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Pitty que pariu
Quarta-feira, Julho 25, 2007
Há limites entre o público e o privado?Todos os conceitos que parecem ter sentido social com alguma homogeneidade, numa concepção global, no Brasil é experimentado de maneira muito peculiar. E digo peculiar como um eufemismo bem razoável, pois a idéia é a de uma maneira única. Nesse esteio, há dois conceitos que me intrigam sobreforma: o público e o privado. A inquietação não parte da compreensão de um e outro, mas sim no hiato que estes apresentam entre o conceito e a prática. A saber, o privado é o local restrito, onde impera as normas específicas, em geral informadas por um patriarca. Nesse espaço, as pessoas são privadas de direitos. Em oposição, há o espaço público onde as pessoas passam a ser indivíduos, portadores de direitos, compondo e participando de uma coletividade maior. Compreendidos os conceitos debilmente simplistas, resta olhar ao nosso redor para notar as faltas gravíssimas, de tão corriqueiras quase não damos conta, e de tão grosseiras que mais se assemelham a chacotas. Praia de Icaraí, Niterói, Rio de Janeiro. A prefeitura constrói mesas e bancos de concreto, fixados no calçadão da praia. A luz do dia, ou melhor, ao sol inclemente do meio-dia, um sujeito senta-se com sua mãe nos bancos de uma mesa. Saca da bolsa um prego e uma marreta. Mira no centro da mesa e começa a dar marretadas, despreocupado com quem passa e observa a cena. Após uns minutos de trabalho, abre um guarda sol e o coloca no buraco que acabou de fazer. Eu me pergunto quem pediu para ele fazer esse buraco? Aliás, pra essa pergunta a resposta é até óbvia, muito provavelmente a mãe. A pergunta correta é quem autorizou fazer um buraco na mesa? Certamente não fui eu, menos ainda a prefeitura. Ainda tenho que me dar por satisfeita pelo bom senso do sujeito de furar a mesa no meio, pois poderia ser sem noção e tentar furar na quina por parecer mais estiloso. Achou bonito? Nessa mesma praia há coisa melhor! Um grupo de amigos fez um recuo de concreto, do calçadão para areia, e ainda instalaram um toldo. Tudo isso para poderem jogar seu carteado distintamente, com direito a farnéis nos finais de semana e churrasco em dias especiais. Churrasqueira e isopor? Fácil! Eles guardam ali na praia mesmo, pois também construíram um vazado com tampo e cadeado. Afinal, é chato ter que carregar as tralhas para lá e para cá, como burros com cangalhas. Muito mais cômodo ter tudo ali na praia mesmo. Jardim São João, centro de Niterói, Rio de Janeiro. Sobre um caixote de maça gala um caderno e uma caneta. Fazendo do caixote mesa um sujeito sentado num banco. Em frente ao caixote um cartaz escrito “Frete”. Caso não dê para notar, trata-se do escritório do sujeito. Isso seria nada, não fizesse parte do escritório um telefone público. O sujeito reservava um telefone público para seu uso exclusivo. Numa tentativa desesperada de justificar tal ato identifico o problema na mania brasileira de apelidar as coisas. Quando se fala em telefone público, o público já dá a idéia. O nome “público” é uma dica para as pessoas entenderem que é direito de todos fazerem uso daquele objeto e/ou recurso. Contudo, ao apelidarem de orelhão, vê-se logo que a coisa é de quem dela se apropria. Ouso dizer que o orelhão é um dos campeões do uso equivocado. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, terceiro andar, há um telefone público. Neste instituto, mais do que em qualquer rua, as pessoas têm o dever de compreender as concepções de público e privado. Contudo, é triste notar que a compreensão em nada se reflete nas práticas. Caminhei em direção ao telefone para ligar para casa e uma menina me abordou. Perguntou-me se eu ia usar o telefone. Primeiramente, se vou ou não usar isso só diz respeito a mim. Mas, a fim de evitar antipatia, respondi que sim. A menina fez cara de aborrecida, e perguntou se eu não tinha celular. Meus olhos arregalaram, afinal, já era a segunda pergunta que eu não tinha necessidade de responder. Agarrei na mão de Deus, contei até mil, entoei mantras, cheguei ao nirvana, sorri falsamente e disse que tenho. Ela continuou a inconveniência dizendo que estava esperando uma ligação e que era muito importante. Alcancei que ela esperava uma ligação importante! Só não entendi o que eu tinha a ver com isso. Enfim, a graciosa estava apenas fazendo as inscrições de disciplina via telefone. O irmão em casa acessava a internet e dizia para ela quais eram as disciplinas disponíveis. Ela escolhia uma disciplina e desligava. Depois esperava ele ligar para confirmar se a inscrição foi efetivada. Em média nos inscrevemos em 7 disciplinas por semestre, dá para ter idéia do quanto ela privou as pessoas do uso daquele telefone. Não apenas porque sou abusada, mas interrompi sem cerimônia as inscrições dela. Falei com quem tinha que falar e depois fui embora. Claro, com os ouvidos nas costas aptos a captarem qualquer reclamação dela que me servisse de estopim para uma boa discussão. O interessante dessa discussão é que, caso você se incomode com esses atos tão simples, que em nada ferem a coletividade – penso que os que fazem uso inapropriado dos recursos públicos se alimentam dessa certeza - é logo taxado de chato, encrenqueiro, enjoado e outros mais. Aliás, o mais comum é a idéia da inveja. Ela abarca uma amplidão de possibilidades quase absurdas. De minha parte apenas desejo esclarecer que não tenho a menor intenção de mudar o mundo. Contudo, não me permito ficar calada diante da desordem. Menos ainda quando ela objetivamente me lesa e incomoda. Não vou ficar atônita assistindo ao caos. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 8:40 AM :: Escreve que eu leio!: Domingo, Julho 22, 2007 Um mais um igual a doisHoje não há nada de original ou interessante para elaborar. Apenas pequenas constatações. Não há como se esquivar da crise do setor aeroviário. Minha perspectiva será a da experiência, ou percepção pessoal, para que vocês possam dimensionar isso num contexto mais amplo e conseguir inserir os desastres recentes no contexto das reengenharias e flexibilizações no mercado de trabalho. Que me lance uma flecha quem consiga dissociar uma coisa da outra. Por acaso moro num condomínio construído para os aeroviários. Acompanho de perto a quantidade cada vez menor de pessoas empregadas na área que residem por aqui. Além da quantidade, a qualidade de vida dos trabalhadores da aviação, padrão econômico, decaiu drasticamente. Claro, muitos deles já estão aposentados. Mas um funcionário dessas empresas, na atualidade, não tem condições de comprar um imóvel aqui. Nos anos 80 meus vizinhos eram comissários de bordo e funcionários administrativos de empresas diversas, das que consigo citar sem titubear: Vasp, Varig, Pan Air, Transbrasil, Luftansas e Air France. É fácil concluir que em 20 anos o país mudou. As mudanças não foram poucas. Mas aqui nos serve a mudança estrutural que dê conta do crescimento populacional. Direto ao ponto, se a população aumentou, se a estrutura precisa abarcar esse número crescido, como é possível o milagre da diminuição dos postos de trabalho? Há aí uma mágica, que embora não consigamos ver, não cabem dúvidas de que pagamos pelas conseqüências. A exigência de qualificação é grande, o acúmulo de função e o crescimento da carga horária não são sutis, e a redução de direitos trabalhistas é enorme. Terceirizações, as famigeradas cooperativas, seja para segurança, seja para limpeza e demais serviços descentralizam a administração e se refletem num descompromisso de quem contrata para com quem é contratado. Ainda nas vias do eu, um tanto chata, mas nem por isso irrelevante, é a da experiência que tive na universidade. Ofertas de estágio nas empresas aéreas, como atendente. Precisava estar matriculado, cumprir carga horária, ter inglês e espanhol fluente, boa aparência e em troca um benefício abaixo dos mais baixos estágios. Deve ser mesmo muito honroso trabalhar na aviação, de modo que a honra baste como retribuição pelo serviço prestado. Escusado seria dizer que dos estagiários, ao menos os que estudaram comigo, nenhum fora aproveitado. De seis em seis meses eram descartados. As vagas de estágio, portanto, eram constantes. Falando do setor aeroviário parece até que ele é o culpado de tudo. Parece que ele inventou as adaptações do mercado de trabalho nos moldes neoliberais. Não mesmo! Se isso é o que deixei transparecer, cabe a minha retratação. O setor aeroviário é um simples exemplo, um entre vários possíveis. A saúde, a justiça, a segurança, tudo está dominado por esse processo atroz. O que enfatizo é que as modificações sociais não são impunes. Simples assim! :: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:07 AM :: Escreve que eu leio!: Terça-feira, Julho 10, 2007
O Pan-cadaNo Rio de Janeiro só se ouve e só se fala numa única coisa: o Pan Americano. Imagino que no Brasil inteiro esteja ouvindo e falando a mesma coisa. Aliás, em outros países da América não deve ser diferente. Mas certamente o carioca é o único que fala com propriedade. Propriedade fruto das experiências recentes de ser a cidade que cedia os jogos. Não desmerecendo atletas e delegações, não desanimando torcedores nacionais e internacionais, mas essa idéia do Rio de Janeiro sediar o Pan Americano não anda sendo feliz. O preço de sediar os jogos é o desconforto, são transtornos diários nos preparos e tenho por certo que o ápice ainda está por vir. Gerar uma infraestrutura para abrigar um evento dessa proporção não parece viável as características do Rio de Janeiro. A cidade é maravilhosa, as praias são lindas, as paisagens deslumbrantes, os cariocas são agradáveis, mas nem tudo são flores. O rio de Janeiro tem problemas como quaisquer outras capitais mundiais, mas um problema no Brasil é diferente de um problema no resto do mundo. No Brasil um problema raramente é algo digno de solução, no máximo de um jeitinho. Então, se a cidade está inflada e não há espaços para construção de moradias e áreas de lazer, construímos uma vila do Pan na Zona Oeste. Remediado! Pra onde vai a merda que as pessoas irão cagar na Vila do Pan? Não interessa. A Zona Oeste só é próxima da Zona Oeste. Há algumas formas de chegar até lá, todas complicadas. Pode-se passar pelo túnel que desemboca na Rocinha ou pela Av. Niemayer. Em ambos os caminhos contempla-se de um lado o mar e mansões, e de outro a Favela da Rocinha e/ou o Morro do Vidigal. Ambos locais até bem calmos, contudo, ai do domínio público ficar fazendo gracinhas se o tiroteio não começa! Mas isso é condicional, pois regular mesmo é só o tráfego lento, por conta da desproporção entre quantidade de carros e capacidade das pistas. Mas isso já foi solucionado. Há um pedido para que os moradores da Barra evitem sair do bairro nos dias do evento. Simples assim! Há uma outra possibilidade que é a linha Amarela. Essa via sim é muito boa. E com um pedágio de três reais e tantos centavos não poderia ser diferente. Corta vários bairros pobres, algumas favelas, tudo calmo. Animado mesmo só trecho conhecido como Faixa de Gaza. Raras vezes passei por lá sem ser recepcionada por uma salva de tiros. Não é lenda, é tiro pra todo lado mesmo. Mas está tudo no jeito. As ruas estão sendo marcadas com uma faixa laranja. A idéia é fazer o trânsito fluir para o Pan Americano. Os motoristas que forem pegos trafegando pelas faixas exclusivas serão multados. Coitado dos inadvertidos! Eu to me alongando no transporte rodoviário, mas vou me eximmir de comentar sobre o aéreo, férreo ou marítimo. Em relação a transporte, muito bem esclareceu a linda e estimada Martha Suplicy: Relaxa e goza. ADORO! Não irei nem adentrar na idéia do abastecimento de produtos diversos, desde os mais básicos como água e alimentos, até os mais específicos como souvenires. Eles saem de um lugar e precisam chegar a outro. Como? Dá-se um jeito. Na madrugada tudo é possível. Já que madrugada veio a baila, é mesmo o momento em que alguns dormem e outros trabalham. A limpeza? O efetivo da comlurb não creio ser suficiente para dar conta de zelar pela boa conservação da cidade. Voluntários! E a saúde? Alguém acredita que não há ocorrências no Pan? Pois bem, quem pensava em tirar férias em Julho já está abraçando a causa: não tô podendo com o Pan. E não adianta apenas pessoal, pois ninguém opera milagres, o curandeirismo não é das práticas mais indicadas em hospitais. É preciso material, desde medicamentos aos de conservação. Normalmente esses são parcos nos hospitais, mas para receber o pan seria uma vergonha não ter nem gaze nem luvas descartáveis. A população carioca atura isso, mas os visitantes para o Pan não precisam. Mendigos? Não os vejo mais! Estão limpos, banhados, e isolados, quase como Lord ingleses, dos quais se ouve falar, mas nunca são vistos. Eles são talvez uma excentricidade dessa bonita cidade que lhes recebe de braços abertos. Violência? Tudo sob controle! Semanas em guerra no Complexo do Alemão. É pra fazer um combate efetivo ao tráfico de entorpecentes? Não exatamente. É pra deixar o pessoal sob controle, comportado, ao menos no período do Pan. Depois voltam a brincar de gato e rato. De verdade fico tranqüila mesmo, pois os policiais são tão parceiros dos traficantes que não creio que um deles faça a gracinha de estragar a brincadeira. Mais uma vez o Brasil se destaca mundialmente. Certamente é um dos poucos países onde um tal terrorismo que assola o mundo, ou a mente de norte-americanos, não existe. É um país vaselina, sem grandes animosidades externas. Nós não temos medo de um país inimigo. Os inimigos do Brasil são criados aqui mesmo. Não é sensacional? Por que ter medo de uma ameaça externa, se internamente podemos viver harmoniosamente com nossos inimigos? É sempre bom tê-los à vista. Eu tenho certeza que faremos um excelente Pan. O jeito consegue operar milagres, coisas inacreditáveis. Entre pequenos atrasos e leves desentendimentos, o resultado final do evento será positivo. Não tenho condições de especificar para quem. Mas em maior e menor escala haverão beneficiados. Mas por ora ando padecendo um bocado. Aos que verão as competições, boa diversão. Aos que participarão das competições, boa sorte. Aos que fazem o Pan acontecer, sucesso. Aos que não se encaixam em nenhuma dessas: paciência, muita paciência. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:12 AM :: Escreve que eu leio!: |