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Pitty que pariu
Quarta-feira, Novembro 14, 2007 Lembranças Molhadas da InfânciaA frequência dos leitores não está diretamente relacionada com a minha disposição para escrever. Por ora isso muito me favorece!Não me ofende escrever pra ninguém ler. Estaria mesmo perdida caso me desse a esse trabalho. Enfim, me inspiram os dias chuvosos. Ontem eu estava lembrando da infância. Falo isso como se fosse uma grande novidade, algo extraordinário eu lembrar da infância. Criatura saudosa sou eu. Pois bem, dias chuvosos parecem inibir as brincadeiras. Mera e equivocada impressão. São nesses dias que as brincadeiras precisam ser mais sofisticadas, arguciosas e que explorem os limites.Nem que seja apenas o do bom senso. A bem da verdade todas as brincadeiras de infância são atividades cruéis que testam limites. Choveu. O que fazer? Morando num condomínio, com prédios de 14 andares, a pergunta nem tem sentido, tão óbvias que são as possibilidades. A primeira é pegar o elevador, escolher um andar, um apartamento, tocar a campainha, voltar para o elevador e sumir. Bom mesmo é ter um durex, pois como dizia Claudinha: é pra tocar melhor. E tocava! Direta e ininterruptamente, até que o dono da casa arrancasse o durex da campainha, ou, na pior das hipóteses, até que a campainha queimasse. Vandalismo? Não, teste dos limites. Ainda nas atividades dependentes do elevador, tinha a corrida dos elevadores. Apertávamos todos os andares, e quem chegasse primeiro no térreo ganhava. Esporro! Os condôminos nem sempre respeitavam as nossas modalidades competitivas. Outra brincadeira de elevador, esta muito pachorrenta, era a de ascensorista. Colocávamos um banco dentro do elevador e danávamos a perguntar o andar que as pessoas desejavam ir. Quando a pessoa apertava por si o botão, brigávamos. E se apertássemos para a pessoa e ela ousasse não agradecer, chamávamos de “sem educação”. Essa brincadeira sim era um preparo para a vida adulta, uma reprodução do que bem ocorre no cotidiano. Por tudo e nada criança toma esporro, e então era a nossa vez de reproduzir essa lógica imbecil de ralhar a torto e a direito. E como esquecer das brincadeiras “ta na chuva pra se molhar”?! Tinha aquele bando de crianças de bicicleta passando em velocidade pelas poças. Algumas de água, outras de lama. Essa modalidade era carinhosamente denominada Motocross. Derrapagens, quedas, tentativas de permanecer de pé na bicicleta atolada na lama, valia tudo. Outra brincadeira molhada era na quadra polivalente. A quadra mais parecia uma piscina, e estávamos nós a brincar escorregadiamente. Tinha o mergulho de peito e o pique. No primeiro, tal como um rodo vínhamos arrastando a água com os braços abertos. No segundo, um clássico da infância, a dificuldade não era um pegar o outro, mas se manter de pé. Aliás, mais difícil que isso era sair ileso a essa tentativa desesperada mas nem sempre frustrada de fratura. Alguns dentes ficaram comprometidos nessa farra, e umas escoriações eram consideradas lucro. Lembro-me de cair de costas certa vez. É dos piores tombos. Minha cabeça bateu no chão com uma velocidade e força que durante uma semana figurei como doublé de Robocop. Havia brincadeiras mais suaves, em contudo onerar a perversidade que vive harmoniosamente dentro de cada criança. Estendíamos lençóis e mais lençóis entre os carros e nos cantos da garagem, como fossem tendas árabes. Bom mesmo que nossos pais se alimentassem dessa ilusão. Éramos crianças dos anos 80, período em que o Rio de Janeiro foi muitíssimo castigado por chuvas, abundaram enchentes, enxurradas e inundações. Nossas brincadeiras não tinham como deixar esse rico repertório da realidade que nos atingiam através de telejornais. Nossas tendas em verdade eram barracos. E de momento a outro, quando cismávamos que a chuva aumentou, nossos barracos eram destruídos, levados pela força das águas. A culpa disso era o lixo que se acumulava nas encostas. Íamos para abrigos, dizíamos que morávamos na favela do Rato molhado, da Lagartixa, da lacraia, não faltavam nomes para o nosso humor “puro” e já sarcástico. E a leptospirose? Era só disso que nossas bonecas morriam! E assim passavam manhãs, tardes, noites, dias, semanas, meses e anos. Entre gripes, resfriados, bronquites, asmas e pneumonias, safaram-se todos. Saudade danada da infância! Dá-lhe chuva... :: Postado Por Priscilla Xavier :: 8:34 AM :: Escreve que eu leio!: Quinta-feira, Novembro 08, 2007 Badaladas e badalaçõesCoisa boa é dispor de tempo para prestigiar a alma com cultura. E isso foi bem o que me foi proporcionado ontem. Não imaginam como é bom poder flanar pelas ruas do centro da cidade, e encontrar nos lugares que menos se espera eventos que muito têm a ver com você. Direto ao ponto, ontem conheci um espaço cultural, da Caixa econômica, bem próximo a faculdade. E nele estava em cartaz uma mostra de cinema etnográfico. Nada mais propício a um antropólogo. Primeiro de tudo, o local em si dá uma etnografia. As criaturas que frequentam esses espaços privilegiados têm peculiaridades visuais. Qualquer detalhe nelas destoa em comparação aos supostos comuns que compõem a massa da população. A primeira coisa que cai por terra num local desses é uma revista de moda. Todos estão out, seja das roupas e acessórios em voga, seja das cores da estação. Há o movimento "retrô", "vanguarda", o movimento "moda sou eu" e, o mais ousados de todos, o movimento “caguei para a estética”. Meus olhos testemunharam majoritariamente elementos desse último estilo. Eu não seria capaz de descrever todos os elementos que me causaram impacto visual, mas garanto uma angina na Glória Kalil e ataques apeléticos em quaisquer editoras dessas revistas de moda com parcas observações. Deixe-me dar ao trabalho de descrever, grosso modo, uma só criatura. Até a cintura ela era mais uma entre a população, cabelo num corte "nem ligo se cabelereiro tem família pra criar" e uma regata preta. Acessórios discretíssimos, se muito um brinco de pedrinha. Da cintura para baixo começava o pecado. A bermuda era uma calça que virou bermuda na marra, através da falta de maestria das mãos que se valeram de qualquer tesoura cega. Em outras palavras, cortada torta e desfiada despropositadamente. Até aí, pouca coisa impressiona além da coragem. Audácia e estilo a toda prova estava no pisante. A moça usava uma meia final, lisa e preta, estilo cobrador de ônibus. Calçava um tenis dois números acima do seu (o namorado, pai ou irmão... sinto em constatar que alguém ficou descalço), cabendo-me a desconfiança de que assim o fez por estar com as unhas grandes. O modelo do tenis era aqueles runners (todo acolchoado, para corrida ou aeróbica, qualquer atividade de impacto), no tom azul claro com azul marinho e detalhes cinza. Não tentem imaginar! Ah, claro, tinha o filme da mostra. Chamava-se “Entoados”. Estabelecia uma análise extensa sobre a cultura e importância dos sinos, num trabalho etnográfico feito em algumas cidades históricas de Minas Gerais. Minha ignorância palpita que em Mariana e/ou Diamantina. Desse filme fiz reflexões diversas. Nunca poderia supor que o badalar dos sinos fosse uma atividade tão complexa, que envolvia mistérios, técnicas, lendas e distinções sociais, raciais e mesmo de gênero. Entre meus planos de uma vida decrépita e mansa, estava a idéia de fazer um concurso público qualquer numa cidade calma de interior, muito cogitadas as de Minas Gerais. Idealizava fazer o pachorrento circuito trabalho e casa sem trânsito, grandes incidentes violentos, ou o stress padrão dos centros urbanos. À partir desse filme meus planos não parecem tão simples. Hei de procurar uma cidade com tradição religiosa menos arraigada, ou mais grosseiramente, com menos sinos em igrejas. Muito bonito, muito importante, mas consigo viver bem sem tantas badaladas em meu dia-a-dia. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 12:20 PM :: Escreve que eu leio!: Sábado, Novembro 03, 2007
Turbilhão temático: Quero ver quem encaraO blogger não acabou, não fechou, não morreu.Talvez a empolgação de escrever minhas insanidades tenha dado uma desacelerada vertiginosa. Talvez o empenho dos quatro assíduos leitores não esteja sendo levado muito em consideração enquanto estímulo. Posso pensar em uma gama de motivos, uns mais uns menos plausíveis, para justificar o abandono, a desatualização desse espaço. Só o que eu não posso é dizer que não atualizo por falta de assunto. São tantos e diversos assuntos para escrever que, tento que escolher entre uns e outros eu escolho nenhum. É uma escolha difícil, não subestimem. Pensei em escrever um conto ou crônica tendo como pano de fundo a doação de órgãos. Cheguei a escrever, mas ao meu ver ele ficou pendendo ora para o clichê, ora para a falta de tato em lidar com assunto tão sério e delicado. Meus eufemismos, deboches e grosserias não se alinham muito a algumas causas específicas. Um dia tentarei ajustar esse conto. Por falar em falta de tato, a violência é sempre um tema difícil de lidar. Mais difícil de controlar do que sobre ela escrever. O filme “Tropa de Elite” condensa muito bem a inadequação do “uso” do monopólio da violência do estado. Digo de modo legítimo, pois esse monopólio ta mais para oligopólio. Para abrir uma franquia basta a compra de um arsenal bélico e a sua atuação no mercado de contravenção está garantida. Mensalmente há que se pagar a taxa de franquia, o arrego. Investimento com retorno garantido, é o top 10 dos mais lucrativos investimentos segundo a revista “Pequenas Empresas Grandes Negócios”. Falando em negócios, valendo-me do ensejo do filme, a pirataria é um outro ramo excelente de atuação. O filme foi tão bem distribuído pelos camelôs que quando entrou em cartaz já era sucesso absoluto. Muitos duvidavam até da rentabilidade da bilheteria, já que o filme tinha sido visto e comentado antes de estar nas telonas. O debate tem dois ramos. O primeiro é a acessibilidade dos produtos culturais, o segundo é a pirataria. Justo quando há uma movimentação de democratização de um bem cultural, as classes que se valem da comercialização, isso inclui a arrecadação dos imposto sobre mercadorias, se mostram indignados com o crescimento da ilegalidade. Deixemos a consciência falar mais alto do que o desejo de perpetuar a aviltante estratificação social no Brasil. Os que combatem a pirataria alegam que ela tira o emprego de muitas pessoas, e não pagam impostos. Ora essa, em resposta ao desemprego, certamente há quem pirateie e quem comercialize, e garanto que não são poucos os que fazem isso. Mas, devo admitir que dentro da ilegalidade. Mas se os empregos informais, na base do trabalhe o máximo que consegue e pago o mínimo possível, é bem melhor ser ilegal, trabalhar muito e ser explorado por si, a ouvir reclamações intensas dos patrões que sugam tudo do trabalhador e sempre se dizem “pobres-coitados”, que pagam em dia muitos impostos e que fazem de tudo pelo bem estar do trabalhador. Sobre a pirataria, o que eu tenho a dizer é que é pouca! Eu quero é mais. Eu sou tão muquirana que nem produto pirata eu compro. Eu pego emprestado com quem comprou. A arrecadação dos impostos é outro tema. O estado já pode ser considerado mínimo, a economia neo-liberal assola a humanidade, derrota os estados e esmaga a população. Na vertente do trabalho vemos cada vez mais distante o saudoso corporativismo e nos resta o legislado, quando muito. É esse mesmo estado que zela pelo bem estar dos seus cidadãos que vota a permanência da injustificável CPMF. Não há nesse mundo quem consiga me convencer que a cobrança da CPMF deve permanecer. Vou morrer pensando e amargando essa facada que os cofres públicos dão no cidadão. Ela não existiu desde sempre, portanto, se era pra ser temporária, o tempo esgotou-se. Se não há como governar um país sem ela, entregue o país ao dará e assuma a incompetência inflada pela corrupção e vício dos governantes. Sobre essa assunto indignação é uma palavra que pra mim não basta. Pra tentar finalizar, sem ser conclusiva, exata, ordenada ou correta, não consigo ignorar a babaquice do Luciano Huck de se valer dos meios de comunicação para mostrar-se inconformado com a violência por ter tido um rolex roubado. Para não dar ao sujeito mais crédito do que ele merece, digamos que o rolex roubado é o preço, muito barato por sinal, por expor a miséria alheia, fazer notoriedade com a necessidade de uma população tão carente. É sempre bom lembrar que são necessários muitos miseráveis para fazer um rico. E que ser rico, no Brasil, não é sinônimo de mérito ou empenho. Não há livre competição, não há igualdade de oportunidades, não há enaltecimento das capacidades individuais. O que há é a perpetuação das elites, e enrijecimento do quadro social, modelo estamental, quase castas. Escrevo tudo isso bem confortavelmente. De destacável nesse país é a liberdade de expressão. Falo do alto do meu absoluto descomprometimento político. Não sou comunista, socialista ou anarquista. Adoro o capitalismo, compreendendo que ele nunca vai ser bom para todos, mas há que ser razoável para a maioria. Nem de longe é o quadro que anda sendo pintado. Não tenho raiva dos ricos! Sabe-se lá o que é dar um helicóptero para o filho e não poder circular em paz com um rolex!? Nem tenho pena dos pobres a ponto de tomar partido cegamente. O que abomino é a resignação na crença de que as coisas são assim mesmo. Com vontade, pobres e ricos podem ser menos vítimas passivas de um sistema e mais senhores dos rumos de suas vidas. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 5:50 PM :: Escreve que eu leio!: |