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Pitty que pariu
Terça-feira, Abril 29, 2008
Rio pra ti sorrioA cidade amanhecia sob uma brisa leve e morna e um sol tímido. Poderia ser uma manhã como outra qualquer, mas era o dia oficial de sua fundação, 1º de Março. E eis que o dia não haveria de passar sem devido proveito. Charmosa por si e maravilhosa pela exaltação de terceiros, em vários bairros os cariocas extravasavam sua paixão e carinho pela cidade, em comemorações de estilos mais diversos. Da zona norte a zona sul ritmos como a bossa nova, o samba e o choro ditavam o ritmo da festa. No centro, junto aos arcos da Lapa, a noite de muita empolgação num show ao ar livre comandado por Elba Ramalho brindou a cidade com um presente inestimável. Num palco de dimensão generosa, Elba ia de um lado a outro, cantando e dançando muito entusiasmada pelo aniversário da cidade, tão carioca que a cantora não é. Rente ao palco até a distância de uns 300 metros uma multidão se estreitava e se entretinha.Nem sei o quê faziam mais, mas lá estavam. Os esbarrões são como termômetro do entusiasmo de um evento popular, e nesse show era tudo o quanto não faltava. Na inviabilidade de todos transitarem, transitam os ambulantes, que não são poucos. Com isopores nas costas, ou puxados por carros improvisados com rodas de rolimã, vendem quase que exclusivamente cervejas e refrigerantes. E ainda no meio da multidão, há os que com enormes sacos plásticos recolhem latinhas de alumínio. Diga-se de passagem a cada dia há mais vendedores e catadores do que consumidores. É mais ou menos esse é o cenário da muvuca que não desanima com quase nada. Um tanto distante do pessoal que sem dó se espreme, três amigas, já senhoras, estão dançando. Uma delas calçava uma plataforma que comprometia demais a desenvoltura da altiva dançarina. Achou por bem dançar descalça. E todos cantando e dançando. Bem próximo dali, um rapaz ao notar cacos de vidro no chão trata logo de recolher, colocar numa distância segura, rente a um bueiro. Aproveitou e ainda alertou a senhora que dançava descalça entre as amigas para que tomasse cuidado para não se cortar. Um senhor que catava latas, vendo a senhora descalça tirou o chinelo que calçava e ofertou a ela, que sorrindo aceitou. E assim o show fluía. O trio de amigas continuava alegre e dançante música após música. Esporadicamente viam o catador de latas passando descalço e gritavam entusiasmadas, fazendo festa, demonstrando o quanto o chinelo estava sendo bem usado. Ele sorria, acenava positivamente pra elas e se mostrava também animado. O saldo do show foi a alegria e harmonia de uma grande comemoração. Um brinde à cidade maravilhosa que abriga pessoas gentis e sensíveis, aptas a ofertar ao próximo o melhor de si, dando exemplo do que é por em prática o ideal paz e amor. De pequenos gestos como este é que a imagem da cidade deveria se propagar. Nada de violência, nada de desentendimentos, nada de aura do perigo. Eis o grande presente que a população não se farta de doar à cidade: gentileza e alegria. Vale lembrar que a senhora que dançava, ao final do show ficou no mesmo lugar, esperando o dono do chinelo voltar. Com sorriso largo, abraço apertado e enorme agradecimento devolveu os chinelos ao gentil cavalheiro que cata latas. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 11:33 PM :: Escreve que eu leio!: Terça-feira, Abril 08, 2008
O que o trabalho inspiraEm 1880 a princesa Isabel assinou um famigerado documento que decretava o fim da escravidão no Brasil. E assim, por um documento, sem mais nem mais, foi abolida a instituição que durante séculos forneceu mão-de-obra para tocar uma colônia que hoje tem sua soberania e chamamos de país. Das milhares de indagações a respeito desse processo e de suas conseqüência nesse minuto me instiga como conseguir uma percepção positivada do trabalho. Como não relega-lo às pessoas que não têm liberdade e/ou escolha? Como não tornar o trabalho uma ação pejorativa? Para os brasileiros a resposta a esta pergunta é tão simples que chega a ser despropositado se indagar. A resposta é FINGIR QUE TRABALHA. Os índices de desemprego, o afrouxamento das leis trabalhistas, as pressões mundial para adoção de medidas neo-liberais, tudo o mais é nada frente ao poder debochado do brasileiro de lidar com situações adversas. Conheço muitas pessoas que não tem emprego fixo, várias que têm a carteira de trabalho virgem, aliás é nesse grupo que eu alinho, e até quem nem se dê ao trabalho de ir tirar uma carteira de trabalho. Mas o maior número de pessoas que percebo são as que, com ou sem carteira assinada, fingem que trabalham. Pode parecer loucura minha, mas eu olho para as pessoas e fico imaginando que atividade produtiva elas desenvolvem. Olho pra um vizinho de terno e gravata, mais cheiroso que besouro da Amazônia, cabelo bem cortado, num sapato tão bem conservado que parece até que o dono anda de cadeira de rodas, e vem logo o enigma: o que ele faz? Simples! O cotidiano é o seguinte: chega no escritório as 9:00h e toma um café conversando com o pessoal até as 10h. Parte então para seu computador e começa a burocracia. Abre a agenda e dá logo três telefonemas. O primeiro pra mãe, o segundo pra esposa ou peguete e o terceiro pra um amigo. Sendo casado telefona pro amigo pra reclamar, sendo solteiro pra aprontar. Vocês pensam que a hora não passa, mas já avançamos para as 11h, e o sujeito ta atarefado. Entra com a senha no computador, baixa os e-mails e toca a apagar as propagandas, ver os slides de power point ou com conteúdo de moral edificante ou pornográfico, repassa as piadas e slides mais ou menos e eis que já são 12h. Desce em bando pra almoçar, passa em lojas pra comprar qualquer coisa inútil que lhe dê consolo por um dia-a-dia tão stressante e volta para o escritório 13:20h. Mais café, com mais bate-papo, até que 14h não tem jeito, tem que voltar pro computador. Navega na internet das 14h às 17h. Toma mais um café, até que chega do nada a emergência de fazer um relatório. Ele só tem até às 18h para relatar as atividades do dia, tudo pra uma reunião no dia seguinte. E faz! São quatro laudas no Word, fonte tamanho 20, espaçamento duplo. Era até mais fácil fazer em power point. Mas enfim, já deu a hora de voltar pra casa. Chega de trabalho por hoje, o sujeito já está exausto. Tal e qual estaria qualquer outra pessoa ainda que não fizesse nada. E quando vislumbro uma vizinha, tailler de cor mórbita, cabelo tão aprumado como uma peruca Lady (Copacabana, Barata Ribeiro), com aquele cacharrel terrível que o cheiro muito faz lembrar a penteadeira de uma meretriz (vovô se valia bastante dos serviços dessas damas, por isso que sei bem o cheiro), meia-calça kendall na cor da pele (da pele da Pina, porque dá logo pinta que a ridícula tá de meia, tamanho o contraste da cor das pernas com as mãos), uma base no rosto mais grossa que a máscara de Jason, as unhas disputando destaque com as do Zé do caixão, e fechando o modelito um scarpin básico e uma bolsa de couro com fivelas banhadas a ouro da Lui Vitton (camelôs e ciganos conseguem uma réplica que andando rapidinho nem especialista distingue, e La garantia soy yo!). O que ela faz? Que profissão exerce? É amiga de escritório do sujeito já mencionado. O que supõe que o dia-a-dia deles é bem parecido. A diferença é que enquanto ele navega ela faz os slides de power point que circulam na internet, e as correntes católicas. Divulgarei aqui, em primeira mão, os sites indispensáveis para as pessoas que “trabalham”: Google: Aqui é o começo e o fim. É aqui que ele rouba textos para introduzir nos bonitos relatórios. Aqui também, ele e ela, pesquisam bons preços de agencias de viagens, para ir programando o que vão fazer nas férias, nos feriados prolongados e tudo o mais. Orkut: Alguém vive sem socializar? Então, o sujeito que trabalha tem o direito e dever de estar a par de tudo o que acontece com as pessoas que o rodeia. Fiscalização branda no profile da namorada, ou esposa, para não parecer ciumento e neurótico. Fiscalização moderada nas ex, como um tratamento, pois ele jura que aos poucos vai esquecer ela e parar com esse vício de querer saber o que se passa. E fiscalização intensa nas possíveis, sempre atirando pra tudo quanto que é lado, pois como diz meu sábio e filósofo primo: se eu não “panhar” vem outro e “panha”. As mulheres visitam praticamente os mesmos profiles, só que em relação aos namorados e/ou maridos, pois tá louca de saber como ele reage a tudo isso. Enfim, o orkut é o inferno na terra. Climatempo: Como é que a pessoa vive sem saber se está sol ou chuva, calor ou frio. Dentro do escritório a temperatura é permanente em cerca de 19º, mas a criatura não vive sem saber como está o tempo lá fora. Além do mais, da pra fazer também aquela análise para o final de semana, feriado, e ver se fica melhor ir à praia ou serra. Fliperama: pra jogar e/ou baixar alguns games, pois ninguém é de ferro, tem horas que é preciso descontrair. Horóscopo Virtual, GuruWeb, TerraEsotérico: porque ninguém acredita em horóscopo, tanto quanto nem duvida. Pelo sim, pelo não, não tenho muito mais o que fazer, é melhor dar uma conferida. De repente até um tarô on line. O casamento entre signos. GloboEsporte: para acompanhar os resultados da rodada, o estadual, o Brasileirão, a Copa América, a Libertadores, o Mundial, e sobretudo a escalação de times deveras importantes como o “XV de Jaú”, “Ferroviária de Araraquara”, “Ìbis”, “América” do Rio de Janeiro e o Paysandu. Sem falar no grid de largada da F1 e o campeonato estadual de basquete. Só com um conteúdo tão denso é que o sujeito está apto a tomar um cafezinho e confraternizar sem se sentir diminuído por falta de assuntos. O Fuxico: É de extrema relevância saber dos novos affairs da Preta Gil, do mais recente namorado da Galisteu ou Cicarelli, e enfim, essas informações que precisam ser acompanhadas semana a semana, quando não diariamente. O mundo tá rodando e a mulher só lá trabalhando? Não, não mesmo, é preciso uma Dirce para colocá-la ciente do resumo das novelas, da vida dos artistas, celebridades e quem mais coloque o traseiro à mostra. Oglobo: esta página é tudo. É o que há. É quase como um protetor de tela. Varam janelas ao pé da tela, msn piscando, oito profiles e quatro comunidades do orkut, mas se o chefe passar de uma hora pra outra irá se debater logo com uma página cheia de informações, fundamentais ao bom desenvolvimento do trabalho diário. Enfim, é dura a vida de um trabalhador. O dia inteiro nesse ambiente insalubre, trabalhando oito horas e as vezes tendo que fazer hora extra, tanta informação, isso acaba com o ser humano. É uma vida árdua, mas alguém tem que fazer. Só mesmo com essa ação inteligente de desobediência profissional, pois já que o patrão finge que nos paga, nós fingimos que trabalhamos. Destorcendo o que foi a estratégia de Gandih é que estão os brasileiros nos escritórios. Pode parecer tolo, mas um processo como este demora uns 200 anos para se consolidar. Agora, se você trabalha e tem mais de dois desses links que apontei em seus favoritos, vamos admitir: você também finge que trabalha! :: Postado Por Priscilla Xavier :: 9:55 AM :: Escreve que eu leio!: Quinta-feira, Abril 03, 2008
Meio confuso falar do Meio AmbienteVivemos um período em que os analistas que têm ejaculação precoce já chamam de pós-neoliberalismo. Deixemos que eles se divirtam em detectar o presente como passado e o futuro como presente, sem que sequer acreditem que esse presente virá. Tratemos de algo que está na ordem do dia, a preservação ambiental. O primeiro fator a ser levado em consideração é que, estejamos onde estivermos, fazendo o que for, o mundo ta dando suas voltinhas. Se você ficar de olho ele gira, se piscas ele gira também. Essa frase pode parecer, e até é, imbecil. Mas ela identifica um tanto da postura de quem vos escreve. Anotem! Quando em 1945 bombas atômicas foram arrogante e covardemente lançada sobre as cidades de Hiroxima e Nagasaki, o mundo se estarreceu com o seu poder de destruição. As regiões afetadas, excluindo as inestimáveis perdas humanas, sofreram e ainda sofrem com impactos ambientais. Sem adentrar nas especificidades de clima, terreno e vegetação, as bombas foram decisivas para as pararem pra pensar nas questões ambientais. Desses dois bombardeios para cá, outras bombas foram criadas, algumas lançadas, e outras testadas. E a cada desenvolvimento no setor de “destruição e ameaça”, maiores e mais exaltados são os alardes que o meio ambiente está sendo castigado. Fato! Quando falam que as reservas de águas são finitas eu acredito. Mas não tomo como uma verdade absoluta, não estoco água nos bolsos nem escovo os dentes com caneca. Afinal, moramos num planeta comporto de 70% de água. A maior parte é salgada, mas é água. Que desenvolvam processos de dessalinização. É estúpido eu falar assim? Certamente, mas é melhor do que tomar banho a seco. Quando falam que o aquecimento global é um fenômeno que ameaça a humanidade, degrada o meio ambiente, que é impulsionado pelo aumento de consumo material, da produção de lixo, da quantidade de automóveis, da criação do gado e tudo o mais, eu acredito. Mas eu não visto a culpa como um manto e me junto a um grupo de franciscanos que pregam uma alimentação frugal e vida desapegada dos bens materiais. O american way of life é lindo, mas não contempla a humanidade equanimemente. Os papéis sociais numa perspectiva mundial são opostos e sem equivalência numérica. O cálculo é cruel! Para fazer um milionário é preciso centenas, e talvez até milhares, de miseráveis. Para um país degradar é preciso um continente para preservar. A conscientização dos problemas ambientais é mais do que necessária, é uma postura responsável e ponderada, é um reflexo de respeito a si e ao próximo, uma orientação também em prol das gerações futuras. Mas por favor, não façam pouco caso do meu discernimento com gráficos e estatísticas apocalípticas e com mudanças de hábitos drásticas. De tudo o que se prega em prol da preservação do meio ambiente é o fato de que raramente consideram o homem como um ser natural. Parece que ele é um elemento que foi colocado na natureza para combate-la. O ser humano não é posto numa cadeia, num ciclo, de modo que viver passa a ser necessariamente uma agressão ao meio. Uma arara azul tem direito de nascer, crescer, com a ajuda de ambientalistas e biólogos se reproduzir, e para o lamento da humanidade fechar o seu ciclo morrendo. Ela grita e não polui sonoramente. Ela come várias sementes e frutas, mas não estraga nem extingue nada. Ela excreta, mas deve até ser cheiroso. Agora eu não posso dar uma simples barrigada que já poluí a baia de Guanabara. Como assim? Eu vou de carro de um lado ao outro da cidade e já condenei o ar que respiramos a um ar que nos envenena. Eu vou até parar de escrever, pois pra quem não sabe o computador além de aquecer, utiliza a energia que pode ser do petróleo (fonte esgotável), nuclear (Se eu ouvir soar a emergência em Angra já rezo encomendo a minha alma. Pra você vê como a ecologia em algum momento alcança a religião) ou hidráulica (sabe Deus o impacto social e ambiental dessa uma barragem). Isso tudo sem falar nos componentes, minérios incontáveis. E a fabricação? Essa emana é calor, gera lixo, polui mesmo. Não é ecologicamente correto viver num mundo pós-neoliberal, definitivamente. Vou pular pra outro galho, porque esse aqui já deu. :: Postado Por Priscilla Xavier :: 10:14 AM :: Escreve que eu leio!: |