua existência.
Em tese resumida, é um julgamento pronto, antes de julgar. E o preconceito foi se inserindo e se intensificando no vocabulário das pessoas. Toda postura, opinião, que não é consensual ou dita ¿correta¿ está condenada a ser classificada como preconceito.
Se eu não gosto de um japonês, por exemplo, e deixo isso explícito, logo sou acusada de ter preconceito. Há aí um problema. Eu tenho todo o direito de gostar ou não das pessoas. Se terceiros tomam alguma característica aparente, visual, para justificar meu julgamento, a partir daí eu já não tenho mais nada a ver com isso.
Essa ilustração é eficiente para perceber o quão automaticamente o preconceito é acionado. Tornou-se a coisa mais banal do mundo. Aliás, o sentido denotativo perde muito para conotativo. Não tenho convicção de que o preconceito possa ser descrito, num conceito fechado. Se alguém conseguir tal feito já tem uma fã.
De mais e mais, deu para notar que quando se fala de preconceito a palavra puxa como um ímã um discurso racializado. Pessoalmente, compreendo raça como uma linhagem de características exclusivas, muito exclusivo a animais. Não diminuindo os animais, nem negando que o homem também seja um. O fato é que o preconceito racial como desenhado e disseminado pelo mundo eu o menosprezo como algo na categoria de um "determinismo oftalmológico". A expressão é minha, pode espalhar pois me responsabilizo pelo que penso. Enfim, você age conforme o que você vê. Feche os olhos e toda a lógica do discurso racializado não funciona. É um defeito de fábrica. Quem invento tal coisa nunca pensou na fragilidade desses argumentos quando cai para a ordem dos sentidos. Não vendo as supostas diferenças, logo elas não existem. E vive-se bem com os olhos fechados para determinadas finalidades.
Cotas para afro-descendentes? Não compreendo. É algo como reiterar, dar força, vigor para um discurso discriminatório, com base no "determinismo oftalmológico". Cotas para cidadãos de baixa renda? Algo mais plausível. Compreendendo que se deve fazer acertos da base para o pico, um método cartesiano, do mais simples para o mais complexo. Em suma, acho um desperdício de esforços tanto alarde na educação superior enquanto o ensino de base fica num processo acelerado de pauperização.
Percebem o preconceito caminha? Tem um conceito dinâmico demais para ser apreendido, e um uso tão diversificado que quem fala de preconceito de uma maneira, é compreendido por um conceito distinto, não correspondendo. É uma comunicação ruidosa demais.


:: Postado Por Priscilla Xavier :: 12:10 PM :: Escreve que eu leio!: